

Mr. Hulot é o alter-ego de Tati, a ponto de confundirmos a personagem com o seu criador que captou como poucos os pequenos momentos e reacções do quotidiano de uma sociedade. Sociedade em transformação de representações e de valores, revelando os confrontos com a simplicidade do ser de uma ganga contra a qual ele nunca se manifestou civicamente, ao ponto de, para alguns, se deixar confundir com um personagem deslocado no tempo e no espaço, um D. Quixote que não investe sobre os moinhos. Porém, ele é, na verdade, um flaneur de Baudelaire dos tempos modernos. Um flaneur que nos desafia a ver coisas que, de banais, não nos chamam a atenção. Atitude, aliás, muito conseguida com o perfil subtil que paira nas situações de uma forma esguia, ela própria rejeitando um estereótipo de elegância que surpreende e onde a gabardina, o cachimbo, o chapéu, o guarda-chuva e as calças curtas se tornaram adereços identitários, como existiram já nas Férias do Sr. Hulot (1953) no Meu tio (1958), e depois dos que nos trouxe, como carteiro, no Carrossel da Esperança (Jour de Fête, 1949), a sua primeira longa-metragem.
Em Hulot, e especialmente neste filme, o humor, os gestos humanos, o desassombramento perante as dificuldades, estimularam uma combatividade esclarecida que não renegou a cultura nesta época. Filmado sem um close-up e com cenas que não se esgotam apenas num tema nem

O restauro deste filme que esteve em risco de se perder pela degradação dos negativos originais, permitiu um reencontro com o público, depois do impacto da sua estreia original, injustamente condicionado, em termos de crítica, pela sua realização cara e acidentada.
Jacques Tati já era um realizador reconhecido e premiado, particularmente depois do Meu tio, no final dos anos cinquenta quando desenvolveu o projecto do Playtime, claramente exorbitante nos recursos, não se tratando de um filme norte-americano. Eram os anos sessenta, a França disputava aos EUA uma influência cultural imbatível em termos de mercado, e o desejo de

Felizmente, o filme sobreviveu e é um das melhores obras cinematográficas do século passado, que mantém grande actualidade.
Sobre a sua vida e obra consultar
http://www.tativille.com/
Sem comentários:
Enviar um comentário