sábado, 27 de dezembro de 2008

Uma companhia ao fim-de-semana, logo pela manhã

Moramos em sítios diversos. A actividade política de meu pai a isso nos obrigava. Mas não me esqueço daquele terceiro andar na Rua Casimiro Freire.
Depois daquele café com leite gostoso com o pão que o rapaz da padaria trazia e metia no saco de pano que a mãe deixava do lado de fora da porta. Depois de pousar a canasta de vime, com aquele ranger agradável como nos estivesse, também ela, a dar-nos os bons dias. Como a leiteira com as suas bilhas, ela roliça e rosada de rosto: "Olá meninos! Ó D. Regina experimente este queijinho que lhe trouxe..."

Mas ver a rua, por cima do canteiro da varanda, sempre com flores que minha mãe renovava, era um apelo à leitura.... já ireis vêr porquê.
O ardina, entretanto, acabava por entrar na rua e fazer-se sentir. Dobrava o jornal para o meu pai, metodicamente, e lá dentro metia a minha revista. Era como se o dia recomeçasse.

Regalado do estômago, lá sentia o jornal dobrado bater na vidraça da varanda. Saltava, desatava o nó que ainda trazia aquele cheiro fresco da tinta da impressora.

O meu pai agarrava o jornal, lia as gordas e recomeçava a leitura de fio a pavio. Eu deitava-me no chão a ler o Cavaleiro Andante, o Mosquito ou o Mundo de Aventuras, deliciado. A meu lado o Chico, o meu gato, procurava chamar a atenção, enfiando-se debaixo de um chapéu e percorrendo a sala só com o rabo de fora. Mas eu, nada, não lhe dava troco a não ser depois de concluir a leitura.



Pois era! Era um momento da semana que não esquecia nem trocava por nada...

2 comentários:

gabriela disse...

Este teu texto tem sabor, tem cheiro,apela ás memórias.
Recordar as coisas boas que vivemos faz-nos viver mais um pouco.
Parabéns!

anamar disse...

Recordar è acrescentar pontos à nossa mem`ria afectiva !
È bom saber estorias de amigos...
Abracinho.