segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Os zés-ninguém, de Eduardo Galeano, por migana


Sonham as pulgas comprar um cãoe sonham os zés-ninguém deixar de ser pobres.
Que algum dia mágico lhes traga a sorte,que chova a cântaros a boa sorte.
Porém a boa sorte não choveu ontem,nem choverá hoje, nem amanhã, nem nunca.
Nem a chuva cai do céu, nem a boa sorte,por muito que os zés-ninguém por ela clamem.
Ainda que lhe acenem com a mão esquerda,ou se levantem com o pé direito,ou comecem o ano mudando de escova de dentes,os zés-ninguém, os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os zés-ninguém: os nenhuns, os não nomeados,correndo como lebres, morrendo na vida
Fodidos e refodidos.
Aqueles que não são, ainda que sejam.
Que não falam idiomas, apenas dialectos.
Que não professam religiões, apenas superstições.
Que não fazem arte, só artesanato.
Que não fazem cultura, só folclore.
Que não são seres humanos, apenas recursos humanos.
Que não têm cara, só têm braços.
Que não têm nome, apenas um número.
Que não figuram na história universal,só na crónica vermelha da imprensa local.
Os zés-ninguém que custam menos que a bala que os mata»·


Tradução livre de um poema de Eduardo Galeano do livro"Los Nadies"

1 comentário:

Mári disse...

Belíssima escolha! Excelente blog! Parabéns pela iniciativa!!!