quarta-feira, 21 de abril de 2010

Que fazer com estes jovens?


Daniel Sampaio e Manuel Alberto Valente foram ontem polos de monólogos sobre os mesmos temas: a inquietação com a evolução do comportamento dos jovens, da capacidade do sistema educativo cumprir o seu papel, da disciplina.

Não sou entendido nestas matérias mas percorri experiências e arrisco alguns palpites.

A conquista da democracia foi acompanhada com uma explosão de iniciativas juvenis. A contenção da criatividade e de um novo quadro de comportamentos sexuais, culturais e de moda desapareceu. Essa foi uma das muitas tampas de panela que saltaram.

Muitos pais corresponderam a estas transformações mas o novo para eles gerou-lhes faltas de respostas, nomeadamente quanto à reconfiguração da autoridade no seio da família, ao papel educador dela, a perda dela como um dos factores de socialização, de gestão dos afectos, de formação do carácter.

A família acabou por ser engulida no consumismo, procurando estatuto que não tinham com a ostentação de ícones, repetidamentre substituídos. Mesmo entre camadas com uma suposta débil capacidade aquisitiva, deparámos em Lisboa com agregados familiares em que entravam todo o tipo de novos equipamentos mas as refeições não existiam ou eram relegadas das prioridades ou preenchidas com fast food e doces. Se as escolas não alimentassem de uma forma correcta, a deformação continuaria.

Esta uma influência nefasta do capitalismo. Outra é a falta de saídas profissionais que leva à menorização da importancia do ensino. Outra o apelo à marginalidade ou a economias paralelas, decorrente da anterior e da falta de emprego, salários infames quando são pagos... Outra a atracção por padrões éticos identificados nas camadas dirigentes. O ladrão, o corrupto, o aldrabão e o violento passaram de renegados a ícones.

A escola não é libertina por causa da orientação dos professores. Não são santos e trazem muitas limitações de preparação e vocacionais. Mas se não fosse a escola e o heroísmo de muitos professores, as situações poderiam ser bem mais graves.

O bullying, sem esse nome, vem muito de trás mas neste quadro é potenciado. Um jovem pode ter um projecto de vida mas hoje trabalham para o dia-a-dia, e os outros dias depois se vê.

Quando algumas mentes, mais ou menos conservadoras, contra as novas gerações, que vão dar cabo deste mundo, que vão ser incapazes de gerir o que receberam, que não sabem escrever ou lêr, que vão ser a desgraça deste país, etc, etc., não basta contrapor-lhes que noutras épocas históricas, intelectuais famosos fizeram este tipo de profecias e o mundo...avançou, a humanidade atingiu melhores patamares. Esta atitude é de um esquematismo mecânico inaceitável. Provavelmente os jovens de hoje já se moldaram às perspectivas futuras, bem piores que as dos seus pais e avós, as nossas preocupações com eles já não correspondem às preocupações deles consigo próprios.


Uma coisa é comum a todas estas tendências: a atitude do capitalismo e dos capitalistas e dirigentes do Estado estão na origem delas. Os Sócrates, Belmiros e outros actores desta legião não escapam, sacudindso a área do capote...

2 comentários:

migana disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Jorge disse...

Sobre o eternamente recorrente diagnóstico de "perdição" da juventude, vale a pena ler o início deste artigo do "British Medical Journal" dedicado à adolescência: http://www.bmj.com/cgi/pdf_extract/2/5761/549
(e que tal traduzir os primeiros 5 parágrafos?)