sábado, 3 de março de 2012

"O medo de Carlos Drummond de Andrade

O Medo é o que caridosamente nos resguarda e impede de naufragarmos em nós próprios. Ajuda-nos na ilusão. Ajuda-nos na segurança ilusória.


O Medo que evita naufragarmos num mar mais amplo e tanto mais perigoso quanto é a nossa incapacidade de/para nadar...

 

Vejamos como fala dele Carlos Drummond de Andrade.


  O Medo

Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

Vadeamos.

Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.

Há as árvores, as fábricas,

Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,

Este célebre sentimento,

E o amor faltou...

O medo, com sua capa,

Nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,

Meu companheiro moreno.

De nos, de vós, e de tudo.

Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses.

Nosso caminho: traçado.

Por que morrer em conjunto?

E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,

Vem ó terror das estradas,

Susto na noite, receio

De águas poluídas. Muletas

Do homem só.

Ajudai-nos, lentos poderes do

Láudano.

Até a canção medrosa se parte,

Se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.

1 comentário:

Anónimo disse...

O MEDO QUE NOS TOLHE.
EXCELENTE TEXTO.