sexta-feira, 24 de abril de 2015

Frase de fim-de-semana por Jorge

"Todas as coisas são difíceis antes de se tornarem fáceis"

Saadi Shirazi
poeta persa, 1213-1291

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Recordando o Mariano Gago


Conheci o Mariano Gago no Técnico em 1968.
Foi um ano de lutas estudantis que abalaram o regime, e em
que eu fui um entre muitos activistas (ou colaboradores associativos para o jargão da época).
No rescaldo dessas lutas uma lista por ele presidida, de que eramos vice-presidentes eu e o Rui Teives, bem como o João Vieira Lopes que ficou com as relações externas e o A.P.Braga como tesoureiro, entre outro, ganhou as eleições como lista única e largo apoio entre os estudantes do IST.
No decurso deste mandato ocorreram novas lutas.

O Governo voltou a fazer depender, em Dezembro, o adiamento do serviço militar dos estudantes do seu “comportamento académico”. Conselho Universitário da Universidade Técnica de Lisboa dá parecer desfavorável à medida, para depois recuar. Um plenário de estudante do IST aprova moção contra a arbitrariedade expressa na nova legislação militar (recrutamento para o exército por razões disciplinares.
A partir de Fevereiro a AEIST deu todo o apoio logístico e técnico à luta dos estudantes do Instituto industrial de Lisboa que passou por um longo período de encerramento da escola e da associação de estudantes. O mesmo apoio foi dado à luta dos Estudantes de Coimbra, do Instituto Comercial de Lisboa e do ISEG, ambas escolas ocupadas pela polícia.
No dia 6 de Maio realiza-se uma manifestação de estudantes de Lisboa pela libertação dos estudantes presos, com gritos contra a PIDE, o fascismo e a guerra colonial.

Em 10 de Maio os estudantes de Lisboa, em Assembleia Magna, na Cantina da Cidade Universitária decidem decretar greve na Academia em 15 de Maio em solidariedade com os estudantes e Coimbra, também vítimas da repressão.
Nos dias seguintes, centenas de estudantes manifestam-se duas vezes, em Lisboa, em solidariedade com os colegas presos, contra a repressão e em solidariedade com a Academia de Coimbra
Em Julho, o Conselho Consultivo para coordenar a preparação da reforma do ensino dá por encerrados os seus trabalhos, depois de uma participação mitigada de estudantes do IST.
Anunciadas em Setembro reformas do IST e ISCEF, do Ministro Veiga Simão, que se alargariam a todas as Universidades. Alguns aspectos vêm já do tempo de José Hermano Saraiva, como a criação do Politécnico e de um secretariado para a Reforma, que integra Fraústo da Silva, Miller Guerra e outros professores, mas que se demitiria posteriormente por não ter acesso à comunicação social.

Daí  conheci ao "José Mariano" características que manteve ao longo da vida: querer ouvir e saber, só depois formar opinião, ser firme mas dialogante. Não estando de acordo com ele em algumas decisões enquanto Ministro, importa ressaltar dois aspectos: Foi o único Ministro da Investigação que sabia do que falava, que colocou a Ciência e a Investigação no centro da vida e da cultura políticas, era um homem de serviço público, não fechado nas escolas mas progredindo também nas interacções exteriores que poderiam beneficiar cientificamente o País. Como aconteceu.

Deixo-vos aqui em baixo uma foto de um convívio que fizemos
no IST em 2002. Ele está na 1ª fila, na ponta da direita a dizer-nos adeus.
    
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A História impõe à Europa que receba, acolha e integre estes imigrantes

Nas últimas décadas terão morrido em várias rotas migratórias para a Europa mais de 25 mil pessoas.

A Europa carrega a importância moral deste fenómeno.
Os colonizadores europeus em África despojaram os povos de vários países de condições mínimas de dignidade enquanto lhe saqueavam matérias primas, deixando de lado investimentos de desenvolvimento até à descolonização.
Mais recentemente as "Primaveras" árabes em países do Mediterrâneo fizeram implodir estados que ofereciam garantias desenvolvimento e coexistência de diversas tribos e nações. Ficaram no seu lugar bandos de  malfeitores que, entre outras coisas, traficam imigrantes para a Europa, sabendo que milhares deles irão morrer depois de lhes cobrar elevadas quantias. Há rotas particulares de tráfico humano para o trabalho ilegal escravo e a prostituição na Europa.
A agressão pela NATO em vários países do Médio Oriente pioram esta situação.
O envio por Israel e a Arabia Saudita, com o silêncio cúmplice dos EUA e UE,
 de estruturas do Estado Islâmico e Al Qaeda para zonas problemáticas para os seus interesses agravam a selvajaria da guerra.

Segundo a jornalista Lúcia Müzzel, no ano passado, a União Europeia pediu o encerramento da operação de salvamento Mare Nostrum, que, segundo a Amnistia Internacional, permitiu resgatar 170 mil pessoas. Os europeus avaliaram que, ao propor um sistema de resgate, acabaram estimulando mais viagens de embarcações ilegais.
Agora, a operação Triton apenas monitoriza o mar, mas não tem o objetivo de socorrer barcos em dificuldade. “A proporção dos salvamentos é muito reduzida, porque as operações não cobrem toda a parte central do Mediterrâneo e ainda menos as águas internacionais em alto mar, onde acontece a maioria dos naufrágios. Ou seja: sim, a União Europeia tem consciência do fato de que as pessoas estão perdendo vidas, mas por razões de controle do fluxo migratório e de gestão da imigração, e não para salvar vidas”, ressalta Jean-Fraçois Dubost, membro da Amnistia Internacional na França. “A Europa está comprometida com operações que não salvam ninguém.”

A União Europeia tem que tomar medidas para a defesa destes imigrantes, o seu encaminhamento para situações de vida legais que os defenda um pouco da exploração patronal.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Raul Castro: viemos aqui cumprir com o mandato de José Marti, com a liberdade conquistada com as nossas próprias mãos

Segundo a reportagem do Granma de ontem, o presidente Raúl Castro afirmou no sábado 11 de abril que Cuba foi à 7ª Cimeira das Américas cumprir o mandato de José Martí com a liberdade conquistada com nossas próprias mãos.
Photo: cumbredelasamericas.pa
Agradeceu a solidariedade de todos os países da América Latina e do Caribe que tornou possível que Cuba participasse em pé de igualdade neste fórum hemisférico, e ao presidente da República de Panamá pelo convite e pelos minutos concedidos, pois “tantos anos de ausência” nestas cimeiras justificava que se estendesse um pouco mais que os oito estabelecidos para falar na sessão.
Sustentou que quando nos dias 2 e 3 de dezembro de 2011 foi criada a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos, em Caracas, se  inaugurou uma etapa na história de Nossa América, que tornou patente o seu direito, bem ganho, de viver em paz e a desenvolver-se como determinem livremente os seus povos e se traçou para o futuro um caminho de desenvolvimento e integração, baseado na cooperação, a solidariedade e a vontade comum de preservar a independência, soberania e identidade.
No ano 1800, pensou-se em adicionar Cuba à União do Norte como o limite sul do extenso império. No século XIX, surgiram a Doutrina do Destino Manifiesto com o propósito de dominar as Américas e o mundo, e a ideia da Fruta Madura para a gravitação inevitável de Cuba para a União norte-americana, que deixava de lado o nascimento e desenvolvimento de um pensamento próprio e de emancipação.
Afirmou que depois, mediante guerras, conquistas e intervenções, esta força expansionista e hegemónica despojou a Nossa América de muitos territórios, estendendo-se até o Rio Bravo.
Após longas lutas que foram frustradas, José Martí organizou a “guerra necessária” e criou o Partido Revolucionário Cubano para a conduzir e fundar uma República “com todos e para o bem de todos”, que se propôs atingir “a dignidade plena do homem”.
Ao definir com certeza e antecipação os traços de sua época, Martí entregou-se ao dever “de impedir a tempo com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendessem pelas Antilhas e caíssem com força sobre nossas terras da América”.
A Nossa América é para ele a do crioulo, do índio, a do negro e do mulato, a América mestiça e trabalhadora que tinha que fazer causa comum com os oprimidos e saqueados. Ora, para além da geografia, este é um ideal que começa a tornar-se realidade, explicou Raúl.
Acrescentou que há 117 anos, em 11 de abril de 1898, o então presidente dos Estados Unidos solicitou ao Congresso autorização para intervir militarmente na guerra de independência, já ganha com rios de sangue cubano, e este emitiu sua enganosa Resolução Conjunta, que reconhecia a independência da Ilha “de fato e de direito”. Entraram como aliados e apoderaram-se do país como ocupantes.
Impôs-se a Cuba um apêndice na sua Constituição, a Emenda Platt, que a despojou de sua soberania, autorizando o poderoso vizinho a intervir nos assuntos internos e que deu origem à Base Naval de Guantánamo, a qual ainda usurpa parte de nosso território. Nesse período, aumentou a invasão do capital nortenho, houve duas intervenções militares e o apoio a cruéis ditaduras.
No dia 1 de janeiro de 1959, 60 anos depois da entrada dos soldados norte-americanos em Havana, triunfou a Revolução cubana e o Exército Rebelde comandado por Fidel Castro Ruz chegou à capital.
Em 6 de abril de 1960, apenas um ano depois do triunfo, o subsecretário de Estado Léster Mallory escreveu em um perverso memorando, revelado dezenas de anos depois, que “a maioria dos cubanos apoia Castro… Não há uma oposição política efetiva. O único meio previsível para restar apoio interno é através do desencanto e o desalento baseados na insatisfação e nas penúrias económicas (…) enfraquecer a vida económica (…) e privar Cuba de dinheiro e suprimentos com o fim de reduzir os salários nominais e reais, provocar fome, desespero e o derrubamento do governo”, citou Raul.
Também explicou que os cubanos têm suportado grandes penúrias. 77% da população cubana nasceu sob os rigores que impõe o bloqueio. “Mas as nossas convicções patrióticas prevaleceram. A agressão aumentou a resistência e acelerou o processo revolucionário. Aqui estamos com a cabeça bem erguida e a dignidade intacta”, sublinhou.
Quando já tínhamos proclamado o socialismo e o povo havia combatido na Baía dos Porcos para o defender, o presidente Kennedy foi assassinado precisamente no momento em que o líder da Revolução cubana Fidel Castro recebia uma mensagem dele procurando iniciar o diálogo, continuou.
Noutro momento do discurso, Raul afirmou que tinha expressado e reiterava agora ao presidente Barack Obama a nossa disposição para o diálogo respeitoso e a convivência civilizada entre ambos os Estados apesar das nossas profundas diferenças.
Considerou que o presidente Obama é um homem honesto e pensa que sua forma de ser tem a ver com a sua origem humilde. Mas normalizar as relações é uma coisa e o bloqueio é outra.
Apreciou como um sinal positivo uma sua recente declaração de que decidirá rapidamente sobre a presença de Cuba numa lista de países patrocinadores do terrorismo na qual nunca devia ter estado.
Até hoje, o bloqueio económico, comercial e financeiro aplica-se copm toda a sua intensidade contra a Ilha, provoca danos e carências ao povo e é o obstáculo essencial para o desenvolvimento de nossa economia. Constitui uma violação do Direito Internacional e seu alcance extraterritorial afecta os interesses de todos os Estados, sublinhou.
Da nossa parte, continuaremos envolvidos no processo de atualização do modelo económico cubano com o objetivo de aperfeiçoar o nosso socialismo, avançar rumo ao desenvolvimento e consolidar as conquistas de uma Revolução que se propôs “conquistar toda a justiça”.
Também reafirmou que a Venezuela não é nem pode ser uma ameaça à segurança nacional de uma superpotência como os Estados Unidos e qualificou como positivo que o presidente norte-americano o tenha reconhecido.
“Cuba continuará defendendo as idéias pelas quais o nosso povo tem assumido os maiores sacrifícios e riscos e lutado, junto aos pobres, os doentes sem atendimento médico, os desempregados, as crianças abandonados à sua sorte ou obrigados a trabalhar ou a prostituírem-se, os que passam fome, os discriminados, os oprimidos e os explorados que constituem a imensa maioria da população mundial”, sublinhou.
Lembrou que a aprovação, em Janeiro de 2014, na Segunda Cimeira da Celac, em Havana, da Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, constituiu uma contribuição transcendente nesse propósito, marcado pela unidade latino-americana e caribenha na sua diversidade.
O presidente cubano sustentou que deve ser respeitado, como reza o Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, “o direito inalienável de todo Estado a eleger seu sistema político, económico, social e cultural, como condição essencial para assegurar a convivência pacífica entre as nações”.
Concluiu dizendo que graças a Fidel e ao heróico povo cubano, viemos a esta Cimeira, para cumprir o mandato de José Martí com a liberdade conquistada com nossas próprias mãos, “orgulhosos de nossa América, para servi-la e honrá-la… com a determinação e a capacidade de contribuir para que seja estimada pelos seus méritos, e seja respeitada por seus sacrifícios”.

sábado, 11 de abril de 2015

Sugestões de Leitura

Meus caros, aqui ficam algumas sugestões de leitura, umas em português do Brasil com deficientes traduções pontuais, outras em francês, uma em inglês.

O que está por detrás dos acordos dos EUA e Irão?
http://www.voltairenet.org/article187248.HTML

As divisões no mundo árabe a passarem pelas mulheres?
http://www.voltairenet.org/article187187.HTML

A balcanização da Ucrânia
http://www.voltairenet.org/article187247.HTML

O yuan a caminho de rivalizar com o dólar
http://www.voltairenet.org/article187222.HTML

As armas económicas na Ucrânia
http://www.voltairenet.org/article182770.HTML

Afinal, o que quer a troika?
http://www.voltairenet.org/article178125.HTML

4 milhões de mortos desde 1990 no Afeganistão, Paquistão e Iraque
http://www.voltairenet.org/article187295.HTML

Coligação à bomba contra revolução no Iémen
http://www.voltairenet.org/article187161.HTML

EUA rompem compromisso: projecto anti-míssil continua apesar do acordo EUA/ Irão
http://francais.rt.com/lemonde/1653-projet-bouclier-antimissile-europe-continue

Porque não evacuam os EUA os seus cidadãos que estão no Iémen?
http://francais.rt.com/lemonde/1657-pourquoi-etats-unis-nevacuent-ils

Os BRICS e a ficção da desdolarização
http://www.globalresearch.ca/brics-and-the-fiction-of-de-dollarization/5441301

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Governo grego leiloa no ebay carros de luxo adquiridos por antigos governos

 

Alguns dos 700 carros que se encontravam ao serviço dos ministérios gregos eram utilizados pelas viúvas de antigos ministros.
Chocado por lhe ter sido atribuído um abono de 525 euros aquando da sua ida à cimeira de Bruxelas, Alexis Tsipras juntou à sua lista de poupanças a extinção das compensações pelas viagens ao estrangeiro.


Segundo avança o semanário grego Proto Thema, uma grande parte da frota de carros de luxo herdados do anterior executivo da Nova Democracia e Pasok vai ser leiloada no Ebay.
Entre as viaturas encontra-se um BMW topo de gama cujo preço comercial ascende a 750 mil euros. O automóvel foi adquirido pelo executivo de Papandreou e continuou ao serviço de outro líder do PASOK, o ex-vice primeiro ministro Evangelos Venizelos.
Em 2010, o governo de Papandreou mantinha 44 mil veículos do Estado, com um custo anual de 320 milhões de euros. Conforme adiantou recentemente o primeiro-ministro Alexis Tsipras, 700 viaturas encontravam-se atualmente ao serviço dos ministérios, estando não só a ser utilizadas por ministros como também por secretários-gerais, administradores universitários, altos funcionários dos serviços policiais, e até mesmo pelas esposas dos ministros falecidos.
A par de ter decidido viajar em classe turística nas deslocações aéreas, poupando mais dinheiro aos cofres públicos, o governo Syriza acrescentará à sua lista de medidas de redução de custos a extinção das compensações pelas viagens ao estrangeiro.
O Proto Thema relata que Tsipras ficou chocado ao ser surpreendido com um abono de 525 euros quando regressou da cimeira de Bruxelas.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O regresso de Guerra Junqueiro



"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Guerra Junqueiro, 1896. 

            Palavras como esta, de Junqueiro e outros grandes escritores,do final do séc. XIX e viragem do séc. XX, são belos nacos de prosa onde sempre encontramos actualidades desconcertantes. As referências à burguesia  e ao "sistema" político de então são certeiras mas  maltratado é o povo por vezes injustamente.

 

domingo, 5 de abril de 2015

No dia em que decidi morrer


Ou, para ser mais preciso, na noite.
Morfeu  travestiu-se de piranha e dou com ela em cima do peito, ar guloso e óculos que lhe davam um ar mais sociável.

- Vamos comer-te. Disse, sem qualquer intencionalidade erótica.
- Vais quê?
- Vamos…
E apontou-me para outros membros da sua tribo, de cores irisadas que me cobriam o corpo. É uma decisão que já te ultrapassou. E deitou-me para dentro da banheira…
- Até vais poupar nos serviços do cangalheiro e do cemitério…
- Obrigado mas há muito decidi ser cremado e as minhas cinzas largadas ali para o Cabo da Roca…
- Poeta até ao fim! Não te agrada ser transfigurado em nós, que seremos comidas por uns quaisquer outros peixarrões, e estes por pinguins, que farão as delícias a umas orcas de sonoridades estranhas e, por aí fora? Até conhecerias novos lugares…
- Mas este ainda não é o meu  tempo…Há tanta coisa por fazer…
- Não te sobrevalorizes. Os cavacos, coelhos, portas e luísas já estão na apanha de tomate. Outros na cadeia. Até o Espírito Santo lá está. As tribos da minha família trataram disso Os netanyhaus, hollandes e obamas, os príncipes sauditas e os grupos terroristas que criaram, dos talibans ao estado islâmico, agora com os ramos africanos da Al-Qaeda, estão na reeducação de adultos da Cúria Romana, sob a monitorização firme do Papa Francisco. O fmi, o banco mundial e o bce passaram a ser dirigidos pelos países mais pequenos…
- Mas preciso de consultar a família!!! E os amigos, caramba. Chega de pressas!
Outra das bichas lá me trouxe um nokia. Com todos falei. Amargurados e chateados, ficaram de beicinho. Que isso não se faz de pé para a mão - ambos, aliás, partes do  corpo onde as piranhas já estavam ferradas sem vontade de perderem o seu naco. Tentaram rever a inevitabilidade da coisa. Não faltaram os cenários alternativos. A todos convenci.
- Agora vou para outra. Reencontramo-nos lá em cima. Ou ainda cá por baixo. Não deixem de olhar bem nos olhos dos animai. Posso estar transfigurado neles.
Virei-me para a piranha que registara tudo no tablet.
- Estou pronto, mas tenho direito a uma última vontade.
- Será cumprida, assim manda a deontologia das tribos dos characidae. Que mandas?
- Quero assistir a tudo mas para isso deixem para último lugar os olhos, o cérebro e o coração. E tu ficas nomeada Directora-Geral da Degustação.
- Obrigada. Registarei tudo para memória futura. Boa viagem!

Foram rápidas. Quando do lugar do corpo restava um adormecimento insensível, e  já me tinham levado os olhos e o negro se instalara, vi uma luz lá ao fundo e o ouvido, que se fora, registou o som dos saltos altos da vizinha de cima. Procedi a apalpações várias e tudo estava no sítio.
Quando tentei contar o sonho ao pequeno almoço, levei uma corrida em osso.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Quando não sabes para onde hás-de ir,
lembra-te de onde vens"

Roberto Rossellini
realizador italiano,
1906-1977,
citado pelo filho
Renzo em entrevista
ao Público, em 30 março p.p.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Um informador da PIDE denuncia Herberto Helder à prestimosa corporação...


Chegou a época da banha-da-cobra! Só compra quem gostar de ser enganado!


A alguns meses das eleições legislativas, Cavaco e Passos Coelho, e outro pessoal político e comentadores já fora de prazo, entregam-se a sucessivas orações, que fazem relembrar o oásis de outros tempos, confrontando com ilusões as realidades do dia-a-dia.
A banha da cobra dos dias de hoje já não se vende como na imagem aqui ao lado, adaptada da foto original de Joshua Benoliel, de 1910, pelo blog 77 colinas. Hoje fala nos prime-times dotelejornais dos 3 canais de TV, com passadeiras, telepontos e demais parafernália.
Uma das larachas é a da redução do desemprego para valores da ordem dos 13% (“Bem melhores do
que países como a Espanha”
Relativamente apenas ao período do 2º trimestre do ano passado, a CGTP-IN referia “O desemprego continua
num nível inaceitavelmente elevado. O INE dá conta que a taxa de desemprego oficial foi de 13,9% no 2ºtrimestre. No entanto, este valor não traduz a realidade do desemprego em Portugal, registando-se também
um número considerável de trabalhadores sub-empregados.O número de trabalhadores impedidos de participar total ou parcialmente na produção do país é superior a 1
milhão e 260 mil pessoas. Além dos 729 mil desempregados considerados pelo INE como desempregados, há
ainda 257 mil inactivos disponíveis que não procuram emprego (os desencorajados) e 252 mil sub-empregados
que trabalham menos tempo do que desejariam. A estes há que juntar ainda os inactivos à procura de emprego
mas não imediatamente disponíveis para trabalhar (28 mil).
O desemprego de longa duração atinge mais de 490 mil desempregados, mais de 67% do total, isto num
contexto em que a protecção no desemprego abrange menos de metade do desemprego oficial, agravando-se
no caso dos jovens, especialmente entre os menores de 25 anos que apenas têm acesso às prestações em menos
de 10% dos casos.
Há ainda que ter em conta que milhares de portugueses continuam a sair do país anualmente (67 milhares em
idade activa desde o 2º trimestre de 2013), havendo outros que passaram à inactividade (a população activa
diminuiu mais de 47 milhares.
Em conclusão, a realidade do desemprego em Portugal vai continuar a apresentar ou não uma
taxa real próxima dos 23%, mantendo o nosso país com níveis de desemprego dos mais elevados de entre
os países da UE quer da Zona Eur?. Acresce, também, que o desemprego jovem se mantém muito elevado e
que a maioria dos desempregados não tem acesso a qualquer prestação de desemprego”.


Outra das larachas diz respeito ao valor intrínseco da austeridade, que nos terá feito salvar dos deficites incomportáveis do passado, e que uma mudança de política confrontaria os portugueses com um” retrocesso naquilo que os portugueses ganharam com a austeridade” (ao lado mais um vendedor, desta vez em Alcântara em 1955, apanhado pelo Eduardo Gajeiro na Ajuda).
Mas ganharam o quê? Se viram salários, progressões e pensões reduzidos. Se viram reduzir os vínculos de
trabalho a situações de quase escravatura. Se viram preços de bens e serviços aumentados. Se tiveram que
optar, em certas camadas, entre tomar medicamentos ou comer.  Se deixaram de ter dinheiro para pagar taxas
moderadoras e por para se ser isento disso se atingir níveis de indigência. Se deixaram de ter dinheiro para se
deslocarem no país e nos meios urbanos.  Se os filhos deixaram de procriar e passaram a entregar mais os
netos aos avós para poderem corresponder a horários de trabalho mais longos e desencontrados. Se
banqueiros-ladrões fizeram esfumar as suas poupanças e não lhas querem devolver.

 
Outra laracha, enfim, é que o país se pode tornar em breve num
dos países mais competitivos do mundo. (na foto ao lado vasilhameatravés de uma PPP da Presidência da República com a Real
Companhia das Argilas)
O que quer  Passos Coelho dizer com isto?
O governo vai aplicar parte do saco dos milhares de milhões que a Ministra das Finanças tem no cofre como investimento produtivo e contribuir para a redução de importações que encarecem nos mercados a produção nacional, nomeadamente nas indústrias transformadoras?
Que o governo vai suscitar com o apoio do Estado novos modelos de organização e gestão empresariais? Que vai melhorar a qualificação dos trabalhadores com contratos de trabalho estáveis, melhorando os seus rendimentos para um maior empenhamento nesse objectivo? Que o Governo vai desagravar empresas de impostos e custos de energia?
Melhorar a competitividade, sim, se o governo a quisesse de facto fazer sem ser à custa de trabalho escravo.
Mas há que não cair no ridículo de termos condições “para sermos um dos países do mundo mais
competitivos”…Vamos ver o que vai acontecer à nossa agro-pecuária agora com a liberalização do mercado do leite no espaço da União, se não vamos absorver a produção leiteira alemã e nórdica através das grandes
superfícies que ainda usarão isso para pagar pior nos contratos que fizerem com os nossos produtores.

PS - Cavaco Silva é o Presidente da República de todos os portugueses? É que parece ser o presidente do PSD, com a agravante que uma boa parte do povo laranja já não se deixa embalar com tais larachas...

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A longa migração das toutinegras

Segundo a "Science Daily", a toutinegra das murtas ou listrada, pássaro que pesa cerca de 12 gramas (!), faz todos os anos a migração da América do Norte para a América do Sul voando sem parar sobre o Oceano Atlântico durante dois a três dias, segundo um estudo de 2013.
Há mais de 50 anos, que os cientistas tentam confirmar essa façanha. Uma equipa internacional de biólogos, que publicaram na terça-feira os resultados do seu trabalho na revista científica britânica «Biology Letters», está convencida de ter encontrado «provas irrefutáveis». 
«Esta é uma das mais longas viagens diretas sobre a água feitas por um pássaro cantor (entre nós aves canoras)», afirma um dos autores do estudo, o investigador Bill DeLuca, num comunicado divulgado pela Universidade de Massachusetts em Amherst.
Esta ave habita geralmente nas florestas boreais do Canadá e dos Estados Unidos entre a primavera e o outono. Depois, parte para as Grandes Antilhas ou para a costa norte da América do Sul para o seu período de hibernação.
Para obter mais detalhes sobre a sua trajetória de migração, os investigadores instalaram geolocalizadores miniaturas, com um peso de 0,5 gramas, em 40 aves desta espécie entre Maio e Agosto de 2013. Vinte partiram de Vermont e outras 20 da Nova Escócia.
Graças aos dados recolhidos de cinco aves capturadas durante o seu regresso à América do Norte, os cientistas descobriram que estas aves percorrem entre 2.270 e 2.770 milhas num voo que dura entre 2,5 dias e três dias, até às grandes Antilhas, Cuba e Porto Rico, chegando mesmo ao norte da Venezuela e Colômbia.
Outras aves, mais robustas optam por migrações ao longo da costa, embora mais longas que as toutinegras, que preferem encurtar o percurso atravessando o Atlântico.
«Foi incrível poderrecuperar estes pássaros, porque a viagem migratória em si é quase impossível, afirma Bill DeLuca.
O investigador Ryan Norris, da Universidade de de Guelph, no Canadá, refere, por seu turno, que "não há dúvida de que a toutinegra listrada realiza uma das migrações mais ousadas na Terra".                                                                              
                                                                                                                                                                  

segunda-feira, 30 de março de 2015

Naquela noite dormi no Mar, José João Louro

Permite-me Louro que te roube a prosa por uns momentos
 
Naquela noite dormi no Mar
Num 1 de Janeiro em Vila Nova de Milfontes (Odemira, Portugal) recordei-me de um leitão que comi no Cuando Cubango em 1982 em  Angola. Era um leitão preto selvagem. Tivemos todos de correr para apanhar o porco. Corria como um cabrito selvagem  .A  guerra contra os sul-africanos fez uma estranha pausa. Os FAPLA foram passar o Natal a Casa , Os UNITA foram passar o Natal a Casa , Os racistas sul-africanos tinham ido passar o Natal a CASA . O VILAVERDE foi passar o Natal a Casa. Parecia o Natal da "Guerra do Solnado ".
Tinha ficado  com os médicos e militares cubanos ,com dois engenheiros polacos que reparavam tanques em Menongue .
E de repente seria o 1 de Janeiro e os cooperantes cubanos queriam fazer a sua festa. Então corremos todos atrás  dum porco preto. . Selvagem que não se deixava apanhar. Passava debaixo das minhas pernas ,de todas as pernas ,corria como um cabrito selvagem. Mas os cubanos riam como no basebol e tentavam apanhar o porco como uma bola em movimento. E de repente uma médica cubana como se fosse uma campeã de cem metros ,uma mulher belíssima de pernas longas e mãos largas mas suaves pareceu voar e conquistou o porco preto para o seu colo.
  Era a pausa da Guerra ,havia uma cascata de gargalhadas.
No dia seguinte fomos assar o porco e fizemos a festa de Cuba com a alegria de Cuba ,com cantos e danças revolucionárias. Comemos um imenso bolo que era a Ilha de Cuba. Rimos .Chorámos. Naquela noite dormi no colo daquela belíssima médica de mãos de seda ,ternas. Naquela noite dormi no Mar.
Todos os dias morriam dos dois lados.. Angolanos dos dois lados .Muitos heróis cubanos. Sul Africanos dos dois Lados .
No dia seguinte fomos para Vissati . Centenas de pessoas saíram das matas para se entregarem ás FAPLAS . Enganadas por Savimbi queriam regressar .Não eram humanos eram esculturas de Giacometti , pinturas de Portinari , OSSOS de Pedro Costa ,esguias ,longas, riscos , SOMBRAS.
Os médicos cubanos amparavam as crianças com medo que morressem. Alguns morriam só com as papas de milho que os FAPLA  lhes davam. Como se viver fosse demais..
A bela médica agora chorava. Lágrimas corriam-lhe pelos olhos.  Os médicos cubanos todos choravam.
São como nós pensei. Loucos no Amor , Boémios na Festa. .E choram na guerra.
Lembrei-me disto em Milfontes em 1 de Janeiro. Juntei os patacos que me sobraram da reforma e fui comprar um Leitão para oferecer aos 2 médicos cubanos da Vila, Lembras-te Humberto Lopes ?. Para a sua Festa de 1 de Janeiro.
Depois corri para o Mar com o BE. Um Mar Azul me acariciava terno.
José João Louro

sábado, 28 de março de 2015

Frase de fim-de-semana, por Jorge



"Success is how high you bounce
when you hit bottom."
"Triunfar é bater no fundo
e atingir ressalto"
George S. Patton
general americano
1885-1945

Bispo de Beja apoia posição do PCP sobre o regadio do Alqueva


O debate sobre o tema Alqueva, desafios para a pequena propriedade, realizado ontem de manhã pela Caritas Diocesana de Beja, decorria sem sobressaltos, quando o bispo de Beja, D. Vitalino Dantas, pediu a palavra para lançar um desafio ao presidente da Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA) José Pedro Salema.

 Este referira-se antes aos problemas criados pela existência na zona de regadio de cerca de 20 mil hectares de pequena propriedade.

 Surpreendido, o auditório com uma centena de pessoas, na sua maioria ligadas a organizações de apoio social, ouviu atentamente o bispo. D. Vitalino Dantas, nascido na região minhota, trouxe para o debate um tema escaldante: “Há 14 anos, o PCP avançou uma proposta em quedefendia que as parcelas no regadio do Alqueva não deveriam superar os 50 hectares”, lembrou.

Cruzam-se olhares espantados e ouve-se dizer: “Ele está a falar de quê?”

O prelado referia-se a um projecto de lei apresentado pelo PCP em 2001, sem sucesso, que estabelecia “um limite de 50 hectares” para as explorações agrícolas das áreas abrangidas pelo perímetro de rega de Alqueva.

D. Vitalino Dantas acrescenta um desejo: seria vantajoso para a região se “os grandes proprietários arrendassem os seus latifúndios”.

Ao PÚBLICO, fundamentou a ousadia da sua proposta. A doutrina social da Igreja é clara: “A função social da terra está em oposição ao princípio do direito absoluto que ainda condiciona as mentalidades” e no Alentejo “há empresas agrícolas que são associais, e criadoras de pobreza”.

Carlos Dias
Publico/Agricultura

 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Sínteses de artigos da Rede Voltaire

Limpeza étnica e cultural na Ucrânia

Enquanto o Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, acaba de propor um acordo com os líderes da República Popular de Donbas, Andrew Korybko discorre sobre as razões para a revolta: não é simplesmente uma questão de se recusar a reconhecer o governo do golpe de estado em Kiev, mas uma tentativa de afastar um projeto oficial, que implica a limpeza étnica das populações de língua russa.

Netanyahu anuncia o fim da «solução de dois Estados»



Os acordos de Oslo, que Yitzhak Rabin e Yasser Arafat haviam imposto aos seus povos, foram liquidados durante a campanha eleitoral israelita. Benjamin Netanyahu mergulhou os colonos judeus num impasse, que será forçosamente fatal para o regime colonial de Telavive. Tal como a Rodésia não aguentou mais que 15 anos, os dias do Estado hebreu estão agora contados.
| Damasco (Síria)




O Estado contra a República

A pedido do presidente François Hollande, o Partido Socialista Francês acaba de publicar uma Nota sobre o movimento internacional «conspiracionista». O seu objetivo: preparar uma nova legislação proibindo-o de se expressar. Nos EUA, o golpe de Estado de 11 de setembro de 2001 permitiu estabelecer um «estado de emergência permanente» (Patriot Act), e o lançamento de uma série de guerras imperiais. Progressivamente, as elites europeias têm-se alinhado com os seus homólogos do outro lado do Atlântico. Por todo o lado, os cidadãos inquietam-se por serem abandonados pelos seus Estados e colocam em questão as suas instituições. Buscando manter-se no poder as elites estão, agora, prontas a utilizar a força para amordaçar as suas oposições.
| Damasco (Síria)
 

A CIA ultrapassada pelo apoio dos populares ao Daesh

Ultrapassada pelo desenvolvimento fulgurante do Emirado Islâmico, que ela própria criou, a Agência Central de Inteligência(CIA) será reorganizada em profundidade. Mas o problema que enfrenta não tem precedentes: uma retórica que ela havia imaginado para a difusão de comunicados de reivindicação de actos terroristas, sob falsa bandeira, em contacto com uma população da qual ela ignorava até mesmo a existência, transformou-se numa poderosa ideologia. Para Thierry Meyssan, a reforma da CIA será ineficaz : tal não lhe permitirá gerir o cataclismo que ela provocou no Levante.
| Damasco (Síria)
 


 

Um informador da PIDE denuncia Herberto Helder à "prestimosa"

terça-feira, 24 de março de 2015

excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961



Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

 
que te procuram

sábado, 21 de março de 2015

A Líbia “libertada de Kadhafi” para servir de base de treinos do Estado Islâmico (pois claro!)


Segundo o “Publico de hoje”

Tunisinos estiveram na Líbia.Foi em campos do autoproclamado Estado Islâmico na Líbia que os terroristas tunisinos que mataram 22 pessoas em Tunes na quarta-feira, em nome do EI, receberam treino militar.
Os dois homens, disse o secretário de Estado da Segurança, Rafik Chelly, saíram clandestinamente da Tunísia e regressaram em Dezembro do ano passado.Chelly admitiu que há, no país, varias células jihadistas adormecidas, formadas por antigos combatentes e prontas para entrarem em acção, realizando atentados. Yassine Labidi e Hatem Khachnaoui, os dois terroristas que foram mortos pela polícia, explicou, fariam parte de uma dessas células.
“Sabemos que eles podem realizar operações a qualquer momento, mas temos que reunir provas para podermos realizar detenções”, disse o secretário de Estado, adiantando que estão identificados vários campos de treino do Estado Islâmico na Líbia para onde são levados jovens combatentes tunisinos. Há um em Bangazi, disse, e outro na cidade costeira de Derna, uma praça-forte jihadista na Líbia.
A influência do Estado Islâmico cresce e são cada vez mais os tunisinos que atravessam a fronteira, para se juntar ao grupo.Yassine Labidi e Hatem Khachnaoui fizeram esse caminho e, em Dezembro, fizeram o caminho inverso. A irmã de Khachnaoui — que foi detida na sua casa perto da fronteira com a Argélia, onde a actividade jihadista é cada vez maior — disse à polícia que o irmão terá estado a combater no Iraque depois de ter recebido treino na Líbia.”

Frases de fim-de-semana, por Jorge

"Nur die Kunst und die Wissenschaft
erhöhen den Menschen bis zur Gottheit."
"Só a arte e a ciência podem elevar
os homens ao nível dos deuses"
Ludwig van Beethoven,
em carta ao seu admirador Emilie M.,
de 10 anos de idade (17 julho 1812)

"As artes fazem-nos humanos"
Manuel Gusmão (poeta comunista, n.1945)
na homenagem prestada
pel' A Voz do Operário
a 28 de fevereiro passado.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Sobre os abusos permanentes aos trabalhadores dos hipermercados CONTINENTE / por trabalhadora abusada

Os hipermercados são um lugar horrível: cínico, falso, cruel. À entrada, os consumidores limpam a sua má consciência reciclando rolhas e pilhas velhas, ou doando qualquer coisa ao sos hepatite, ao banco alimentar ou ao pirilampo mágico.

Dentro da área de consumo, cai a máscara de humanidade do hipermercado: entra-se no coração do capitalismo selvagem. O consumidor, totalmente abandonado a si próprio (é mais fácil de encontrar uma agulha num palheiro do que um funcionário que lhe saiba dar 2 ou 3 informações sobre um mesmo produto), raramente tem à disposição mercadorias que, apesar do encanto do seu embrulho, não dependam da exploração laboral, da contaminação dos ecossistemas ou de paisagens inutilmente destruídas.

Fora do hipermercado, os produtores são barbaramente abusados pelo Continente (basta que não pertençam a uma multinacional da agroindústria), que os asfixia até à morte e, quando há um produtor que deixa de suportar as impossíveis exigências que lhe são impostas, aparece outro que definhará igualmente, até encontrar o mesmo fim. Finalmente, nas caixas do hipermercado, para servir o consumidor como escravos idênticos aos que fabricaram os artigos comprados, estamos nós.

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O hipermercado está portanto no centro da miséria que se vive hoje no mundo. O consumidor, o produtor e nós temos uma missão comum: contribuir para que os homens mais ricos do planeta fiquem cada vez mais ricos – contribuir para que a riqueza se concentre como nunca antes na história. Se somos todos diariamente roubados e abusados, é por este mesmo e único motivo.

Vou-vos relatar apenas a minha banal experiência diária (sem pontos de exclamação já que o escândalo é comum a qualquer um dos tópicos que irei descrever). Espero que sirva de alguma coisa, apesar de saber que ninguém se incomodará muito com ela. Afinal, é a mesma selva que está já em todo o lado.

1 – salário
 
Trabalho 20h semanais em troca de 260€ mensais, o que dá pouco mais de 3€ por hora. Que isto se possa pagar a alguém em 2015 devia ser motivo de vergonha para um país inteiro. Que seja um milionário a pagar-me esta esmola devia dar pena de prisão efetiva.
2 – precariedade
Já vou no terceiro ‘contrato’ de seis meses e ainda não passei a efetiva. Quando chegar a altura em que poderei finalmente entrar para o quadro, serei dispensada como tantas outras. A explicação para a quebra brutal na natalidade está encontrada: afinal, alguém consegue ter filhos nestas condições?
3 – trabalho não remunerado fora do horário de trabalho
 
Se o futuro é uma incógnita, o presente é sempre igual: todos os dias, sem exceção, trabalho horas extra grátis que me são impostas. O meu horário de saída é às 15h mas, depois dessa hora, ainda tenho para executar várias tarefas obrigatórias, que me levam entre 15 a 20 minutos diários, como arrumar os cestos das compras e os artigos que os clientes deixam ficar na caixa ou guardar o dinheiro no cofre. No quase ano e meio que levo a trabalhar no Continente, devo ter saído uns 5 dias, no total, à hora certa. E já cheguei a sair uma hora e meia depois das 15h, apesar de os meus superiores saberem muito bem que dali ainda vou para outro trabalho e de, por isso, eu ter sempre imensa pressa para não me atrasar.
4 – trabalho em dias de folga
Para perpetuar a falta de funcionários na loja, obriga-se aqueles que lá estão a trabalharem pelos que fazem falta, oferecendo assim todos os meses algumas horas do seu tempo de vida e de descanso ao patrão, que deste modo poupa no número de salários a pagar. Mais absurdo: num dia em que esteja de folga, posso ser convocada para ir à loja para fazer inventário. Sou obrigada a ir, apesar de estar na minha folga, e apenas posso faltar mediante justificação médica. E, como se não bastasse, até já aconteceu eu ser avisada no próprio dia da folga.
5 – cada segundo de exploração conta
Neste ano e meio, cheguei uma única vez 5 minutos atrasada e a minha superior foi logo bruta e agressiva comigo, tendo-me gritado e agarrado pelo braço, apesar de supostamente haver uma tolerância para se chegar até 15 minutos atrasada. Nunca mais voltei a atrasar-me. Nem 10 segundos. (Já sair pelo menos 15 minutos mais tarde do que a hora prevista, isso é todos os dias.)
6 – formatação do corpo
Relativamente à aparência física, devemos formatá-la meticulosamente, ao gosto sexista do patrão. Na loja onde trabalho, várias colegas tiveram por isso de eliminar os seus pírcingues, apagar também a cor das unhas (lá só é admitido o vermelho) e uma até teve de mudar de penteado. O patrão quer que nos apresentemos como autênticas bonecas. Faz lembrar os escravos que eram levados para as Américas, a quem se retiravam as suas marcas corporais para serem explorados sem outra identidade que a de escravos (seres humanos transformados em mercadorias).
7 – pausa para comer/urinar/descansar é crime
Mas o pior de tudo é mesmo o que acontece durante o tempo de trabalho. Os meus superiores querem que eu esteja as 4 horas sentada a render o máximo que é humanamente possível, por isso, dificultam ao máximo as minhas pausas – que são legais e demoraram séculos a conquistar – para ir comer qualquer coisa ou ir simplesmente à casa de banho. A única coisa que me autorizam a levar para junto de mim, no meu posto de trabalho na caixa, é uma garrafinha de água previamente selada e nada mais. De resto, o que levar para comer e beber (sumos e iogurtes líquidos não podem ir comigo para a caixa) tenho que deixar no Posto de Informações e só tenho acesso quando da caixa telefono para lá. Normalmente, no Posto, fazem que se esquecem desses pedidos, passando uma eternidade até eu finalmente conseguir ir comer. E, quando a muito custo lá consigo obter autorização para ir comer, sou pressionada para ser ultra rápida, pelo que em vez de mastigar estou mais habituada a engasgar-me. O mesmo acontece com as idas à casa de banho, sempre altamente dificultadas.
8 – gerem-nos como se fôssemos animais
 
Há uns tempos, uma colega sentiu-se mal quando estava na caixa, fartou-se de pedir licença para ir à casa de banho, mas foi obrigada como de costume a esperar tanto, tanto que lá se vomitou, quase em cima de um cliente.
Não se calem e denunciem todos os abusos nas redes sociais e nos blogs.
(gostava imenso de assinar, mas os 260€ do salário fazem-me tanta falta)

AFL