sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Posição de Oliver Stone sobre a Crimeia

O realizador norte-americano realizou uma entrevista de quatro horas com o ex-líder ucraniano, preparada para integrar um novo documentário em inglês produzido por ucranianos.
Na sua página no Facebook, Oliver Stone afirmou não defender o ex-presidente Yanukovich. Segundo o director, “o ex-líder ucraniano pode ter sido o presidente mais corrupto de toda a história da Ucrânia, mas isso não é o mais importante. O importante é como Yanukovich foi deposto”.
Ele observou que existem provas de influência de forças externas pró-ocidentais nos eventos do país. Stone destacou a participação activa da vice-secretária de estado norte-americana Victoria Nuland e do senador republicano John McCain, além da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e do Fundo Nacional de Apoio à Democracia, ambas organizações dos Estados Unidos.
O director disse também que os Estados Unidos nunca deixaram de usar a Ucrânia como um trampolim para lutar primeiro contra a União Soviética e agora contra a Rússia. Segundo ele, “sabendo disso ou não, a população civil ucraniana sofreu muito com esta guerra ideológica".
Para o cineasta, o Ocidente tem mantido uma narrativa dominante sobre o conflito ucraniano, chamando a atenção para a "Rússia na Criméia", enquanto a verdadeira narrativa deveria ser "os Estados Unidos na Ucrânia". Oliver Stone argumenta que a verdade não está, de facto a ser revelada no Ocidente “É uma perversão surreal da história o que está a acontecer, mais uma vez, como na campanha de Bush antes no Iraque”. Concluiu dizendo acreditar que a verdade acabará por ser divulgada no Ocidente.
Leia mais: http://portuguese.ruvr.ru/news/2015_01_04/Cineasta-Oliver-Stone-explica-sua-posi-o-sobre-entrevista-com-Viktor-Yanukovich-0127/

A verdade sobre os impostos em 2015: portugueses pagam mais 2 mil milhões e empresas menos 900 milhões, por Eugénio Rosa

Está neste momento em curso uma gigantesca operação de manipulação e mentira
levada a cabo pelo governo com o objectivo de convencer a opinião pública que se
verificará em 2015 uma redução da carga fiscal. Infelizmente vários órgãos de
comunicação social e mesmo jornalistas têm colaborado nessa campanha de engano dos
portugueses. O que vai acontecer em 2015 é outro enorme aumento de impostos sobre
os trabalhadores, pensionistas e outras classes que não auferem rendimentos de capital,
e uma redução muito importante dos impostos sobre as empresas que beneficiará
fundamentalmente as grandes empresas, com lucros elevados, que verão os seus lucros
aumentar ainda mais, porque pagarão muito menos impostos ao Estado, podendo-se
dizer mesmo que esta quebra é financiada pelas famílias portuguesas. É isto que
mostraremos utilizando os próprios dados oficiais constante do Relatório do governo que
acompanhou o Orçamento do Estado

 49-2014-OE2015.pdf (116 KB)



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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Um trabalhador como há poucos

Foi recentemente nomeado como Vice-Presidente Executivo da Caixa Geral de Depósitos e, nesta única função, ganha mais de 20 mil euros por mês (nada mal).

Mas este «académico», que foi conselheiro de Pedro Passos Coelho (quem diria?), tem mais umas funções (de onde lhe escorrem mais uns eurozitos)...
Efectivamente ele é, actualmente, apenas e só:
- Administrador Executivo da CUF,
- Administrador Executivo da SEC,
- Administrador Executivo da José de Mello Saúde,
- Administrador Executivo da EFACEC Capital,
- Administrador Executivo da Comitur Imobiliária,
- Administrador (não executivo) da Reditus,
- Administrador (não executivo) da Brisa,
- Administrador (não executivo) da Quimigal,
- Presidente do Conselho Geral da OPEX,
- Membro do Conselho Nacional da CMVM,
- Vice-Presidente do Conselho Consultivo do Banif Investment Bank, 
-Membro do Conselhon Consultivo para o
o Desenvolvimento das Comunicações,


- Vogal da Direcção do IPRI (mais uns «trocos» por mês),
- e ainda...é membro (quem diria?..) do Conselho Nacional do PSD desde 2010, isto, depois de ter sido governante pelo PS (e esta, hein?!).

Não me digam que o senhor não tem um apuradíssimo sentido de oportunidade.
Merece o que ganha, pois trabalha que se farta!
É por este senhor ocupar simultâneamente 14 postos de trabalho de alto nível (excluindo os políticos...) e por outros milhares de exemplos similares da nossa praça, que há tanta gente desempregada.
A maior desgraça de uma nação pobre, é que
em vez de produzir riqueza, produz ricos.
(Mia Couto)
O mágico fez um gesto e desapareceu a fome,
fez outro e desapareceu a injustiça,
fez um terceiro e desapareceram as guerras.
O político, fez um gesto e desapareceu o mágico.
(Woody Allen)













Ataque contra o Charlie Hebdo PCP condena crime e rejeita manipulação


O PCP repudiou «firmemente o atentado ocorrido na sede do jornal Charlie Hebdo», expressou «a sua consternação e solidariedade ao povo francês» e chamou a atenção «para os perigos de instrumentalização de genuínos sentimentos de indignação».

e considerou ainda que c
rimes destes não podem ser desligados das ingerências e agressões imperialistas.



Ver na íntegra em 
http://www.avante.pt/pt/2146/europa/133871/


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je suis charlie, pas des autres qui pleurent cyniquement


 Preocupa-me a evolução do discurso dos media sobre os acontecimentos de ontem em Paris
Um crime horrendo, realizado por comandos com preparação militar, assassinos frios com um planeamento do mesmo nível. Injustificável até pela forma que assumiu. No crime pereceram jornalistas e caricaturistas de esquerda., que não transportavam no seu ideário a xenofobia.
Não me parece que ela possa decorrer de uma comunidade islâmica e encontrar nela porto de abrigo dos assassinos, como Bernardino Pires de Lima referiu hoje, ao Telejornal da RTP-1.
Personagem que também referiu que os criminosos tinham recebido treino na Síria…
Depois de anos de ataques vários, Obama foi derrotado. Saad e a Síria sobreviveram mas com dezenas e deze4nas de militares e civis mortos.
A Síria é o demónio a abater mas importa recordar que o Exército Islâmico do Levante foi criado na sequência de uma reunião realizada por John Craig em 2013 no Iraque. E que nessa reunião participou o futuro máximo dirigente do tal Exército do Levante que ainda não foi morto pelos seus pares porque tem sido, ciclicamente, ele a matar os outros.
B. P. de Lima podia ter dito que teria sido treinado nas partes do Iraque e da Síria de que este exército, armado pela Turquia e pelo Qatar, se apoderou, provocando a destruição em massa e centenas de milhar de refugiados.
Mas não, disse que foram “treinados na Síria”.
Por outro lado referiu o pivot do Telejornal que esta situação estaria a provocar uma revolta anti-muçulmana na França e que isto iria favorecer partido da Frente Nacional e a Mme. Le Pen como futura candidata às presidenciais. Até parecia que o tal pivot funcionava como o gabinete de imprensa do FN e da filha do Le Pen…
Sim, quem organizou isto tem tal objectivo.
Ainda outra questão: ouço os telejornais e verifico que a solidariedade se centra na União Europeia…Apresentando até um mapa de manifestações que pára em França nem segue para a Alemanha!...
Na Rússia não houve declarações ou manifestações? Nem na China, no Japão, no Sudeste Asiático, em África ou América Latina? E dizem eles defender a liberdade de informação!

Finalmente Je suis charlie mas não ando de braço dado com Hollande, nem com Merkl, nem com David Cameron, nem com o Obama, nem com o Cavaco, Coelho nem com os aparentados. Podemos estar no mesmo acto mas não estamos de braço dado…Estes são responsáveis ou cúmplices dos massacres na Palestina, no Afeganistão, no Iraque, na Síria, no Magrebe. De incríveis torturas em Guantánamo e noutras prisões clandestina. Dos que perseguem em Assange, os taques informáticos e na ocultação dos crimes também horrendos de Kiev, a liberdade da informação

domingo, 4 de janeiro de 2015

Demétrio Alves


GOVERNANÇA: CADA UM USA A QUE GOSTA

IMG_0102A palavra governança, nos seus diferentes sentidos, tem vindo a ser progressivamente utilizada por dirigentes políticos, empresários e académicos.
Não sendo um vocábulo recente na língua portuguesa tem, contudo, vindo a adquirir sempre novos valores e significados desde o início da década de noventa do seculo XX.
Sabe-se que já Damião de Gois a tinha utilizado nas suas Crónicas do Príncipe D. João, quando referia que o rei D. Afonso tinha regressado ao Reino “depois de deixar a governança das cousas de África ao Príncipe”.
Dos inícios do sec. XX retenhamos, por exemplo, aquilo que Os Ridículos, na sua edição de 25 de janeiro de 1911, apelidavam, a propósito da instabilidade política e das sucessivas golpadas políticas de natureza pouco ética, de “o vira da governança”.
O termo governança adquiria nestes exemplos uma conotação clara com a ação de governar (ou desgovernar) e, além disso, era pouco abonatória no segundo dos casos citados.
Contudo, Camilo Castelo Branco, nos Mistérios de Fafe (Cap. IX, pág. 80) escreveu a dado passo “os outros abundavam no alvitre do Trinca-fígados, a quem entregaram a governança da empresa”. Ou seja,aqui, o étimo referia-se à administração ou gestão empresarial.
O caracter pejorativo que o termo governança adquiriu entre nós remonta, provavelmente, ao sec. XIX, ficando muito ligada ao oportunismo e à corrupção dos grandes senhores, seja da política, seja no mundo dos grandes e pequenos negócios.
E quanto mais não fosse por esta razão – utilização da palavra fora do contexto sociocultural que adquiriu – pode considerar-se infeliz o seu uso como tradução portuguesa da anglo-saxónica governance, podendo supor-se, erradamente, que, quem utiliza abundantemente o termo governança, estaria a referir-se a uma qualquer forma de governichar corrupto.
Aliás, aquela designação anglo-saxónica não apareceu apenas em finais da década de oitenta do sec. XX, quando a utilização foi recuperada e brotou nos textos do Banco Mundial e organizações conexas. De facto, o seu uso está registado pelo menos desde 1714 na obra de Charles Plummer, “The Governance of England: The Difference between an Absolute and a Limited Monarchy”.
Não pode deixar de se tomar como sintomático que diversos autores de língua inglesa, especialistas em ciência política, não tenham registado a palavragovernance nos dicionários publicados entre 1990 e 1995, como, por exemplo:Politics, de Peter Joyce; Dictionary of politics, de David Robertson; A dictionary of political thought, de Roger Sruton; e Politics, de Iain Mclean. O que pode significar que a governance não era, então, uma designação assimilada e usada pela ciência politica.
Embora já nos finais dos anos 80 houvesse algum (pouco) debate académico sobre a governança, não há dúvida de que foi num estudo do Banco Mundial[1], editado em 1989, que o termo “governance” foi usado pela primeira vez num novo sentido, ou seja, não apenas como sinónimo de governo/governar, mas para descrever a necessidade de uma reforma institucional que, dizia-se, visava uma melhor e mais eficiente gestão do setor público em países da África Subsaariana.
De facto, as entidades internacionais que se dedicavam a conceder apoio ao desenvolvimento económico de países e regiões, concedendo créditos financeiros em condições de prazo e de juros mais favoráveis do que na banca comercial, tinham razões para estar preocupadas porque, em diversos casos, os fluxos financeiros iam direta ou indiretamente engrossar os circuitos da corrupção, ou, pura e simplesmente, não estavam a promover um desenvolvimento perene e sustentável.
Tinham, o Banco Mundial e outras entidades congêneres, razões e legitimidade para agirem no sentido de corrigirem as derivas oportunistas de variados tipos. Contudo, não obstante a intensa discussão interna havida no seio daquelas organizações, acabaram por entrar num caminho intervencionista de carácter neocolonial, condicionando a atribuição de “ajudas” à tipologia político-ideológica adotada pelos receptores de créditos.
No documento Governance and Development (1992), o Banco Mundial apresentou então as bases para aquilo que designava boa governança na gestão pública: reduzir as incertezas para os investimentos privados com a finalidade de propiciar-se crescimento econômico, modernizar a gestão pública e envolver os beneficiários/interessados (stakeholders) na conceção e implementação dos projetos.
Passava-se isto no contexto da queda do muro de Berlim e das respetivas mudanças políticas a nível mundial, que vieram propiciar terreno fértil à introdução do new management nas instituições públicas, tal como de uma certa “boa governança” caracterizada, dizia-se, por maiores graus de transparência, eficácia, eficiência, participação e accountability[2]. Contudo, e de facto, cedo se percebeu que esta “boa governança” transportava consigo farta dose de valores e interesses próprios dos mercados e da gestão empresarial privada.
Hoje em dia, um quarto de século passado, e depois de grandes e dolorosas crises e colapsos, poder-se-ia perguntar onde têm feito mais falta os princípios da transparência e da accountability: nas áreas económicas e financeiras privadas, ou nos setores públicos, entretanto profundamente infiltrados pelo ideário da governança e do managerialismo?
Mas, o que será então a governança na lusa tradução da governance?
Não sendo a mesma coisa que governar, no sentido político do termo, o que traz consigo de novo e diferente “fazer governança”? Será que esta novel forma de intervenção político-administrativa poderá indiferentemente designar-se por governança ou governação?
Os anglo-saxónicos têm duas palavras-conceito, government governance, que significam coisas distintas. Poderá, conceptualmente, governar-se com maior ou menor dose de governança. Quando se procura uma tradução literal degovernance aprecem, indistintamente, governação ou governança.
Entre nós, porém, têm-se utilizado nos últimos tempos, por vezes sem grande rigor, pelo menos três termos: governo, governança e governação. Embora, por uma questão de forma e pelas razões culturais já referidas antes, se ache preferível a expressão governação face a governança, é necessário esclarecer que, em rigor, é difícil distinguir os conteúdos conceptuais das duas expressões. Salvo se adotarmos governação como sinónimo tradicional de governar/administrar, reservando para a palavra governança o significado que tem, de facto, a expressão governance.
As maiores duvidas e desacordos não estão, contudo, na forma, mas sim nos conteúdos, político e socioeconómico, transportados pelo termo governança ou governação.
Segundo Roderick Rhodes, que tão bem caracterizou a problemática quando escreveu “The new governance: governing without government” existem pelo menos seis significados distintos de governança (governance): o estado mínimo, a governança empresarial (corporate governance), a nova gestão pública (New Public Managment), a boa governança (segundo o anco Mundial), sistemas sócio-cibernéticos e as redes auto-organizadas.
Outros autores referem que a governança surge no contexto do “colapso do modelo moderno e racionalista de Estado, cujas raízes longínquas remontam ao Iluminismo mas que, do ponto de vista das políticas públicas, teve o seu apogeu no período do pós-guerra, prolongando-se praticamente incólume até ao início dos anos 80 do século passado” e que, por essa razão se verifica a necessidade de transcender as limitações das conceções modernas até então prevalecentes sobre o Estado e, genericamente, sobre o mundo, a humanidade e o futuro”[3].
Ou seja, esta linha de pensamento parece claudicar perante o “ que tem que ser tem muita força” veiculado pelo neoliberalismo, e aponta, então, pragmaticamente, para quatro frentes de debate/intervenção: Reforma administrativa do Estado, Reformulação do papel do Estado, Democracia participativa e deliberativa e Europeização dos processos de decisão.
Quando se analisam as ideias propostas por pensadores e interventores políticos, tanto da direita liberal, como da autodesignada esquerda democrática, verifica-se uma estranha convergência de valores e objetivos. Há mesmo quem, de forma bem-intencionada suponha ser a governança um conceito reformador de “esquerda” que visa um “aprofundamento da democracia”.
A fim de manter a confusão vem a definição bem-comportada da União Europeia no seu “White Paper on European Governance”: Governança é o conjunto das regras, processos e comportamentos utilizados no exercício do poder, em especial no que respeita a abertura, participação, responsabilização, eficácia real, e coerência.
Para Paulo Correia, in Governança do Território, CCDRN, 2005, onde tenta uma leitura generosa da coisa, fugindo a abordagens mais polarizadas e assertivas, o ambiente operacional da governança dá-se no contexto do “fim do Estado Providência”, e de uma “crise de legitimação aos diferentes níveis políticos e administrativos (em especial ao nível regional) ” e isto porque, afirma, “os decisores políticos eleitos respondem cada vez mais pelos cidadãos” mas, paralelamente, “aqueles decisores cada vez controlam menos o território físico que supostamente representam, seja em resultado da globalização, seja pelo crescente papel do setor privado, tanto na condução da vida económica, como pela crescente gestão privada de interesses/funções públicas”.
 Ao contrário daquilo que pareceria ser lógico, isto é, fazer compensar com meios adequados o aumento das responsabilidades políticas dos administradores e dos sistemas públicos de forma a melhorar o atendimento e controlo democrático dos territórios que representam[4], e, portanto, melhor poderem responder às necessidades dos cidadãos, a fórmula que a governança veio propor, muito especialmente ao nível regional e local, foi, sobretudo, o envolvimento nas decisões de “todos os interessados e atores do desenvolvimento”, designados por Stakeholders, bem como o estímulo às parcerias e às redes.
 Ou seja, por um lado transportou-se para dentro dos referenciais da administração, de forma a intervirem o mais direta e profundamente possível nos mecanismos dessa decisão pública, representantes não apenas das frentes sociais, culturais e políticas, mas, também, das corporações empresariais económicas e financeiras. Por outro, tenta-se descartar para a designada “sociedade civil” obrigações e atribuições do Estado e da administração publica em geral.
 Chega-se ao ponto de, em certos órgãos consultivos não eleitos, invocando o princípio da participação, colocarem-se em paridade representantes de uma associação empresarial com os eleitos que integram um órgão político local.
 Mas, pergunta-se, conferirá maior democraticidade, eficiência e transparência às decisões públicas, que devem ser tomadas por cidadãos com legitimidade democrática direta ou indireta, o facto de se permitir o acesso ao mecanismo de decisão a representantes e intermediários privados com muitos, diferentes e desproporcionados interesses e meios de influência?
 Um órgão político, dotado de legitimidade e representatividade democrática, será a sede adequada para fazer concertação de interesses, por vezes antagónicos, em que entram complexas redes que integram tanto as parcerias do mais variado tipo, como as concessões de serviços de interesse público, o setor empresarial público, as holdings privadas financeiras e/ou económicas, os sindicatos e as associações culturais e ambientais, para além dos cidadãos individualmente considerados?
Não há dúvida de que a participação dos cidadãos e das suas diversas associações, a transparência e a obrigação de prestar contas, são aspetos importantes, decisivos mesmo, na administração política da coisa pública a todos os níveis e não apenas ao nível local e regional.
 A atestar o valor desses princípios estão os dados históricos relativos à experiencia do poder local democrático português que, desde 1976, cerca de vinte anos antes do aparecimento da fórmula da governança, praticaram, em grande parte do território e das situações concretas, a participação cidadã e coletiva, além de uma ímpar transparência dos atos deliberativos e executivos (as reuniões dos órgãos executivos acontecem em público). Devido a diversos fatores, estas praticas têm, contudo, vindo a ser substituídas por metodologias burocrático-administrativas de consulta aos interessados, não obstante os discursos carregados de governança.
 A ânsia para diminuir aquilo que se estigmatizou como “peso excessivo do Estado”, leva aos denodados esforços para reestruturar e desregulamentar a responsabilidade social do Estado, com reflexos homólogos no poder local democrático, e, portanto, ao nível da governo local e territorializado. E, nesta dinâmica, a governança, tal como a conhecemos, tem um papel importante, embora não tão contundente quanto a reforma orçamentista das finanças e da administração publicas, ou da reforma da segurança tomada na sua vertente de fragilização.
 E o que significa, então, uma “boa governança”?
 É inquestionável que o conceito é difuso e que não está bem estabelecido. Quem o afirma, entre outros autores, é Rachel Gisselquist[5], que destaca a existência de um problema de clareza conceptual e que, por isso é muito problemática a avaliação dos resultados práticos que as instituições de desenvolvimento e similares estão a promover.
 A autora refere que diversos críticos do conceito de “boa governança”, especialmente nos países recetores de ajuda financeira feita a partir das “agências internacionais de desenvolvimento”, argumentam que os critérios usados para avaliar o que seria uma boa governança com vista a atribuição daquela “ajuda externa”, introduzem “condicionalismos políticos e impõe modelos liberais ocidentais de democracia”.
 Ou seja, parece que, então, a governança só seria boa não apenas quando há transparência, participação, combate à corrupção, accountability, etc., mas, também, quando sejam acatados os valores-padrão dos mercados financeiros e o tipo de democracia liberal de tendência anglo-saxónica, designadamente o bipartidarismo.
 E sempre se poderia perguntar: nos países onde essa tal “democracia liberal” reina, é certo e seguro poder afirmar-se que a transparência, a participação, o combate eficaz à corrupção, a accountability, são valores garantidos? E a justiça social? E, já agora, nos grandes bancos com influência nos mercados globais têm-se verificado sólidos princípios éticos e transparência não obstante as anunciadas práticas de corporate governance?
 A boa governança tem sido apresentada como um instrumento de participação democrática, de transparência e de controlo público das ações de governo e até das empresas privadas. Contudo, e de facto, verifica-se a hegemonia de agendas que favorecem prioritariamente os princípios de mercado e a iniciativa privada virada exclusivamente para o lucro, em detrimento dos interesses públicos das comunidades e territórios                                            
Seja através do governo ou da governação/governança, aquilo que interessa, tanto ao nível do estado, como ao nível regional e local, é que a ação se paute em concreto por valores da democracia política, económica, social e cultural, visando a equidade, a coesão socioeconómica e territorial, a sustentabilidade no sentido amplo do termo, e os mais amplos direitos, liberdades e garantias para os povos. E, obviamente, que não se limitem as praticas democráticas aos atos eleitorais realizados ciclicamente, porque a participação efetiva dos governados nos mecanismos que conduzem às decisões, bem como ao controlo permanente da administração, são fundamentais para a saúde de uma democracia.
 Finalmente: que não se confunda participação com uma de duas coisas que estão muito na moda: por um lado o folclorismo de um certo tipo de democracia participativa local, por outro a intromissão impropria dos centros de pressão económico-financeiros, que, a coberto da sua condição de “interessados”, influenciam de forma subterrânea as decisões e deliberações dos órgãos que têm legitimidade efetiva. 
[1] O estudo “Sub-Saharan Africa – from crisis to sustainable development”, nov. 1989, do Banco Mundial, analisou os problemas de desenvolvimento na África Subsaariana.
[2] Responsabilização e prestação regular de contas pelos dirigentes
[3] Governança e ordenamento do território. Reflexões para uma governança territorial eficiente, justa e democrática, João Ferrão, Prospetiva e Planeamento, Vol. 17, 2010
[4] Indo captar meios financeiros através de uma fiscalidade mais rigorosa e equitativa, contrária às escandalosas fugas dos grandes conglomerados económico-financeiros e dos oportunistas de diverso calibre.
[5] United Nations University, Working Paper No. 2012/30 Good Governance as a Concept, and

domingo, 21 de dezembro de 2014

Frase de fim-de-semana, por Jorge


"Some rise by sin
and some by virtue fall."

"Uns sobem pelo pecado
 e outros pela virtude caem"
William Shakespeare,
em "Medida por Medida"
(acto II, cena I)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Em lado algum - à memória de Pina Bausch


Publicado em 05/11/2014
NOWHERE é uma criação de  Dimitris Papaioannou de 2009 para inaugurar o Palco Principal renovado doTeatro Nacional Grego, de Atenas. Esta cena é dedicada à memória de Pina Bausch.
 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Que sejam castigados e os portugueses ressarcidos, mas isso não chega


Ricardo Salgado e José Ricciardi, ambos membros da família que, através do Banco Espírito Santo, terão tido uma influência muito importante sobre a economia, através de "favores" ( leia-se corrupção), dominando dirigentes de partidos e membros de governos de quem obtinham "contrapartidas" (leia-se ainda corrupção).
A transmissão em directo dos depoimentos de ambos ontem na Comissão Parlamentar da Assembleia da República não ajudou a esclarecer a questão do esbulho feito aos pequenos accionistas e aos contribuintes.
Importa que próximos depoimentos não travem o curso normal da justiça na identificação do roubo  feito aos contribuintes, a associação criminosa que o permitiu e as responsabilidades que têm que ser apuradas na realização de crimes que terão certamente uma moldura penal adequada.
Mas mais do que estas responsabilidades e das respectivas penas de prisão e outras (que os portugueses esperam que sejam aplicadas para as culpas não morrerem solteiras, apesar do recurso a escritórios de advogados a que eles não podem ter acesso em causas muito mais singelas), há uma outra grande questão que tem que estar incorporada num programa de alternativa à política de direita.
Os grupos económicos e a banca tomaram conta do poder político. Há que retirar o poder político das mãos dos grandes grupos económicos e da banca. O poder político, também liberto de uma ganga autoritária, administrativista e de afastamento dos portugueses, pode assim ter o sustento democrático do povo. O poder dos grupos económicos, grandes empresas e da banca não resultam da vontade popular. Neles, hoje em dia, à entrada na empresa, cessa a democracia, as liberdades e direitos dos trabalhadores
deixam, em geral, de existir e isso resulta do peso que têm sobre o poder político, forçando a aprovação de leis que são um assinalável recuo de civilização, um recuo da dignidade para a escravidão.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Porque é que o governo português, na ONU, se absteve na votação contra a "glorificação do nazismo"?

Ao todo, 115 de 173 países votaram a favor da moção, enquanto 55 delegados – na sua maioria embaixadores dos países da União Europeia – se abstiveram.

Em 24 de agosto de 2001, o líder dos rabinos britânicos, Jonathan Sa­cks, anunciava em Londres que não participaria da Conferência contra o Racismo que a ONU pretendia realizar em Durban.
Sua justificativa baseava-se em uma série de afirmações que, direta ou in­diretamente, maculariam o Holocaus­to – durante o qual os nazistas da Ale­manha, com o apoio dos governos fas­cistas europeus da época (italiano, croa­ta, húngaro, romeno, búlgaro e ucrania­no), deportaram e assassinaram 6 mi­lhões de judeus nos campos de concen­tração, além de terem sido responsáveis pela matança de mais de 4 milhões de civis nos países ocupados, entre oposi­tores políticos, homossexuais, ciganos, portadores de deficiências e sobretudo comunistas e guerrilheiros.
Nessa onda até o presidente George W. Bush ameaçou cancelar a participação dos EUA em Durban caso continuasse o “erro” de escrever o Holocausto com a h minúscula.

Passados 13 anos tudo isso mudou. Com Obama.
Na realidade, a “grande imprensa” cen­surou o que se passou na Assembleia das Nações Unidas. E esse facto, foi considerado, por mui­tos analistas uma infâ­mia do ponto de vista histórico e políti­co, já que os representantes dos países da União Europeia que se abstiveram, em apenas cinco minutos, tentaram apagar os efei­tos nefastos da Segunda Guerra Mun­dial e de todas as violências e  massa­cres praticados pelos invasores nazis e seus aliados, os fascistas italianos.
Todos os diretores dos jornais, de revistas e dos noticiários de TV da União Euro­peia seguiram o exemplo de seus confra­des norte-americanos e canadianos, empur­rando para o “limbo mediático” a absten­ção de todos os representantes dos paí­ses que assumiram esta infâmia.Esse facto justifica uma pergunta de extrema importância, visto que o posicionamento dos governos da Alema­nha, Áustria, Bélgica, França, Grã-Bre­tanha, Hungria, Finlândia, Irlanda, Itá­lia, Portugal, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos e Hungria ao decidirem integrar o gru­po abstencionista, na realidade, demons­traram quão grande e complexo é  , hoje, o ní­vel de dependência ideológica em relação aos Estados Unidos.
Passos Coelho não mimetizou Salazar?

Vai ficar indiferente se manifestações nazis,como as que ocorrem na Ucrânia, descessem a Avenida da Liberdade?
Passos Coelho tem que explicar tudo isto muito bem...

O Jorge convida-nos a bugiar...


Frase de fim-de-semana, por Jorge

Walk a mile in another man’s moccasins
 before you criticize him.

"Antes de criticares alguém,
 caminha com os seus mocassins"

provérbio nativo americano

Vamos lá a ver se não trocam ainda mais o passo

O PS anda a dizer que não governa com a direita para atrair votos da esquerda. António Costa nem por formação nem pela conjuntura alguma vez trocará o passo. Há dias ficou claro que  não retiraria ninguém da fotografia como fazem os estalinistas. Ele estava-se lá a preocupar com o Stalin, que há muito saiu de cena...Estava era a querer apoucar os comunistas portugueses... Ele sabe que não vai lá com aquele grande movimento de massas que é o Livre...O PS sempre foi uma grande agência de empregos. Não é, ó Tavares?


O PSD anda a dizer que o PS está virar à esquerda, a querer entender-se com os comunistas. O PSD quer que o PS perca votos mas não quer que caia muito, daí a hipocrisia,  do suposto risco  do entendimento à esquerda...
Ambos querem polarizar votos em si para criar a convergência entre eles tão cara a Cavaco e tão rejeitada pelos portugueses.
O PSD chega ao ponto de dizer que os grupos que dominavam o país estão a sair de cena e que o futuro está nas micro, pequenas e médias empresas...
As eleições aproximam-se, claro. É tempo de virar casacas, da choraminguice com os reformados e os mais pobres a quem trataram sempre mal. Tudo em festa, riam, toquem, rodopiem e troquem o passo às conveniências, peçam em coro muitos chamadas com IVA, mini-cabazes de Natal em favor das crianças a quem quiseram tirar quase tudo.
Não, não é com o vosso histórico, de que se sentem honrados, que a ruptura virá.

sábado, 29 de novembro de 2014

Segundo o jornal Publico (de Espanha!...)

Público.es

El PCP es la formación más joven del Parlamento de Portugal. Alejado de las salpicaduras de la corrupción y con un perfil y un discurso tradicional, se postula como receptor de parte del voto de castigo contra la austeridad y los recortes

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pintura a óleo de Álvaro Cunhal

Pintura em madeira do projecto 6 de  "Eu gostaria de saber pintar"



O poder económico tomou conta do poder político mas os portugueses tomarão conta de ambos

No país e em Bruxelas assim um poder tomou conta do outro.
Mas nem todo o poder político, nem todos os partidos assim o quiseram e nele se refastelaram, atascados em maus e péssimos comportamento
Se estes episódios e períodos negros já se verificaram noutros momentos da nossa história, também é certo que foi possível reconstruir ambos os poderes em nome do desejo popular e da dignidade nacional.
Por aí vamos e venceremos!




domingo, 23 de novembro de 2014

Os portugueses e a sobrevivência do regime democrático

As questões do anterior Primeiro-Ministro que se arrastam há anos, a prisão de altas figuras do Estado envolvidas em actos de corrupção nos casos dos vistos Gold e as trafulhices imobiliárias que acarretaram, o  afundamento de Ricardo Salgado e do BES - e por aqui me fico -  para além da exibição  de  mordomias, riquezas, e intolerâncias por parte de banqueiros, administradores de empresas, e titulares  de ex-titulares de cargos de soberania, com o silêncio de um PR que não questiona, não alerta, não tendo um rebate de consciência a transmitir aos portugueses, que o implica neste pântano, coloca-nos a todos perante uma questão central.

Ao contrário do que muitos papagaios têm vindo a defender, não é o "regime" que está em causa. Isso era o que eles queriam!..  tal como o querem ao atribuir as causas desta pântano que dura há décadas a uma "classe política" em que caberiam todos..   já falaram na revisão das leis eleitorais para aproximar (grande hipocrisia!) eleitos dos eleitores...e por aí forma vão, atribuindo as responsabilidades à Constituição que aprovaram


O que importa ter em conta é que a política de direita que tem sido seguida há dezenas de anos,  e  cujos  protagonistas têm sido o PSD, CDS e PS, é que cria as condições para a corrupção, o tráfico de influências, o branqueamento de dinheiro, vindo de actividades ilegais, a atribuição de empregos no Estado de amigos dos decisores, etc.

Enquanto isto se dá  os trabalhadores, reformados, doentes graves, as crianças e a sua alimentação, vida familiar e educação, aumentam o sofrimento que é maior para quem menos tem.

É pois contra este governo e contra a política de direita que a luta não pode parar.
Entretanto deixemos a justiça funcionar.



Frase de fim-de-semana, por Jorge











"A metafísica é uma consequência 
de se estar mal disposto."
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
na Tabacaria (1928)

As pontes são laços

Para a Isabel

As pontes são laços de duas partes
Que se juntam e assim ficam.
As ondas de um lado suspiram
E as do outro lado entendem-nas.

São desamores, por vezes
Mas a água vai passando
E recria laços que parecem perdidos
Recriando a alegria e o encantamento.

Afinal a água é simples, tão simples
Como o amor dos que passeiam na ponte.

Amor que é a ponte mais bela
Que junta as margens de dois seres.


domingo, 9 de novembro de 2014

No olho da tempestade, por José Goulão em Bruxelas e Pilar Camacho no Luxemburgo, 7 Nov

O  arranque de Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão Europeia foi comprometedor e agora tornou-se penoso com a divulgação do escândalo sobre benefícios fiscais dados pelos seus governos no Luxemburgo a monopólios transnacionais enquanto os cidadãos europeus penam com as de austeridade.
Segundo o consórcio internacional de jornalistas ICIJ, os governos do Luxemburgo presididos por Jean-Claude Juncker, que ao mesmo tempo era presidente da Zona Euro, negociaram taxas fiscais anuais ínfimas, da ordem dos 2% mas que em alguns casos foram mesmo de 1%, com grandes empresas transnacionais como o IKEA, a Amazon, a Pepsi, o empório norte-americano de Tabaco British American Tobacco, a AIG, o Deutsche Bank, enquanto a taxa fiscal no país é de 28,6%. Os jornalistas baseiam a sua denúncia em milhares de documentos que podem ser consultados no dossier que elaboraram. Segundo essas fontes, os enormes benefícios fiscais estão contidos em pelo menos 548 acordos envolvendo no mínimo 340 empresas, entre as quais a maioria dos nomes sonantes que acumulam lucros fabulosos e figuram entre os que tiraram maiores proveitos com a crise em que sobretudo a Zona Euro está mergulhada.                                                                                                                                               . As primeiras reacções de Juncker “são catastróficas”, diz-se no interior da Comissão, onde os eurocratas da nova equipa ainda estão a instalar-se. O facto de a sua porta-voz, Margaritis Schinas, se ter escusado a comentar o assunto e também o cancelamento da presença do presidente da Comissão num seminário ironicamente dedicado “ao futuro da Europa”, foram as piores reacções que o ex-primeiro ministro luxemburguês poderia ter. A porta-voz limitou-se a declarar que “o Sr.  Juncker está muito tranquilo”. Formalmente, o presidente da Comissão Europeia fez saber que não será ele próprio a investigar o assunto, mas sim a comissária da Concorrência.                                                                  

“Isso é um formalismo para pacóvio consumir”, revela a título particular um alto funcionário da Comissão. “É óbvio que o Sr. Juncker será juiz em causa própria e tudo fará, como os primeiros indícios desde já revelam, para fazer crer que os negócios de que beneficiam as grandes empresas estão previstos nas leis e cumprem a preceito as normas da concorrência, tratando-se tão somente de uma questão de competitividade”, acrescenta o alto funcionário                                                                                                                         

“O Sr. Barroso deixou a presidência da Comissão a contas com um problema mal explicado, e ainda em averiguações, de submissão a lobbies tabaqueiros; e agora entra o Sr. Juncker trazendo para o interior das instituições europeias um problema gravíssimo de desequilíbrio entre as vantagens das empresas e os sacrifícios exigidos aos cidadãos. Depois admiram-se de que as pessoas não se revejam na Europa”, afirma ainda o alto quadro da Comissão Europeia.                                                                                             

No Luxemburgo as opiniões dividem-se. O sucessor de Juncker na chefia do governo, o liberal Xavier Bettel, garante que os acordos “respeitam as normas nacionais e internacionais” e que o seu executivo “está comprometido com a equidade”. Nicolas Mackel, chefe executivo da Luxembourg for Finance, limita-se a argumentar que “o sistema de impostos no Luxemburgo é competitivo”.                                                          

“Nós, os que trabalhamos no duro, é que não conseguimos benefícios desses, não há competitividade que nos valha”, argumenta Isabel Marques, imigrante portuguesa há mais de 20 anos que começou nas limpezas e que “mal consegue ir equilibrando o barco” com o seu pequeno estabelecimento. “Impostos, impostos e mais impostos, exigências e mais exigências, lá fora diz-se que os nossos salários são elevados, e são se os compararmos com os de outros países, mas os impostos que nos sugam também não têm comparação; e a nós, os pequenos, os imigrantes, não nos fazem acordos para pagar 2% de impostos”, acrescenta Isabel.                                                                                                                   

Em Bruxelas, na quinta-feira, uma gigantesca manifestação sindical e popular surpreendeu mesmo os mais cépticos. Pela primeira vez a polícia esteve de acordo com os organizadores em calcular as presenças em cerca de 100 mil.                                                                                                                                               

“Estamos aqui para exigir ao primeiro-ministro Charles Michel, por exemplo, que corte nos benefícios às grandes empresas, nas mordomias financeiras e não nos nossos salários e direitos”, desabafou Martha lamentando “a brutal perda de poder de compra que nós os belgas estamos a sofrer como em tantos outros países”.                                                                                                                                  

“E se esta mobilização não der os resultados que exigimos avançaremos para a greve geral em 15 de Dezembro”, acrescentou a jovem mãe de família:                                                                                 “A Europa está a ser governada por um bando de gente sem moral trabalhando apenas para os lucros das grandes empresas sem pátria e para as mafias financeira, enquanto explora os cidadãos sem dó nem piedade”, de acordo com Joseph Ackerman, cidadão alemão que trabalha na capital belga. “Quer coisa mais revoltante”, perguntou, “do que saber que um grupo como o Deutsche Bank, que é um sustentáculos da política que Merkel impõe a toda a Europa, sobretudo aos mais pobres, beneficia de impostos inferiores a 2% negociados com o governo do Luxemburgo? Isto é legal? Nada disso: isto é uma burla, e das grandes… E o que faz a polícia?" - prossegue Joseph no caminho das interrogações. "O que está a ver-se: carrega sobre os manifestantes enquanto os verdadeiros, os grandes criminosos estão à solta e muito bem na vida".