quinta-feira, 5 de abril de 2012

Agressão imperialista à Síria: a política de terror

Depois de terem sido obrigados a bater em retirada pelo exército sírio, os grupos armados responsáveis pela violência no país apostam nos atentados terroristas. Paralelamente, emergem novos elementos sobre a ingerência imperialista na Síria e a campanha de intoxicação pública realizada por meios de comunicação árabes e dos EUA com o objectivo de subverter os acontecimentos dos últimos meses no país.
O Avante! dá desenvolvimento a esta questão.

As cenas de velhacaria de Passos e Gaspar

O episódio destes dias em que Gaspar dá o dito por não dito, por "lapso", sobre até quando vigorariam os cortes dos 13º e 14º mês da função pública e da generalidade dos reformados, revela várias coisas:
  • Que membros do governo andaram a mentir aos portugueses quando disseram que seria no final de 2013;
  • Que ainda agora não sabem como será em 2015;
  • Que tudo está ainda mais imprevisível se prosseguir esta política assente no plano de agressão do governo e da troika no que respeita à debilidade das receitas derivadas de crescente redução do mercado interno, de um maior desemprego, mais encerramentos de empresas decorrentes nomeadamente da falta de liquidez, que a banca tem inviabilizado à generalidade das pme e micro-empresas, queda das exportações aprofundamento da recessão;
Prosseguir o caminho é garantir o abismo. E o abismo, quando todos se perceberem dele, despertará a determinação por outros caminhos.
           

Há 25 anos, Mário Soares abria a Cavaco Silva o caminho da maioria absoluta

Ouvi hoje na Antena Um, a propósito da passagem dos 25 anos sobre a dissolução da AR em 1987, onde a direita estava em minoria, embora com governo minoritário de Cavaco. Hermínio Martinho (PRD) e Almeida Santos (PS) falarem sobre a decisão de Mário Soares.
Não ficou claro, porém, que após a dissolução, o então Presidente tinha a garantia de apoio parlamentar maioritário a um governo chefiado pelo então secretário-geral do PS, Vitor Constâncio, sem exigências de outros partidos em entrarem no governo.
Resumindo: Soares preferiu que passasse a absoluta a maioria relativa do PSD em vez de um outro governo minoritário, da iniciativa do PS, com apoio de uma outra maioria parlamentar, que passaria a minoria quando Soares achou "mais seguro" viabilizar a maioria de direita.

Se retomo este tema é para dar um pequeno contributo para que a História resista a mais um revisionismo e não por achar interessante, por completamente desadequado, a rediscussão dessa questão.

Serra Pelada - foto de Sebastião Salgado

O Jorge recordou-nos uma frase de um dos grandes fotógrafos contemporâneos

“Você não fotografa com sua máquina. Você fotografa com toda sua cultura”


(Sebastião Salgado)


sexta-feira, 30 de março de 2012

A frase de fim-de-semana, por Jorge

"O mínimo que nos é exigível
é o máximo que somos capazes de fazer"

Manuel António Pina
(poeta / prémio Camões 2011
e cronista do JN, nasc. 1943)

Numa manhã de 1973, com o regime abalando...

A CDE organiza a romagem do 5 de Outubro no Alto S. João. A polícia presente diz "E agora pode falar um sr. candidato...". Estou a responder, em nome dos outros que lá estavam "Os candidatos da CDE não falam às ordens da Polícia". à saída o Pedro Coelho ainda subiu para cima de um pilarete e disse umas palavras. À saída, seria uma vez mais a carga policial e a detenção de uns vinte de nós na esquadra de Santa Apolónia.
Na foto, tapado por mim está o Urbano Tavares Rodrigues, e ainda Teresa Dias Coelho, Herberto Goulart, Arons de Carvalho, o Xico de Sacavém e o querido camarada já falecido, Euclides Pereira.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Uma bela noite na Gulbenkian

Anteontem, a propósito de um concerto, reuniam-se vários pontos de interesse na Gulbenkiam.
Uma das melhores orquestras sinfónicas do mundo (de Göteborgs, da Suécia).
Um dos mais carismáticos e jovens maestros em carreira internacional (o venezuelano Gustavo Dudamel).
Dois grandes nomes da música com algumas das suas grandes peças (Richard Strauss e Joseph Haydn).
Uma das peças interpretadas foi "Assim falou Zaratustra" que ultrapassou no conhecimento público as dimensões normais da cultura musical por ter sido o tema do filme "Odisseia no espaço" de Stanley Kubrick.
O grande auditório estava cheio. Várias chamadas consecutivas ao palco e um belo encore traduziram o entusiasmo do público para com as interpretações.

Transformar o Código do Trabalho numa camisa de forças dos patrões

Com esta nova alteração ao Código de Trabalho, em debate na AR, os patrões passarão a despedir mais facilmente, a gerir arbitrariamente os horários de trabalho, a reduzir salários e indemnizações por despedimento e subsídios de desemprego, a aumentar o tempo de trabalho, a exploração e a insegurança dos trabalhadores, generalizar a precariedade.


O Ministro da Economia chegou ao cúmulo do cinismo de afirmar que eram medidas favoráveis aos trabalhadores...porque provocaria um. aumento da competitividade. Como Octávio Teixeira sublinhou hoje na Antena Um, as duas anteriores alterações ao Código, justificadas com tal "objectivo", não o atingiram e, pelo contrário aumentaram o emprego e o emprego desprotegido.
Se virmos quem é atingido pelas medidas até agora decididas enquadradas pelo plano da troika e mais estas agora previstas fica claro que todas prosseguem objectivos estratégicos que nada têm a vêr com a saída da crise e o crescimento da economia mas tão só com o que ideologia neo-liberal pretende: a diminuição drástica dos custos de trabalho, o empobrecimento dos portugueses e o cerceamento de direitos sociais básicos.

São os grupos económicos e a banca a falar mais grosso.
Mas não ficarão a falar sózinhos.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Como elas se preparam...

Andam por aí umas almas caridosas a queixar-se da CGTP-IN por não admitir que certos "movimentos" se incorporem nas suas manifestações, pelo conhecimento que há de que deixam alojar no seu seio grupos provocadores.
E cujo papel é "justificar" medidas policiais despropositadas contra manifestantes que provoquem uma redução de apoio social interno às suas lutas e dar a "repórteres" estrangeiros ou nacionais as imagens que em todo o mundo serão a única forma que as respectivas opiniões públicas têm de interpretar a dimensão e justeza das lutas noutros países.
Vejamos como agiram no passado dia 22, dia da greve geral
Chegam escoltados pela polícia
Combinam as coisas com a polícia


Arrancam para a Rua Garret

Rebenta um pequeno petardo, a polícia fecha a rua para garantir
que os presentes se desloquem para o cenário mediático previamente definido: a Brasileira

As imagens de video e fotos arrancam e captam sucessivamente os "manifestantes"  a destruir loiça e a esplanada e a polícia a fazer algo de semelhante.
Recomendo o cotejo destas fotos com as imagens até aqui publicadas para descobrir não inocentes coincidências...







sexta-feira, 23 de março de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

Adicionar legenda
"Não há nada mais cómico que a infelicidade"

Samuel Beckett em Endgame (1957)






quarta-feira, 21 de março de 2012

Todos os dias novas razões para uma grande greve geral

Dar continuidade às desvalorizações internas (quebras de salários e pensões) impostas aos países com dificuldades é um erro que contraria a competitividade e gera a recessão profunda, falências, desemprego e mais pobreza.
Octávio Teixeira defende hoje na sua crónica semanal no Jornal de Negócios que se traduzisse uma "caixa" de uma peça sobre estas experiências que integra, contraditòriamente, o relatório da missão do FMI que recomendou o novo pacote de resgate à Grécia que os gregos tão vivamente têm contestado.

Também ontem fonte oficial   nos permitiu ficar a saber que em Portugal, o deficite do Estado (por  aí fiquemos) durante Fevereiro, triplicarta em relação a período homólogo do ano passado.
No que respeita às quebras nas receitas isso decorre essencialmente de menores impostos cobrados à actividade produtiva que se reduziu significativamente. E poderá servir de pretextyo a mais uma opção criminosa como a que se prepara com a privatização dos Esteiros Navais de Viana do Castelo.
No que respeita ao aumento das despesas, dizer como Marcelo Rebelo de Sousa ou Miguel Frasquilho que ela se não repetirá noutros períodos ignora que vão existir, sim, infelizmente, novas elevadas despesas como as que decorrem de uma importante subida das taxas de juros e vendas de obrigações.
Por seu lado, Seguro declarou-se admirado com a subida da despesa do Estado, atribuindo isso a um genérico" descontrolo em vez de sublinhar causas como o aumento das despesas sociais (só o subsídio de desemprego subiu 18% no período referido...). Estará Seguro a preparar nova campanha contra as "gorduras" do Estado que gerariam novas ameaças a emprego e direitos sociais básicos como a Saúde e a Educação?

Para os que consideram "inevitáveis" os sucessivos pacotes de austeridade, importa não deixar de salientar que tais pacotes estão a gerar os efeitos contrários aos que "justificaram" o seu lançamento
Faz todo o sentido, pois, a greve geral de amanhã.

sábado, 17 de março de 2012

Seara Nova -90 anos de intervenção cívica e cultural

A exposição itinerante comemorativa do 90ª Aniversário da Seara Nova estará no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno,  até finais do mês de Abril.

A inaugurar no sábado, dia 24 de Março, às 17 horas, durante um convívio da Comissão de Honra das Comemorações com o Conselho Redatorial da Seara Nova e com outos colaboradores, a Exposição tem por tema 90 Anos de Intervenção Cívica e Cultural e estará patente ao público de 3ª feira a 6ª feira entre as 10 e as 19 horas; à 2ª feira e ao sábado entre as 11 e as 19 horas.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Entre o forte e o fraco, e entre o rico e o pobre,
e entre o senhor e o escravo,
a liberdade é que oprime e o que liberta é a lei"

Jean-Baptiste Lacordaire
Padre dominicano e activista político francês,
1802-1861

quarta-feira, 14 de março de 2012

Director do Golden Sachs demite-se devido à "bancarrota moral" do banco

Segundo o jornal Económico, um director da área de instrumentos derivados do Goldman Sachs demitiu-se hoje por considerar que os colaboradores do gigante norte-americano entraram em "bancarrota moral". Num artigo de opinião, publicado no "The New York Times", Greg Smith explicou porque abandonou o banco, após 12 anos na entidade.

Greg Smith explicou a sua posição referindo que os responsáveis do banco deixaram de se preocupar com os interesse dos clientes, mas sim com o dinheiro que lhes poderiam tirar. Referiu mesmo que houve cinco directores do banco que chamaram aos seus clientes "fantoches".
Num comunicado citado pelo "Financial Times", o Goldman Sachs reagiu, referindo que "discordamos com as perspectivas expressas, que nós pensamos que não reflectem a forma como gerimos o nosso negócio".
O director demissionário do banco referiu que "espera que [o artigo de opinião] sirva para acordar o conselho de administradores", avisando que "as pessoas que se preocupam apenas em fazer dinheiro não irão sustentar a firma - ou a confiança dos clientes - por muito mais tempo".
O artigo deste ex-director do GS no York Times sobre a sua decisão  pode ser lida, em inglês, na íntegra aqui.

terça-feira, 13 de março de 2012

As andorinhas de volta, por Jorge

Todos os anos:

a mesma excitação,

a mesma chilreada,

o mesmo repouso...

a mesma novidade.

Benvindas!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge


Fountain - R. Mutt, aliás M. Duchamp (1917)
[fotografia de Alfred Stieglietz].jpg

"Forcei a contradizer-me para evitar
conformar-me com o meu próprio gosto"

Marcel Duchamp (artista francês ligado
ao dadaísmo e ao surrealismo, 1887-1968)







quinta-feira, 8 de março de 2012

"O libertino", no Teatro da Trindade

Fomos ontem ver esta peça de Éric-Emmanuel Schmitt, encenada e traduzida por José Fonseca e Costa.
O personagem central é Diderot (José Raposo).
Nesse dia sucedem-se-lhe desempenhos de inveterado mulherengo, onde Madame Therbouche (Maria João Raposo) o desenha, reclamando-lhe que o deixe pintar "tal como a natureza o fez vir ao mundo", a sua própria mulher e uma outra jovem o disputam, conferindo à peça um carácter sensual marcante.
Isto decorre enquanto ao longo da acção Diderot procura escrever um texto sobre sobre a Moral para a Enciclopédia a que se tem entregue.
A libertinagem e a escrita vão-se influenciando com um desfecho inesperado.
Uma comédia interessante atravessada por uma discussão filosófica...

domingo, 4 de março de 2012

Vera Mantero no S. Luiz, comentada por Jorge

não só dança... também canta!

e bem,
com nervo, ironia e finura

(tudo: Berlin, Weil, Trenet, Jobim, Porter, Caetano...)

não percam se a virem por aí
(na próxima, o aviso tem que ser antes, reconheço...)

sábado, 3 de março de 2012

Um tempo sem nome ou o novo conceito de envelhecer, de Rosiska D. de Oliveira (Globo, 12/01/2012)

Transcrevo o que Margarida Pino escrveu no Facebook.

O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu para nós este primor de blues ESSA PEQUENA ( ao lado), Mas rendeu também a interessante crônica UM TEMPO SEM NOME da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer".


Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição.Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Aquilo que pode ser afirmado sem provas
pode ser rejeitado sem provas"

Christopher Hitchens
(autor anglo-americano, 1949-2011)

"O medo de Carlos Drummond de Andrade

O Medo é o que caridosamente nos resguarda e impede de naufragarmos em nós próprios. Ajuda-nos na ilusão. Ajuda-nos na segurança ilusória.


O Medo que evita naufragarmos num mar mais amplo e tanto mais perigoso quanto é a nossa incapacidade de/para nadar...

 

Vejamos como fala dele Carlos Drummond de Andrade.


  O Medo

Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

Vadeamos.

Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.

Há as árvores, as fábricas,

Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,

Este célebre sentimento,

E o amor faltou...

O medo, com sua capa,

Nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,

Meu companheiro moreno.

De nos, de vós, e de tudo.

Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses.

Nosso caminho: traçado.

Por que morrer em conjunto?

E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,

Vem ó terror das estradas,

Susto na noite, receio

De águas poluídas. Muletas

Do homem só.

Ajudai-nos, lentos poderes do

Láudano.

Até a canção medrosa se parte,

Se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

AS LEITURAS DA CRISE, segunda Conferência Seara Nova em 3 de Março

Integrada nas comemorações do 90º Aniversário da Seara Nova, realiza-se no dia 3 de Março, com início às 15 horas, na Sala Veneza do Hotel Roma (A. de Roma, nº33, em Lisboa) uma Conferência/Debate, sob o título Leituras da Crise, que terá como oradores convidados os Professores Doutor António J. Avelãs Nunes, da Universidade de Coimbra e Doutor João Ferreira do Amaral, da Universidade Técnica de Lisboa.
Seguramente não deixarão de ser abordadas questões como a crise geral da sociedade capitalista e a sua expressão no âmbito da União Europeia, a financeirização e as orientações neoliberais, a crise do euro e o erro da adesão de Portugal à moeda única, o ultimato da troika e a grave degradação da vida portuguesa, as medidas de austeridade e a insensibilidade social do governo.

Às intervenções dos Professores Ferreira do Amaral e Avelãs Nunes, seguir-se-á um período de debate, no qual todos os participantes poderão dar as suas opiniões ou solicitar esclarecimentos sobre as complexas e graves questões com que os portugueses estão confrontados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

"Se os povos da Europa não se levantarem, os bancos trarão o fascismo de volta.", segundo Mikis Theodorakis

No momento em que a Grécia é colocada sob a tutela da Troika, em que o Estado reprime as manifestações para tranquilizar os mercados e em que a Europa prossegue nos resgates financeiros, o compositor Mikis Theodorakis apela aos gregos para combaterem e alerta os povos da Europa para que, ao ritmo a que as coisas vão, os bancos voltarão a implantar o fascismo no continente.

Entrevistado durante um programa político popular na Grécia, Theodorakis advertiu que, se a Grécia se submeter às exigências dos chamados ".parceiros europeus" será ".o nosso fim quer como povo quer como nação". Acusou o governo de ser apenas uma "formiga" diante desses "parceiros", enquanto o povo o considera "brutal e ofensivo". Se esta política continuar, "não poderemos sobreviver … a única solução é levantarmo-nos e combatermos".

Resistente desde a primeira hora contra a ocupação nazi e fascista, combatente republicano desde a guerra civil e torturado durante o regime dos coronéis, Theodorakis também enviou uma carta aberta aos povos da Europa , publicada em numerosos jornais… gregos. Excertos:

"O nosso combate não é apenas o da Grécia, mas aspira a uma Europa livre, independente e democrática. Não acreditem nos vossos governos quando eles alegam que o vosso dinheiro serve para ajudar a Grécia. (…) Os programas de "salvamento da Grécia" apenas ajudam os bancos estrangeiros, precisamente aqueles que, por intermédio dos políticos e dos governos a seu soldo, impuseram o modelo político que conduziu à actual crise.

Não há outra solução senão substituir o actual modelo económico europeu, concebido para gerar dívidas, e voltar a uma política de estímulo da procura e do desenvolvimento, a um proteccionismo dotado de um controlo drástico das Finanças. Se os Estados não se impuserem aos mercados, estes acabarão por engoli-los, juntamente com a democracia e todas as conquistas da civilização europeia. A democracia nasceu em Atenas, quando Sólon anulou as dívidas dos pobres para com os ricos. Não podemos autorizar hoje os bancos a destruir a democracia europeia, a extorquir as somas gigantescas que eles próprios geraram sob a forma de dívidas.

Não vos pedimos para apoiar a nossa luta por solidariedade, nem porque o nosso território foi o berço
de Platão e de Aristóteles, de Péricles e de Protágoras, dos conceitos de democracia, de liberdade e da Europa. (…). Pedimos-vos que o façam no vosso próprio interesse. Se autorizarem hoje o sacrifício das sociedades grega, irlandesa, portuguesa e espanhola no altar da dívida e dos bancos, em breve chegará a vossa vez. Não podeis prosperar no meio das ruínas das sociedades europeias. Quanto a nós, acordámos tarde mas acordámos. Construamos juntos uma Europa nova, uma Europa democrática, próspera, pacífica, digna da sua história, das suas lutas e do seu espírito. Resistamos ao totalitarismo dos mercados que ameaça desmantelar a Europa transformando-a em Terceiro Mundo, que vira os povos europeus uns contra os outros, que destrói o nosso continente, provocando o regresso do fascismo".

Frase de fim-de-semana por Jorge

"Que a tua vida seja um travão para parar a engrenagem"


título do video da ClassWarFilms sobre a história dos EUA (2012)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

José Afonso para sempre

José Afonso foi dos portugueses que se libertou da lei da morte e pode dizer-se que ele é um elemento da nossa identidade.
Mal amado por alguns, perseguido pelo fascismo, foi desde cedo um homem do seu povo.
O significado da sua música e da influência que teve na música e na sociedade portuguesas são fundamentais para compreender gerações, com formações diferentes mas com elementos comuns, identitários ao nível do carácter, da música de raiz popular, de inconformismo e do valor da liberdade.

Conheci o José Afonso em convívios do movimento estudantil em 69, 70 e 71, na margem sul em fogos de campo do movimento campista em 1972, no 3º Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro em 1973, em cuja manifestação participou, no convívio do final de 1973 organizado pela CDE no Clube Atlético de Alvalade e depois do 25 de Abril na organização de múltiplos concertos integrados em campanhas políticas. Quando morreu, participava com cerca de vinte outros camaradas num curso de formação da escola do Partido. Interrompemos as aulas e assistimos todos, depois, na TV ao impressionante funeral realizado em Setúbal.








domingo, 19 de fevereiro de 2012

Michel Chossudovsky ao jornal "i". “Estamos num cenário de terceira guerra mundial. E todos vão perder”

Jornal I -. Será Israel capaz de atacar Irão sem o apoio dos EUA?

M. Chossudovsky -  Eles podem enviar as suas forças, por exemplo para o Líbano, mas o seu sistema está integrado no dos EUA e, como o Irão tem mísseis, têm de estar coordenados com Washington. É uma impossibilidade em termos militares. Em 2008, o sistema de defesa aérea de Israel foi integrado no dos EUA. Estamos a falar de estruturas de comando integradas. Quer dizer, Israel pode lançar uma pequena guerra contra o Hezbollah ou até contra a Síria, mas contra o Irão terá de ser com a intervenção do Pentágono. Embora tendo uma fatia significativa de militares, Israel tem uma população de 7 milhões de pessoas e não tem capacidade para lançar uma grande ofensiva contra o Irão.

Veja entrevista na íntegra aqui.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Erótico é quando se usa uma pena,
pornográfico é quando se usa a galinha toda".

Isabel Allende (escritora chilena, 1942)

Segundo o Jorge neste caso até se
pode falar de uma "cena pernográfica"

Delírio e Tormento, por Barbara Hannigan com a Orquestra Gulbenkian

Tivemos a oportunidade de assistir a um concerto invulgar e admirável.
Invulgar por assistirmos ao desempenho de uma maestrina que é, simultâneamente soprano nalgumas das peças interpretadas, 3 áreas de Mozart, a "Djamila Boupachà" (a solo), de Luigi Nono e os "Mistérios do Macabro", de György Ligeti.
O concerto abriu com o entusiasmo da abertura da ópera "La gazza ladra" de Rossini, para dar lugar à agitação e esperança das áreas, continuando pelo concerto de homenagem à tradição folclórica romena, "Concert Românesc"e concluindo com a "Polka do ,circo: para um jovem elefante".
Na segunda parte Barbara cantou de forma admirável, a "Djamila Boupachà", de L. Nono, que homenageia uma resistente anti-colonial argelina,  a solo, e sem instrumentos. Seguiu-se um concerto de oito cordas a interpretar o Prelúdio e Scherzo, op.11, de Chostakovitch, que contem uma parte negra. No final uma parte da orquestra, interpreta com a voz de Barbara, os "Mistérios do Macabro", uma peça desvairada sob a forma de humor negro.
O concerto não agradou a toda a gente, Ao nosso lado, um conjunto de senhoras que tinham vindo desfilar os seus visons, abstinham-se de palmas e o cavalheiro que as acompanhava, disse a propósito de L. Nono, talvez por ter sido comunista, "Ah! Este ao menos já morreu"...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O caos que o capitalismo garante, obtendo também uma redução da democracia

Na última das suas cronicas das quartas-feiras no J. de Negócios, Octávio Teixeira abordou estes temas de forma esclarecedora.
Sublinharia uma questão. A da expressão da revolta no decurso de lutas contra aspectos tão graves como os que estão contemplados no acordo com a troika (verdadeiro pacto de agressão). De uma forma concentrada, no decurso do ano que há pouco decorreu, os trabalhadores portugueses vão ser espoliados em termos remuneratórios e de direitos, como o referiu o novo secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos.
A força do movimento sindical unitário e a confiança que nele depositam os trabalhadores têm garantido um enquadramento dos protestos, conjurando esboços de provocações, que alguns movimentos marginais ou provocadores infiltrados por sectores da própria polícia que depois os confronta. Os obectivos têm sido claros: por um lado, tentar obter imagens que depois seriam o "rosto" dos protestos, silenciando as grandes manifestações e "justificando" intervenções repressivas que serviriam de base a novas agressões à democracia, por outro, reduzir a base social dos protestos criando novos factores de medo e de insegurança e de aceitação de mais atentados à democracia.
Importa que fique claro que quem está a "atear o fogo social" não são os sindicatos nem as vítimas de tais pactos, mas sim o governo que está a aprofundar um processo desencadeado pelo PS.
Os sindicatos cumprem o seu papel de defesa dos interesses dos trabalhadores.
O governo afronta os interesses dos trabalhadores e do país, criando o confronto social e procurando reacções descontroladas.
Neste processo o governo pode sair derrotado e da convergência de lutas em vários países europeus poderá resultar uma mudança da União Europeia.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Throw down your heart" e as origens africanas do banjo

"Throw Down Your Heart" corresponde à viagem por África de Béla Fleck e seu banjo para explorar as pouco conhecidas raízes africanas do banjo e gravar um álbum. A viagem levou-o ao Uganda, Tanzânia, Gâmbia e Mali, e permitiu vislumbrar a beleza e complexidade da África. Com o seu banjo, Béla transcendeu as barreiras de língua e cultura, e encontrou um terreno comum e relações que forjaram músicos de origens muito diferentes.

http://youtu.be/WDCxaQhhL0A

sábado, 11 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Ninguém é mais escravo do que quem,
não o sendo, se julga livre"

J.W.Goethe (escritor alemão,
poeta, dramaturgo, etc.,
e ministro de Estado
em Weimar por uma década, 1749-1832)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Fotografia homenageia Orlando Ribeiro na Reitoria da Cidade Universitária

O Jorge aqui nos deixa um convite para a a exposição de fotografia de homenagem a Orlando Ribeiro, a decorrer no átrio da reitoria da Cidade Universitária.
São 60 e tal fotografias do próprio e de outros 30 fotógrafos em "diálogo" com as suas.
Segundo o Jorge. uma exposição muito boa e com direito a um bom catálogo!
http://www.igespar.pt/pt/agenda/9/2262/

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Embora o mundo esteja farto de sofrimento,
está também farto de o vencer"

Helen Keller (cega e surda desde os 19 meses, escritora
e grande ativista política e social americana, 1880-1968)

Declaração do eurodeputado do PCP, João Ferreira, sobre o Conselho Europeu de 2ª f passada

Sente-se nesta União Europeia o ambiente funesto, a irracionalidade e a desorientação que sempre antecedem o desmoronar de impérios. É cada vez mais claro que os trabalhadores e os povos da Europa nada podem esperar destas reuniões. Nada que se pareça com soluções verdadeiras para uma crise cada vez mais grave.
Deste Conselho Europeu nem uma só palavra sai sobre as intoleráveis e crescentes desigualdades sociais, sobre as assimetrias de desenvolvimento entre países, sobre os paraísos fiscais, sobre a livre e desregulada circulação de capitais que viabiliza a especulação, a agiotagem e a predação de recursos nacionais.
O que sai desta reunião é um autêntico golpe constitucional. Querem impor e generalizar as políticas contidas nos programas do FMI e da UE - cujos resultados catastróficos estão à vista na Grécia, em Portugal ou na Irlanda. Querem torná-las eternas (assim pensam, sem saberem como se enganam...). Em pleno século XXI, querem impedir o direito dos povos decidirem livremente o seu caminho, transformando países soberanos em autênticos protectorados.
Este é um caminho sem outra saída que não o desastre.
As lutas sociais, que se multiplicam pela Europa, são o caminho mais seguro para o evitarmos. E para abrirmos um horizonte de esperança e confiança num futuro melhor.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mentiras e contra-informação sobre a situação na Síria

Os media portugueses, sem meios próprios para apresentarem a sua própria informação, retransmitem a "informação" dos grandes media internacionais, completamente alinhados, com o objectivo dos EUA e NATO, com o apoio do secretário-geral da ONU, de fazerem na Síria o que fizeram na Líbia, ao arrepio das mais elementares regras de não ingerência.

A tentativa de responsabilizar a Síria pela morte de em jornalista francês que, de facto, dava cobertura a uma intervenção de militares franceses falhada, o regresso precipitado pela Liga Árabe, da sua comissão de inquérito, de que não publicou o relatório porque uma das constantações feitas nele era a de que não havia nenhuma revolta popular nem militares revoltosos na Síria, mas sim mercenários wahhabitas, associados. aos actos de terrorismo praticados por desconhecidos, são apenas dois exemplos recentes dessa manipulação.

O que se pretende é criar as condições de aceitação pela opinião pública do aprofundamento da agressão e da participação nela de militares e armamentos.

A opinião pública portuguesa deve estar atenta aos objectivos de exercícios militares das FA portuguesas realizadas nos últimos dias (F-16, helicópteros, etc.) e explicitamente apresentados como se insrirem na "necessidade" deste tipo de intervenções.