sexta-feira, 27 de abril de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"A música não tem a ver com a verdade:
não há música mais verdadeira do que outra"

Esa-Pekka Salonen
maestro e compositor finlandês, nasc.1958



                                                                                                                         

No 1º de Maio todos à rua|

Miguel, quando voltaremos a trocar impressões no Califa?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Sempre que te vires do lado da maioria,
é altura de parar e refletir"


Mark Twain (escritor americano, 1835-1910)





quinta-feira, 19 de abril de 2012

O fiasco da Síria, por Thierry Meyssan


O fiasco da Síria

Com 83 estados e organizações intergovernamentais representadas, a segunda Conferência dos «Amigos» da Síria foi um sucesso mediático. No entanto essa encenação não chegou para disfarçar o falhanço da NATO e do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) na Síria, incapazes de derrubar o regime durante um ano de guerra de baixa intensidade, e hoje forçados a afastar-se face à frente russo-sino-iraniana.
Thierry Meyssan descreve essa estranha conferência diplomática onde as palavras são pronunciadas não para dizer, mas para esconder.


O presidente Bachar el-Assad deslocou-se, a 27 de Março de 2012, a Homs. Visitou o bairro de Baba Amr onde os takfiristes(1) sírios e combatentes estrangeiros tinham proclamado durante um mês um Emirado islâmico independente. Bachar assegurou aos habitantes desalojados que o Estado reconstruiria as suas casas «muito melhores do que antes», e que eles poderiam voltar a casa em breve. Milhares de pessoas, principalmente sunitas, tinham sido obrigadas a fugir para não cair sob a ditadura dos islamitas. Na sua ausência, as casas foram saqueadas e várias centenas dinamitadas pelos rebeldes, quando não foram destruídas pelos combates.

Bachar el-Assad, que continua a ser o chefe de Estado mais popular do mundo árabe, encontrou-se com habitantes de Homs, mas prescindiu do habitual banho de multidão devido à sempre possível presença de terroristas isolados.

A guerra de baixa intensidade acabou «de uma vez por todas», comentou Jihad Makdissi, porta-voz do Ministério sírio dos Negócios Estrangeiros. O país, cujas principais infra-estruturas de energia e de telecomunicações foram sabotadas, entra numa fase de reconstrução.

Durante esse tempo, a NATO e o CCG continuaram as suas manigâncias. Foi organizada uma reunião do Conselho Nacional sírio para adoptar um «Pacto Nacional» aceitável pela opinião pública ocidental. Tratava-se de dar uma aparência laica e democrática a um órgão dominado pelos Irmãos muçulmanos, os quais reclamam a instalação da Charia e de um regime islâmico. O programa redigido pelos Irmãos foi retocado por conselheiros em comunicação e enriquecido com algumas expressões politicamente correctas. O programa foi adoptado durante um estranho escrutínio durante o qual os Irmãos votaram contra e fizeram participar na votação desconhecidos que votaram a favor, de modo que o texto passou sem que eles tivessem de renegar as suas ideias. O Conselho tem portanto um texto programático que só compromete os que o lêem, e que a maioria dos membros permanentes espera rasgar o mais rapidamente possível.

Por seu lado, o secretário-geral da Liga Árabe e o seu homólogo da ONU nomearam um enviado especial conjunto, Kofi Annan, para negociar uma saída para a crise. Annan assumiu a responsabilidade de um plano de seis pontos, que é uma versão ligeiramente emendada da proposta russa à Liga. Obteve o acordo do presidente el-Assad sob reserva de que as suas disposições não sejam desvirtuadas do seu sentido e utilizadas para nova infiltração de armas e combatentes.

Foi neste contexto que a NATO e o CCG convocaram a segunda Conferência dos «Amigos» da Síria, para domingo, 1 de Abril, em Istambul. Participaram 83 estados e organizações intergovernamentais, sob presidência turca (2).

Tal como haviam feito no seu anterior encontro em Tunes, a 24 de Fevereiro, os participantes reafirmaram em primeiro lugar o seu apoio a «uma transição política conduzida pelos sírios para um Estado civil, democrático, pluralista, independente e livre; um Estado que respeite os direitos das pessoas quaisquer que sejam a sua etnia, religião ou sexo» (3); uma manobra de diversão vinda de estados que, entre outros, aspectos não são nem civis, nem democráticos, nem pluralistas, nem independentes, nem livres e que discriminam os seus nacionais em função da respectiva etnia, religião ou sexo como é o caso da Arábia Saudita e do Qatar.

Em seguida, os «Amigos» da Síria exprimiram o seu firme apoio ao plano de seis pontos de Kofi Annan, ao mesmo tempo que a presidência turca da Conferência propunha armar e financiar os rebeldes em violação do referido plano Annan.

Na mesma linha, a Conferência ouviu os relatórios do Conselho Nacional Sírio. Congratulou-se pela adopção formal do Pacto Nacional, e pela vontade dos membros do Conselho de trabalharem unidos, esquecendo que a última reunião do CNS acabou aos berros, com alguns a bater com a porta e com a demissão de 24 delegados curdos. Assim, a Conferência reconheceu o Conselho como «um» representante legítimo de todo o povo sírio, e como uma organização que congrega os grupos de oposição sírios.

Estas imerecidas felicitações não devem ser entendidas como traduzindo uma ignorância da situação ou uma cegueira, mas antes como um rebuçado diplomático para fazer esquecer delicadamente uma forte decepção. Com efeito, a Conferência recusou reconhecer o Conselho como «o» representante do povo sírio, ou seja como um Parlamento no exílio, que teria podido designar um Governo no exílio e reivindicar o assento sírio na ONU. Esta recusa mostra que os «Amigos» da Síria renunciaram a mudar o regime e que já não apostam no Conselho para governar. A sua função é doravante limitada à participação em campanhas mediáticas contra o seu país. Nesta perspectiva, o serviço de propaganda da Casa Branca tem necessidade de controlar a comunicação de toda a oposição síria. Por conseguinte, a Conferência exigiu passar a ter apenas um interlocutor, o Conselho, no qual todos os grupos de oposição foram instados a fundir-se.


O Centro sobre a responsabilidade síria

Encerrada esta questão da disciplina, a Conferência promoveu a criação de três novos órgãos. Em primeiro lugar, por iniciativa do departamento de Estado dos EUA, um Centro de informação foi encarregado de «recolher, juntar, analisar» todas as informações disponíveis sobre as violações dos Direitos do Homem cometidas pelas autoridades sírias tendo em vista o seu julgamento futuro por uma jurisdição internacional (4).

Em Damasco, as pessoas lembram-se que, há alguns anos, os Estados Unidos pensaram poder endossar ao presidente Bachar el-Assad a responsabilidade pelo assassinato do antigo primeiro-ministro libanês Rafik Hariri. Na época, empenharam-se em coligir falsos testemunhos e a instalar o Tribunal especial para o Líbano. Ouviu-se então os vassalos de Washington no Médio Oriente profetizar que o presidente sírio seria levado para Haia amarrado de pés e mãos. As pessoas lembram-se também que os falsos testemunhos arranjados contra Bachar el-Assad se desfizeram no meio de escândalos de corrupção e que Washington decidiu orientar o seu dispositivo pseudo-judicial noutras direcções.

De qualquer forma este Centro terá sobretudo a tarefa de coordenar o trabalho das ONG já subvencionadas directa ou indiretamente por Washington, tal como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch ou a Federação Internacional dos Direitos do Homem. Para este trabalho de secretariado, o departamento de Estado desbloqueou de imediato 1,25 milhões de dólares e pôs à disposição pessoal escolhido a dedo.


O Grupo de trabalho sobre as sanções


A Conferência dotou-se de um Grupo de trabalho sobre as sanções. Trata-se oficialmente de coordenar as medidas tomadas pelos Estados Unidos, a União Europeia, a Liga Árabe, etc., para as tornar mais eficazes. Os sírios tinham respondido às sanções sublinhando que elas os fariam sofrer, mas que matariam alguns dos seus vizinhos. É por isso que o documento final especifica igualmente que o Grupo deverá garantir que as sanções não prejudiquem países terceiros, o que pode incluir a abertura de rotas comerciais alternativas.

Com efeito, a Liga Árabe foi forçada a suspender a aplicação de sanções que tinha decretado porque ameaçavam directamente a economia dos seus próprios membros. A título de exemplo, refira-se que a Jordânia se viu brutalmente privada de mais de dois terços das suas importações e teve de se privar da água potável que a Síria lhe fornecia. Numa semana, a sua economia afundou-se.

O Grupo de trabalho sobre as sanções parece portanto encarregado de resolver a quadratura do círculo. A sua primeira reunião terá lugar em Paris na segunda quinzena de Abril, ou seja antes da eleição presidencial francesa e da previsível mudança de política que daí advirá.

O Grupo de trabalho sobre o relançamento económico e o desenvolvimento da Síria

O terceiro e último órgão criado pela Conferência: o Grupo de trabalho sobre o relançamento económico e o desenvolvimento. Inicialmente esteve previsto que o Conselho Nacional Sírio formaria o primeiro governo sírio após o derrube de Bachar el-Assad. Nesta perspectiva, o CNS devia beneficiar de uma ajuda financeira considerável que lhe permitiria cativar uma população esgotada pelas sanções.

A promessa deste maná atraiu ao seio do Conselho todos os «tubarões».

Na medida em que, por um lado, já não se coloca a mudança de regime e, por outro lado, se anuncia um reforço das sanções, por que ajudar então o presidente el-Assad a relançar a economia e a desenvolver o seu país? E por que motivo este grupo de trabalho é co-presidido pelos Emirados e pela Alemanha?

A nossa hipótese, até melhor informação, é que este grupo de trabalho está encarregado de tratar do pagamento das indemnizações de guerra pela França em troca da libertação dos seus oficiais detidos na Síria. Os nossos leitores e ouvintes sabem que 19 militares franceses foram presos na Síria e que três deles foram entregues ao Chefe de Estado Maior, o almirante Edouard Guillaud, aquando da sua deslocação ao Líbano. As negociações entre as duas partes em conflito prosseguem com a intermediação dos Emirados árabes unidos. A França admite que os prisioneiros são seus nacionais, ainda que todos tenham uma dupla nacionalidade, algerina ou marroquina, mas nega que se trate de militares em missão. A França sustenta que se trata de jihadistes, que foram combater por sua própria iniciativa e voluntariamente. A Síria sublinha que o material de comunicações da NATO que eles detinham prova que actuavam sob as suas ordens. Seja como for, a França poderia pagar uma indemnização pela sua libertação, mas o montante desta é difícil de estabelecer. A Síria reclama indemnizações de guerra por milhares de mortos e infra-estruturas destruídas. A França alega que, se houve uma guerra secreta, ela não a conduziu sozinha e que portanto não pode ser considerada como a única responsável. No caso da França abrir os cordões à bolsa, recusará reconhecer publicamente o motivo desse pagamento. Por esse motivo precisa de «anonimizar» tal pagamento com o apoio do seu parceiro alemão.


Qual é a estratégia da NATO e do CCG

O balanço desta Conferência deixa entrever a nova estratégia dos Estados Unidos, e por consequência a da NATO e a do CCG.

Washington renunciou a mudar o regime sírio porque não dispõe de meios militares. Numa primeira fase, para além de o reconhecer, o secretário da Defesa León Panetta sublinhou que uma intervenção militar não faria mais do que complicar a situação no terreno e precipitaria o país numa guerra civil em vez de a evitar. Depois, o Chefe de Estado Maior, general Martin Dempsey, e o comandante do CentCom, general James Mattis, admitiram que a Força Aérea dos EUA não poderia bombardear a Síria se recebesse uma tal ordem porque o país está equipado pela Rússia com o mais eficaz sistema anti-aéreo do mundo. Por outro lado, os generais norte-americanos admitiram que continuam a exercer uma vigilância aérea e espacial da Síria, não para fornecer informação ao Exército sírio livre, mas para se assegurarem de que o país não se dota de arsenais químicos e biológicos. Por outras palavras, Washington não só renunciou a derrubar o regime pela força, como está vigilante para que tal não suceda a fim de evitar um conflito com a Rússia, a China e o Irão.

Em contrapartida, Washington arroga-se o direito de instrumentalizar o caso sírio para embaraçar Moscovo e Pequim. A criação do Centro sob a responsabilidade síria resume-se à implementação de uma nova campanha de propaganda anti-Síria, já não para abrir caminho a uma intervenção da NATO, mas para acusar a Rússia e a China de serem ditaduras solidárias com outra ditadura. E as sanções já não visam desmoralizar a burguesia e a fazê-la voltar-se contra o regime, mas a obrigar a Rússia e a China a pagar pela Síria.

É nesta perspectiva que se deve interpretar a agitação de Alain Juppé. O ministro francês dos Negócios Estrangeiros sabe que as suas declarações anti-sírias são ocas, mas nada mais lhe resta do que fazê-las porque em breve deixará as suas funções, e o seu sucessor recusará assumir as consequências disso em nome da alternância política. A sua permanente incontinência verbal serve simultaneamente para alimentar o dossier que o Centro prepara sob a sua responsabilidade, e para satisfazer um lobby cujo apoio lhe será útil quando se encontrar na oposição.

A propósito, Damasco, que antecipa a derrota eleitoral de Nicolas Sarkozy, enviou um diplomata de alto nível a Paris. O diplomata encontrou um dos seus amigos, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros socialista, que lhe apresentou François Hollande. A Síria conhece perfeitamente os laços que ligam o candidato socialista a Israel e ao Qatar. Mas não duvida de que o próximo presidente francês se alinhará em primeiro lugar com a posição dos EUA e que porá cobro a todo o apoio à oposição armada.


(1) Os takfiristes são muçulmanos sectários que acreditam deter toda a verdade e pretendem eliminar os heréritos. Os seus principais chefes espirituais estão refugiados na Arábia Saudita, de onde apelam a «matar um terço dos sírios para que os outros dois terços vivam», ou seja assassinar todos os não sunitas.
(2) «Conclusões da Presidência da Segunda Conferência do Grupo de Amigos do Povo Sírio», Voltaire Network, 1 de Abril 2012.
(3) «Liderança política síria para a transição para um Estado civil, democrático, pluralista, independente e livre, que respeite os direitos das pessoas independentemente da sua etnia, crença ou género».
(4) «State Department on Syria Accountability Clearinghouse », Voltaire Network, 2 Abril 2012.


Tradução da responsabilidade da Redacção do Avante, que o publicou hoje.
Original em www.voltaire.org



As desculpas esfarrapadas não foram aceites...

terça-feira, 17 de abril de 2012

"A memória do saque", filme de Fernando E. Solana (na coluna da direita)

Agora que a Argentina decidiu nacionalizar a Repsol argentina e o governo espanhol faz duras ameaças contra essa decisão, importa rever este filme com calma e reflexão.


NOTA DE INTENCION:


La tragedia que nos tocó vivir con el derrumbe del gobierno liberal de De la Rúa, me impulsaron a volver a mis inicios en el cine, hace más de 40 años, cuando la búsqueda de una identidad política y cinematográfica y la resistencia ala dictadura, me llevaron a filmar "La Hora de los Hornos". Las circunstancias han cambiado y para mal: ¿Cómo fue posible que en el "granero del mundo" se padeciera hambre? El país había sido devastado por un nuevo tipo de agresión, silenciosa y sistemática, que dejaba más muertos que los del terrorismo de Estado y la guerra de Malvinas. En nombre de la globalización y el libre comercio, las recetas económicas de los organismos internacionales terminaron en el genocidio social y el vaciamiento financiero del país. La responsabilidad de los gobiernos de Menem y De la Rúa no exime al FMI, al Banco Mundial ni a sus países mandantes. Buscando beneficios extraordinarios nos impusieron planes neoracistas que suprimían derechos sociales adquiridos y condenaron a muerte por desnutrición, vejez prematura o enfermedades curables, a millones de personas. Eran crímenes de lesa humanidad en tiempos de paz.

Una vez más, la realidad me impuso recontextualizar las imágenes y componer un fresco vivo de lo que habíamos soportado durante las tres décadas que van de la dictadura de Videla a la rebelión popular del 19 y 20 de diciembre de 2001, que terminó con el gobierno de la Alianza. "Memoria del Saqueo" es mi manera de contribuir al debate que en Argentina y el mundo se está desarrollando con la certeza que frente a la globalización deshumanizada, "otro mundo es posible".

Fernando E. Solanas



CARTA A LOS ESPECTADORES:

Cientos de veces me he preguntado cómo es posible que en un país tan rico la pobreza y el hambre alcanzara tal magnitud? ¿Qué sucedió con las promesas de modernidad, trabajo y bienestar que pregonaran políticos, empresarios, economistas iluminados y sus comunicadores mediáticos, si jamás el país conoció estos aberrantes niveles de desocupación e indigencia? ¿Cómo puede entenderse la enajenación del patrimonio público para pagar la deuda, si el endeudamiento se multiplicó varias veces comprometiendo el futuro por varias generaciones? ¿Cómo fue posible en democracia tanta burla al mandato del voto , tanta degradación de las instituciones republicanas, tanta sumisión a los poderes externos, tanta impunidad, corrupción y pérdida de derechos sociales?

Responder a los interrogantes que dejó la catástrofe social o repasar los capítulos bochornosos de la historia reciente, sería imposible en los limitados márgenes de una película: hacen falta muchas más, junto a investigaciones, debates y estudios para dar cuenta de la magnitud de esa catástrofe.

Esta película nació para aportar a la memoria contra el olvido, reconstruir la historia de una de las etapas más graves de la Argentina para incitar a denunciar las causas que provocaron el vaciamiento económico y el genocidio social. "Memoria del saqueo" es también un cine libre y creativo realizado en los inciertos meses de 2002 , cuando no existían certezas sobre el futuro político del país. A treinta y cinco años de "La Hora de los Hornos", he querido retomar la historia desde las palabras y gestos de sus protagonistas y recuperar las imágenes en su contexto. Procesos e imágenes que con sus rasgos propios también han golpeado a otros países hermanos. Es una manera de contribuir a la tarea plural de una refundación democrática de la Argentina y al debate que en el mundo se desarrolla frente a la globalización deshumanizada con la certeza de que "otro mundo es posible".

Fernando Solanas / Marzo 2004

domingo, 15 de abril de 2012

Olhó amolador!


Durante algumas horas quem por aqui passou viu escrito "amulador", como se as mulas também se amolassem...As minhas desculpas, principalmente ao profissional que, por mão alheia, se viu enredado na confusão...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"A primeira pecha da humanidade foi
a crença e a sua primeira virtude foi a dúvida"

atribuída a
Carl Sagan
(astrónomo, cosmologista, etc., 1934-1996)

sábado, 7 de abril de 2012

A renegociação silenciosa da dívida irlandesa

O Le Monde de dia 3 refere que"Os irlandeses estão a começar a cansar-se do rigor que se tornou o seu dia-a-dia nos últimos anos. Em jeito de rebelião, metade dos contribuintes da pequena república decidiu não pagar o imposto de habitação cujos proprietários deveriam receber em 31 de março. Este é um sinal para o governo de Dublin a dois meses do referendo sobre o novo tratado orçamental europeu. Esta é uma das primeiras fissuras na aplicação de um programa de recuperação que até então não tinha causado grandes movimentos sociais, ao contrário do que poderia ter acontecido noutras nações periféricas da zona euro em crise ".


Parece afinal que a política de austeridade da Irlanda não é tão eficaz quanto isso...
Os últimos números conhecidos são preocupantes.
A Irlanda está novamente em recessão (queda de 0,2% do PIB no quarto trimestre de 2011), a taxa de desemprego atingiu os 15% e a dívida chega aos 108% do PIB. Não, não é um sonho. E é isto que explica a crescente tensão dos irlandeses contra o seu governo.

Mas para além de tudo isto, na completa indiferença dos mercados e dos media, a Irlanda... reestruturou a sua dívida. Muito discretamente. O que aconteceu? O país teve que pagar 3,1 mil milhões de euros. E conseguiu vir a reembolsá-los apenas... em 2025. Sim, daqui a 13 anos!!! . Foi exactamente o que a Grécia fez no mês passado e nenhum de nós esqueceu os debates, crises e cambalhotas na situação grega a que isso conduziu.

Certamente que 3,06 mil milhões, nestes tempos de crise da dívida soberana, são como um pequeno café ... mas o risco de propagação como mancha de óleo existe. Na verdade, são 31.000 milhões que o governo irlandês está a tentar reestruturar.

A União Europeia está a braços com as crises gregas, espanhola e portuguesa e não tem vontade de ver uma bomba extra para explodir em vôo sobre a aparente acalmia actual - uma pausa paga a um preço tão caro.
A UE tem em vista o referendo de 31 de maio. Os irlandeses vão pronunciar-se sobre o pacto orçamental da UE (aquele que pretende controlar os défices públicos na Europa e estabelece penalidades para os maus alunos da rigidez orçamental). Mas os precedentes não são muito tranquilizadores. Quando se trata de Europa, a Ilha Verde tem a tendência de votar contra...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

Foto de Sebastião Salgado
"Eli, Eli, lemá sabactháni?"

"Pai, pai, porque me abandonaste?"

Jesus Cristo (segundo Mateus 27,46)

Agressão imperialista à Síria: a política de terror

Depois de terem sido obrigados a bater em retirada pelo exército sírio, os grupos armados responsáveis pela violência no país apostam nos atentados terroristas. Paralelamente, emergem novos elementos sobre a ingerência imperialista na Síria e a campanha de intoxicação pública realizada por meios de comunicação árabes e dos EUA com o objectivo de subverter os acontecimentos dos últimos meses no país.
O Avante! dá desenvolvimento a esta questão.

As cenas de velhacaria de Passos e Gaspar

O episódio destes dias em que Gaspar dá o dito por não dito, por "lapso", sobre até quando vigorariam os cortes dos 13º e 14º mês da função pública e da generalidade dos reformados, revela várias coisas:
  • Que membros do governo andaram a mentir aos portugueses quando disseram que seria no final de 2013;
  • Que ainda agora não sabem como será em 2015;
  • Que tudo está ainda mais imprevisível se prosseguir esta política assente no plano de agressão do governo e da troika no que respeita à debilidade das receitas derivadas de crescente redução do mercado interno, de um maior desemprego, mais encerramentos de empresas decorrentes nomeadamente da falta de liquidez, que a banca tem inviabilizado à generalidade das pme e micro-empresas, queda das exportações aprofundamento da recessão;
Prosseguir o caminho é garantir o abismo. E o abismo, quando todos se perceberem dele, despertará a determinação por outros caminhos.
           

Há 25 anos, Mário Soares abria a Cavaco Silva o caminho da maioria absoluta

Ouvi hoje na Antena Um, a propósito da passagem dos 25 anos sobre a dissolução da AR em 1987, onde a direita estava em minoria, embora com governo minoritário de Cavaco. Hermínio Martinho (PRD) e Almeida Santos (PS) falarem sobre a decisão de Mário Soares.
Não ficou claro, porém, que após a dissolução, o então Presidente tinha a garantia de apoio parlamentar maioritário a um governo chefiado pelo então secretário-geral do PS, Vitor Constâncio, sem exigências de outros partidos em entrarem no governo.
Resumindo: Soares preferiu que passasse a absoluta a maioria relativa do PSD em vez de um outro governo minoritário, da iniciativa do PS, com apoio de uma outra maioria parlamentar, que passaria a minoria quando Soares achou "mais seguro" viabilizar a maioria de direita.

Se retomo este tema é para dar um pequeno contributo para que a História resista a mais um revisionismo e não por achar interessante, por completamente desadequado, a rediscussão dessa questão.

Serra Pelada - foto de Sebastião Salgado

O Jorge recordou-nos uma frase de um dos grandes fotógrafos contemporâneos

“Você não fotografa com sua máquina. Você fotografa com toda sua cultura”


(Sebastião Salgado)


sexta-feira, 30 de março de 2012

A frase de fim-de-semana, por Jorge

"O mínimo que nos é exigível
é o máximo que somos capazes de fazer"

Manuel António Pina
(poeta / prémio Camões 2011
e cronista do JN, nasc. 1943)

Numa manhã de 1973, com o regime abalando...

A CDE organiza a romagem do 5 de Outubro no Alto S. João. A polícia presente diz "E agora pode falar um sr. candidato...". Estou a responder, em nome dos outros que lá estavam "Os candidatos da CDE não falam às ordens da Polícia". à saída o Pedro Coelho ainda subiu para cima de um pilarete e disse umas palavras. À saída, seria uma vez mais a carga policial e a detenção de uns vinte de nós na esquadra de Santa Apolónia.
Na foto, tapado por mim está o Urbano Tavares Rodrigues, e ainda Teresa Dias Coelho, Herberto Goulart, Arons de Carvalho, o Xico de Sacavém e o querido camarada já falecido, Euclides Pereira.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Uma bela noite na Gulbenkian

Anteontem, a propósito de um concerto, reuniam-se vários pontos de interesse na Gulbenkiam.
Uma das melhores orquestras sinfónicas do mundo (de Göteborgs, da Suécia).
Um dos mais carismáticos e jovens maestros em carreira internacional (o venezuelano Gustavo Dudamel).
Dois grandes nomes da música com algumas das suas grandes peças (Richard Strauss e Joseph Haydn).
Uma das peças interpretadas foi "Assim falou Zaratustra" que ultrapassou no conhecimento público as dimensões normais da cultura musical por ter sido o tema do filme "Odisseia no espaço" de Stanley Kubrick.
O grande auditório estava cheio. Várias chamadas consecutivas ao palco e um belo encore traduziram o entusiasmo do público para com as interpretações.

Transformar o Código do Trabalho numa camisa de forças dos patrões

Com esta nova alteração ao Código de Trabalho, em debate na AR, os patrões passarão a despedir mais facilmente, a gerir arbitrariamente os horários de trabalho, a reduzir salários e indemnizações por despedimento e subsídios de desemprego, a aumentar o tempo de trabalho, a exploração e a insegurança dos trabalhadores, generalizar a precariedade.


O Ministro da Economia chegou ao cúmulo do cinismo de afirmar que eram medidas favoráveis aos trabalhadores...porque provocaria um. aumento da competitividade. Como Octávio Teixeira sublinhou hoje na Antena Um, as duas anteriores alterações ao Código, justificadas com tal "objectivo", não o atingiram e, pelo contrário aumentaram o emprego e o emprego desprotegido.
Se virmos quem é atingido pelas medidas até agora decididas enquadradas pelo plano da troika e mais estas agora previstas fica claro que todas prosseguem objectivos estratégicos que nada têm a vêr com a saída da crise e o crescimento da economia mas tão só com o que ideologia neo-liberal pretende: a diminuição drástica dos custos de trabalho, o empobrecimento dos portugueses e o cerceamento de direitos sociais básicos.

São os grupos económicos e a banca a falar mais grosso.
Mas não ficarão a falar sózinhos.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Como elas se preparam...

Andam por aí umas almas caridosas a queixar-se da CGTP-IN por não admitir que certos "movimentos" se incorporem nas suas manifestações, pelo conhecimento que há de que deixam alojar no seu seio grupos provocadores.
E cujo papel é "justificar" medidas policiais despropositadas contra manifestantes que provoquem uma redução de apoio social interno às suas lutas e dar a "repórteres" estrangeiros ou nacionais as imagens que em todo o mundo serão a única forma que as respectivas opiniões públicas têm de interpretar a dimensão e justeza das lutas noutros países.
Vejamos como agiram no passado dia 22, dia da greve geral
Chegam escoltados pela polícia
Combinam as coisas com a polícia


Arrancam para a Rua Garret

Rebenta um pequeno petardo, a polícia fecha a rua para garantir
que os presentes se desloquem para o cenário mediático previamente definido: a Brasileira

As imagens de video e fotos arrancam e captam sucessivamente os "manifestantes"  a destruir loiça e a esplanada e a polícia a fazer algo de semelhante.
Recomendo o cotejo destas fotos com as imagens até aqui publicadas para descobrir não inocentes coincidências...







sexta-feira, 23 de março de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

Adicionar legenda
"Não há nada mais cómico que a infelicidade"

Samuel Beckett em Endgame (1957)






quarta-feira, 21 de março de 2012

Todos os dias novas razões para uma grande greve geral

Dar continuidade às desvalorizações internas (quebras de salários e pensões) impostas aos países com dificuldades é um erro que contraria a competitividade e gera a recessão profunda, falências, desemprego e mais pobreza.
Octávio Teixeira defende hoje na sua crónica semanal no Jornal de Negócios que se traduzisse uma "caixa" de uma peça sobre estas experiências que integra, contraditòriamente, o relatório da missão do FMI que recomendou o novo pacote de resgate à Grécia que os gregos tão vivamente têm contestado.

Também ontem fonte oficial   nos permitiu ficar a saber que em Portugal, o deficite do Estado (por  aí fiquemos) durante Fevereiro, triplicarta em relação a período homólogo do ano passado.
No que respeita às quebras nas receitas isso decorre essencialmente de menores impostos cobrados à actividade produtiva que se reduziu significativamente. E poderá servir de pretextyo a mais uma opção criminosa como a que se prepara com a privatização dos Esteiros Navais de Viana do Castelo.
No que respeita ao aumento das despesas, dizer como Marcelo Rebelo de Sousa ou Miguel Frasquilho que ela se não repetirá noutros períodos ignora que vão existir, sim, infelizmente, novas elevadas despesas como as que decorrem de uma importante subida das taxas de juros e vendas de obrigações.
Por seu lado, Seguro declarou-se admirado com a subida da despesa do Estado, atribuindo isso a um genérico" descontrolo em vez de sublinhar causas como o aumento das despesas sociais (só o subsídio de desemprego subiu 18% no período referido...). Estará Seguro a preparar nova campanha contra as "gorduras" do Estado que gerariam novas ameaças a emprego e direitos sociais básicos como a Saúde e a Educação?

Para os que consideram "inevitáveis" os sucessivos pacotes de austeridade, importa não deixar de salientar que tais pacotes estão a gerar os efeitos contrários aos que "justificaram" o seu lançamento
Faz todo o sentido, pois, a greve geral de amanhã.

sábado, 17 de março de 2012

Seara Nova -90 anos de intervenção cívica e cultural

A exposição itinerante comemorativa do 90ª Aniversário da Seara Nova estará no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno,  até finais do mês de Abril.

A inaugurar no sábado, dia 24 de Março, às 17 horas, durante um convívio da Comissão de Honra das Comemorações com o Conselho Redatorial da Seara Nova e com outos colaboradores, a Exposição tem por tema 90 Anos de Intervenção Cívica e Cultural e estará patente ao público de 3ª feira a 6ª feira entre as 10 e as 19 horas; à 2ª feira e ao sábado entre as 11 e as 19 horas.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Entre o forte e o fraco, e entre o rico e o pobre,
e entre o senhor e o escravo,
a liberdade é que oprime e o que liberta é a lei"

Jean-Baptiste Lacordaire
Padre dominicano e activista político francês,
1802-1861

quarta-feira, 14 de março de 2012

Director do Golden Sachs demite-se devido à "bancarrota moral" do banco

Segundo o jornal Económico, um director da área de instrumentos derivados do Goldman Sachs demitiu-se hoje por considerar que os colaboradores do gigante norte-americano entraram em "bancarrota moral". Num artigo de opinião, publicado no "The New York Times", Greg Smith explicou porque abandonou o banco, após 12 anos na entidade.

Greg Smith explicou a sua posição referindo que os responsáveis do banco deixaram de se preocupar com os interesse dos clientes, mas sim com o dinheiro que lhes poderiam tirar. Referiu mesmo que houve cinco directores do banco que chamaram aos seus clientes "fantoches".
Num comunicado citado pelo "Financial Times", o Goldman Sachs reagiu, referindo que "discordamos com as perspectivas expressas, que nós pensamos que não reflectem a forma como gerimos o nosso negócio".
O director demissionário do banco referiu que "espera que [o artigo de opinião] sirva para acordar o conselho de administradores", avisando que "as pessoas que se preocupam apenas em fazer dinheiro não irão sustentar a firma - ou a confiança dos clientes - por muito mais tempo".
O artigo deste ex-director do GS no York Times sobre a sua decisão  pode ser lida, em inglês, na íntegra aqui.

terça-feira, 13 de março de 2012

As andorinhas de volta, por Jorge

Todos os anos:

a mesma excitação,

a mesma chilreada,

o mesmo repouso...

a mesma novidade.

Benvindas!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Frase de fim-de-semana, por Jorge


Fountain - R. Mutt, aliás M. Duchamp (1917)
[fotografia de Alfred Stieglietz].jpg

"Forcei a contradizer-me para evitar
conformar-me com o meu próprio gosto"

Marcel Duchamp (artista francês ligado
ao dadaísmo e ao surrealismo, 1887-1968)







quinta-feira, 8 de março de 2012

"O libertino", no Teatro da Trindade

Fomos ontem ver esta peça de Éric-Emmanuel Schmitt, encenada e traduzida por José Fonseca e Costa.
O personagem central é Diderot (José Raposo).
Nesse dia sucedem-se-lhe desempenhos de inveterado mulherengo, onde Madame Therbouche (Maria João Raposo) o desenha, reclamando-lhe que o deixe pintar "tal como a natureza o fez vir ao mundo", a sua própria mulher e uma outra jovem o disputam, conferindo à peça um carácter sensual marcante.
Isto decorre enquanto ao longo da acção Diderot procura escrever um texto sobre sobre a Moral para a Enciclopédia a que se tem entregue.
A libertinagem e a escrita vão-se influenciando com um desfecho inesperado.
Uma comédia interessante atravessada por uma discussão filosófica...

domingo, 4 de março de 2012

Vera Mantero no S. Luiz, comentada por Jorge

não só dança... também canta!

e bem,
com nervo, ironia e finura

(tudo: Berlin, Weil, Trenet, Jobim, Porter, Caetano...)

não percam se a virem por aí
(na próxima, o aviso tem que ser antes, reconheço...)

sábado, 3 de março de 2012

Um tempo sem nome ou o novo conceito de envelhecer, de Rosiska D. de Oliveira (Globo, 12/01/2012)

Transcrevo o que Margarida Pino escrveu no Facebook.

O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu para nós este primor de blues ESSA PEQUENA ( ao lado), Mas rendeu também a interessante crônica UM TEMPO SEM NOME da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer".


Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição.Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Aquilo que pode ser afirmado sem provas
pode ser rejeitado sem provas"

Christopher Hitchens
(autor anglo-americano, 1949-2011)

"O medo de Carlos Drummond de Andrade

O Medo é o que caridosamente nos resguarda e impede de naufragarmos em nós próprios. Ajuda-nos na ilusão. Ajuda-nos na segurança ilusória.


O Medo que evita naufragarmos num mar mais amplo e tanto mais perigoso quanto é a nossa incapacidade de/para nadar...

 

Vejamos como fala dele Carlos Drummond de Andrade.


  O Medo

Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

Vadeamos.

Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.

Há as árvores, as fábricas,

Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,

Este célebre sentimento,

E o amor faltou...

O medo, com sua capa,

Nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,

Meu companheiro moreno.

De nos, de vós, e de tudo.

Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses.

Nosso caminho: traçado.

Por que morrer em conjunto?

E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,

Vem ó terror das estradas,

Susto na noite, receio

De águas poluídas. Muletas

Do homem só.

Ajudai-nos, lentos poderes do

Láudano.

Até a canção medrosa se parte,

Se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

AS LEITURAS DA CRISE, segunda Conferência Seara Nova em 3 de Março

Integrada nas comemorações do 90º Aniversário da Seara Nova, realiza-se no dia 3 de Março, com início às 15 horas, na Sala Veneza do Hotel Roma (A. de Roma, nº33, em Lisboa) uma Conferência/Debate, sob o título Leituras da Crise, que terá como oradores convidados os Professores Doutor António J. Avelãs Nunes, da Universidade de Coimbra e Doutor João Ferreira do Amaral, da Universidade Técnica de Lisboa.
Seguramente não deixarão de ser abordadas questões como a crise geral da sociedade capitalista e a sua expressão no âmbito da União Europeia, a financeirização e as orientações neoliberais, a crise do euro e o erro da adesão de Portugal à moeda única, o ultimato da troika e a grave degradação da vida portuguesa, as medidas de austeridade e a insensibilidade social do governo.

Às intervenções dos Professores Ferreira do Amaral e Avelãs Nunes, seguir-se-á um período de debate, no qual todos os participantes poderão dar as suas opiniões ou solicitar esclarecimentos sobre as complexas e graves questões com que os portugueses estão confrontados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

"Se os povos da Europa não se levantarem, os bancos trarão o fascismo de volta.", segundo Mikis Theodorakis

No momento em que a Grécia é colocada sob a tutela da Troika, em que o Estado reprime as manifestações para tranquilizar os mercados e em que a Europa prossegue nos resgates financeiros, o compositor Mikis Theodorakis apela aos gregos para combaterem e alerta os povos da Europa para que, ao ritmo a que as coisas vão, os bancos voltarão a implantar o fascismo no continente.

Entrevistado durante um programa político popular na Grécia, Theodorakis advertiu que, se a Grécia se submeter às exigências dos chamados ".parceiros europeus" será ".o nosso fim quer como povo quer como nação". Acusou o governo de ser apenas uma "formiga" diante desses "parceiros", enquanto o povo o considera "brutal e ofensivo". Se esta política continuar, "não poderemos sobreviver … a única solução é levantarmo-nos e combatermos".

Resistente desde a primeira hora contra a ocupação nazi e fascista, combatente republicano desde a guerra civil e torturado durante o regime dos coronéis, Theodorakis também enviou uma carta aberta aos povos da Europa , publicada em numerosos jornais… gregos. Excertos:

"O nosso combate não é apenas o da Grécia, mas aspira a uma Europa livre, independente e democrática. Não acreditem nos vossos governos quando eles alegam que o vosso dinheiro serve para ajudar a Grécia. (…) Os programas de "salvamento da Grécia" apenas ajudam os bancos estrangeiros, precisamente aqueles que, por intermédio dos políticos e dos governos a seu soldo, impuseram o modelo político que conduziu à actual crise.

Não há outra solução senão substituir o actual modelo económico europeu, concebido para gerar dívidas, e voltar a uma política de estímulo da procura e do desenvolvimento, a um proteccionismo dotado de um controlo drástico das Finanças. Se os Estados não se impuserem aos mercados, estes acabarão por engoli-los, juntamente com a democracia e todas as conquistas da civilização europeia. A democracia nasceu em Atenas, quando Sólon anulou as dívidas dos pobres para com os ricos. Não podemos autorizar hoje os bancos a destruir a democracia europeia, a extorquir as somas gigantescas que eles próprios geraram sob a forma de dívidas.

Não vos pedimos para apoiar a nossa luta por solidariedade, nem porque o nosso território foi o berço
de Platão e de Aristóteles, de Péricles e de Protágoras, dos conceitos de democracia, de liberdade e da Europa. (…). Pedimos-vos que o façam no vosso próprio interesse. Se autorizarem hoje o sacrifício das sociedades grega, irlandesa, portuguesa e espanhola no altar da dívida e dos bancos, em breve chegará a vossa vez. Não podeis prosperar no meio das ruínas das sociedades europeias. Quanto a nós, acordámos tarde mas acordámos. Construamos juntos uma Europa nova, uma Europa democrática, próspera, pacífica, digna da sua história, das suas lutas e do seu espírito. Resistamos ao totalitarismo dos mercados que ameaça desmantelar a Europa transformando-a em Terceiro Mundo, que vira os povos europeus uns contra os outros, que destrói o nosso continente, provocando o regresso do fascismo".

Frase de fim-de-semana por Jorge

"Que a tua vida seja um travão para parar a engrenagem"


título do video da ClassWarFilms sobre a história dos EUA (2012)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

José Afonso para sempre

José Afonso foi dos portugueses que se libertou da lei da morte e pode dizer-se que ele é um elemento da nossa identidade.
Mal amado por alguns, perseguido pelo fascismo, foi desde cedo um homem do seu povo.
O significado da sua música e da influência que teve na música e na sociedade portuguesas são fundamentais para compreender gerações, com formações diferentes mas com elementos comuns, identitários ao nível do carácter, da música de raiz popular, de inconformismo e do valor da liberdade.

Conheci o José Afonso em convívios do movimento estudantil em 69, 70 e 71, na margem sul em fogos de campo do movimento campista em 1972, no 3º Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro em 1973, em cuja manifestação participou, no convívio do final de 1973 organizado pela CDE no Clube Atlético de Alvalade e depois do 25 de Abril na organização de múltiplos concertos integrados em campanhas políticas. Quando morreu, participava com cerca de vinte outros camaradas num curso de formação da escola do Partido. Interrompemos as aulas e assistimos todos, depois, na TV ao impressionante funeral realizado em Setúbal.