sexta-feira, 13 de março de 2009

"É assim que te quero, amor", de Pablo Neruda

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri, ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu, pão e luz e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura.

Passaram 90 anos sobre o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht


Polaca, nascida em 5 de Março de 1871, Rosa Luxemburgo envolveu-se desde muito jovem em actividades estudantis, lutando contra o sistema repressivo então vigente nos colégios da Polónia. Militante activa do movimento socialista, teve que deixar o seu país em 1889 para não ser presa. Em Zurique fez seus estudos de Economia, concluindo essa fase de aprendizagem com uma tese de doutoramento sobre "O Desenvolvimento Industrial na Polónia".
A partir de 1894, juntamente com Leo Jogiches, Rosa Luxemburgo teve período de luta contra a visão nacionalista do Partido Socialista Polaco, assumindo a liderança na criação da Social-democracia do Reino Unido da Polónia.
Mas é a partir de 1898, com sua transferência para a Alemanha, que Rosa Luxemburgo se torna personagem destacada entre os socialistas europeus. Nesse período participa numa das principais polémicas do movimento operário internacional, na medida que se contrapõe aos artigos de Eduard Bernstein, produzindo um competente e actual material contra o revisionismo e o reformismo, transcrito na obra "Reforma ou Revolução". Durante o período da polémica, Rosa afirma que o movimento dos trabalhadores deveria lutar por reformas, mas que isso não bastaria para abolir as relações capitalistas de produção – o movimento operário jamais poderia perder de vista a conquista do poder pela revolução.
Outro momento importante na vida da militante Rosa Luxemburgo deu-se durante os primeiros anos no início do século, quando da discussão sobre a organização dos socialistas. Naquela oportunidade polemiza com Lenine sobre a organização do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores Russos. Há historiadores que afirmam que é a partir da revolução de 1905 na Rússia que Rosa Luxemburgo desenvolve sua teoria revolucionária. O certo é que sua publicação de 1906, “Greve de Massas, Partido e Sindicato", ainda hoje é uma das principais peças teóricas sobre partido e movimento de massas – "A revolução russa ensina-nos assim uma coisa: é que a greve de massas nem é “fabricada” artificialmente nem “decidida” ou “difundida” no éter imaterial e abstracto, é tão-somente um fenómeno histórico, resultante, num certo momento, de uma situação social a partir de uma necessidade histórica". A sua preocupação residia em desenvolver uma ideia estratégica, sem se afastar do compromisso com a revolução socialista, contra a inércia burocrática do Partido Social-Democrata, procurando vincular a greve às exigências transformadoras da sociedade, num desafio global contra a ordem capitalista. "A “revolução” e a “greve de massas” são conceitos que não representam mais do que a forma exterior da luta de classes e só têm sentido e conteúdo quando referidas a situações políticas bem determinadas".
É durante esse período (1903 a 1906) que Rosa desenvolve a sua teoria sobre democracia operária, movimento de massa, sempre preocupada em dar respostas concretas às necessidades da luta de classes e fundamentalmente da organização revolucionária do operariado. Também é nesse período que os seus adversários recolhem informações para caracterizá-la como expontaneísta quando Rosa, ao longo de toda a vida, foi uma pessoa organizada. Mas isso não a impediu de afirmar que: "a massa não é apenas objecto da acção revolucionária; é sobretudo sujeito".
Durante sua militância, Rosa Luxemburgo dedicou também tempo ao estudo académico, em particular ao desenvolvimento do capitalismo. Segundo alguns pensadores socialistas é nesse período que produz sua mais importante contribuição teórica, em particular à teoria económica, "A Acumulação do Capital", datada de 1912, onde desenvolve as suas ideias sobre as origens e crescimento do capital, relacionando-as com o desenvolvimento histórico do sistema capitalista. É nessa obra que Rosa, não só disseca o fenómeno da reprodução do capital, mas também desenvolve a sua compreensão e posição sobre a fase imperialista do capital. Em tese desenvolve um amplo combate as posições revisionistas e adaptadas de teóricos ditos de esquerda, mas que empurravam a classe operária para os braços da burguesia.
Durante a primeira guerra mundial, Rosa Luxemburgo liderou as posições contrárias ao envolvimento da classe trabalhadora nesse conflito, esclarecendo seu carácter imperialista e portanto, negando qualquer participação operária nessa guerra do capital. Quando em 4 de Agosto de 1914 a bancada do Partido Social-Democrata (o seu partido) votou a favor dos créditos de guerra e Rosa Luxemburgo disparou uma série de ataques à direcção do partido que culminou com a publicação do texto "A Crise da Social-Democracia", também conhecido como "O Folheto Junius", publicado em 1915, no qual faz a seguinte afirmação sobre a guerra: "A demência não terá fim, o sangrento pesadelo do inferno não vai parar até que os operários da Alemanha, da França, da Rússia e da Inglaterra despertem de sua embriaguez, apertem fraternalmente as mãos e afoguem o coro brutal dos agitadores belicistas e o grito das hienas capitalistas no poderoso grito do trabalho – “Proletários de todo o mundo, uni-vos!"
No período em que esteve presa, Rosa Luxemburgo escreveu, entre outros textos, o importante documento sobre a Revolução Russa de 1917. Além de esclarecer, de uma vez por todas, as convergências e divergências com as posições de Lenine, "A Revolução Russa", redigida no verão de 1918, é uma das principais obras sobre o socialismo no mundo. Enaltece a iniciativa revolucionária dos bolcheviques e destaca a importância da Revolução Russa no cenário internacional, mantendo, porém, a sua concepção crítica sobre a violência revolucionária e a defesa da democracia proletária.
Mesmo presa, Rosa Luxemburgo não deixou da fazer política, com o seu núcleo de esquerda, no qual participavam, entre outros, Karl Liebknecht. Que continuou dentro do Partido Social-democrata, até ser expulso. Actuava com programa próprio (redigido por Rosa, em Janeiro de 1916) conhecido como "Princípios Directores" ou "Directivas". Esse núcleo foi historicamente conhecido como a "Liga Spartacus". Em 1917 o Partido Social-democrata expulsou não só os espartaquistas como também um grande grupo de oposição. Esse grupo, do qual participa a Liga Spartacus, dá origem ao "Partido Social-Democrata Independente". Registe-se que a Liga se manteve organizada no novo PSDI, conservando a sua organização e a sua política. Os espartaquistas permaneceram no PSDI até que este decidiu participar do governo. Em 29 de Dezembro de 1918 a Liga decide fundar o Partido Comunista Alemão. A Alemanha vivia um autêntico período revolucionário (particularmente em Novembro e Dezembro de 1918 e Janeiro de 1919), com amplas greves, motins na marinha de guerra, soldados confraternizando com o Exército Russo, com insurreições operárias. As autoridades mostravam-se impotentes para enfrentar as rebeliões; os conselhos de operários e soldados cresciam e fortaleciam-se. Pelo contrário, o Partido Social-Democrata defendia desesperadamente a convocação da Assembleia Constituinte, numa clara posição a favor da ordem capitalista.
Por força do movimento social, que a cada momento "ganhava" as ruas, Rosa Luxemburgo é posta em liberdade em Novembro de 1918 e vai reforçar a luta pela revolução socialista. Ao lado de Karl Liebknecht, aposta cada vez mais no movimento de massas, na greve de massas, dirigindo todas acções do então criado Partido Comunista Alemão. Colocou-se claramente em defesa dos conselhos operários e soldados, fortalecendo-os e dotando-os de destacado papel político na construção do poder revolucionário dos trabalhadores. Enquanto socialista, Rosa Luxemburgo sabia mais do que ninguém que o futuro nos reservaria o "socialismo ou a barbárie".
Em 15 de Janeiro de 1919 Rosa Luxemburgo foi brutalmente retirada, juntamente com o companheiro Karl Liebknecht, do "aparelho" em que se mantinha clandestina e assassinada, cobardemente por paramilitares ao serviço do governo social-democrata alemão. Um tiro levou sua vida, sumiram com seu corpo, mas nunca conseguiram ofuscar a grandeza de suas ideias.
(Texto apoiado no Bandeira vermelha)

Epitáfio de Rosa Luxemburgo

Aqui jaz
Rosa Luxemburgo,
judia da Polónia,
vanguarda dos operários alemães,
morta por ordem dos opressores.
Oprimidos,
enterrai as vossas desavenças!
Bertolt Brecht

quinta-feira, 12 de março de 2009

Cartoon de Monginho

in Avante!

"O mar e tu", por Dulce Pontes e Andrea Bocelli

NATO, Rússia e Geórgia

A NATO e a Rússia iniciaram há uma semana em Bruxelas uma reunião para discutir as relações entre ambas.
O assunto tornou-se ainda mais importante que o actual estado da situação no Afeganistão.
A actividade do Conselho NATO – Rússia foi suspensa após a agressão da Geórgia e a subsequente guerra na Ossétia do Sul.
Apesar da eleição de Obama, o conflito entre a Geórgia e a Rússia persiste.Tbilissi pode tornar-se membro da OTAN a curto prazo. Talvez possamos entender que a reunião tenha tido lugar em 5 de Março. De facto essa era a data em que terminava o ultimato da oposição ao ainda presidente Saakashvili, que exigia serem realizadas eleições presidenciais antecipadas na Geórgia. O que confirmou, uma vez mais, o apoio da NATO a Saakashvili? A Rússia não esconde as suas preocupações da Geórgia "convergência da Geórgia com a aliança, mesmo depois de o Plano de Acção ter sido negado à Geórgia. Os EUA, no último dia de funções de Bush, acabaram por assinar a carta de cooperação estratégica e na altura o presidente cessante disse que a Geórgia poderia tornar-se membro da NATO mesmo sem o Plano de Acção.
Entretanto ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros georgiano Grigol Vashadz disse que a Geórgia está disposta a considerar a possibilidade de implantar uma base militar americana no seu território, se Washington fizer uma proposta nesse sentido.
Depois de as autoridades do Quirguistão decidiu encerrar a base aérea de Manas, Washington procura uma outra base naquela zona. O chefe do estado do Quirguistão afirmou ele não ter dúvidas de que o último soldado americano deixaria a base em Agosto próximo. Explicando as razões que levaram à decisão de fechar a base, Bakiyev invocou o baixo nível de compensações por parte dos EUA pela utilização das instalações e suas infra-estrutura, bem como as reacções negativas do povo do Quirguistão sociedade à presença de tropas americanas no país.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Contributos para resolver a crise

Vox populi



O Costa quer prender o Rui Pereira ou o eleitoralismo já prendeu o Costa?









terça-feira, 10 de março de 2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

Aprofunda-se a crise na Irlanda. Greve geral dia 30 deste mês.

Na Irlanda os trabalhadores não aceitam a tese de “vamos resolver a crise todos juntos” para que o grande patronato e o Fianna Fail os procuram atrair.
No passado dia 22 de Fevereiro estiveram na rua 120 mil. Agora preparam uma greve geral para o próximo dia 30 de Março.
Os dirigentes políticos da área do poder e os dirigentes das empresas têm estado em conversações secretas para conter a resistência popular e recomendar aos actores políticos e sociais para não avivarem os seus conflitos que poderiam fazer afugentar o investimento estrangeiro.
Na semana passada mais de 10 mil milhões de euros saíram da economia irlandesa quando os financiadores internacionais retiraram o seu dinheiro numa tentativa de proteger os seus activos.
No período anterior do “tigre celta”, do "milagre irlandês", os políticos e os patrões não falaram do “todos juntos”. Os irlandeses ricos acumularam anualmente milhares de milhões de lucros mas pregaram as virtudes das contenções salariais para os trabalhadores.
Agora que o baile acabou, os ricos mergulharam na confusão que eles próprios criaram. Mas agora em vez de pagarem o preço das suas aventuras, é o Estado a entrar com milhares de milhões de euros para salvarem os bancos e protegerem os seus lucros e a querer que, uma vez mais, sejam os trabalhadores a pagarem a crise de que outros foram responsáveis.

domingo, 8 de março de 2009

Para Todos, por Chico Buarque (1993)






O vernáculo, na crónica do Rodrigo


Hoje não estou com bom feitio, é que um deputado mandou outro para as tais partes e eu dispus-me a escrever sobre isso mas o meu boss lá veio com a lenga-lenga que eu não podia andar atrás de fédiveres, mas eu invoquei o meu código deontológico e as prerrogativas editoriais que me foram conferidas por contrato e não lhe liguei tanto mais que o assunto é sério pois deve esconder qualquer coisa para se tratarem de tal jeito é certo que na Assembleia se diz muitas asneiras quando estão lá ministros e eu acho que o deputado, resultando mais do voto directo que eles, tem o mesmo direito que os ministros de exercitar o vernáculo e não o deixar só para o futebol pois que importa que o pessoal marche para o desemprego e a economia para o galheiro para ficarmos todos sorumbáticos mais vale que os deputados nos ponham a rir porque isso da educação é muito relativa se o governo se atira aos professores e à língua-pátria no Magalhães, ora toma!

O narcotráfico, a América Latina e a África Ocidental (3)

Guiné-Bissau: um narco-estado?

Em Maio do ano passado, um alto funcionário do organismo da ONU de combate às drogas e criminalidade (UNODC), Ahmedou Ould-Abdallah, fez um apelo à comunidade internacional para deter a progressão dos cartéis da droga que estavam a pôr em risco os países pobres do continente africano e a ameaçar transformá-los em narco-estados.
Meses depois, o responsável deste organismo, António Maria Costa, revelaria, numa reunião dos países ameaçados realizada na cidade da Praia em Cabo Verde, que pelo menos 50 toneladas de cocaína proveniente da região andina da América Latina estavam a circular por países da África Ocidental, transformando a Costa Dourada em Costa da Coca…Desde 2005 o tráfico tem duplicado todos os anos e o dinheiro que faz circular duplica, em alguns casos, o produto interno bruto desses países. E ameaça dissolver todas as raízes destas sociedades, para ale de permitir apoio a importantes actividades conexas em tráfico de armamento e apoio directo a organizações terroristas.
A droga, principalmente originária da Colômbia, chega de barco e pelo ar e é preciso ter em conta que, por exemplo, a Guiné - Bissau tem 90m ilhas mas apenas 17 são habitadas…E sai, por exemplo, em voos comerciais da Guiné-Konacry, Mali, Nigéria e Senegal.
A falta de recursos impede-os de vigiar as suas costas recortadas e territórios imensos e de acompanhar com meios tecnologicamente equiparados os meios poderosos usados pelos cartéis da droga (meios financeiros, logísticos e de comunicações) que recrutam recursos humanos de apoio nesses estados, incluindo dirigentes, polícias e militares destes, para através deles e do medo do funcionamento dos seus tentáculos mafiosos junto da população disporem de segurança para a sua actividade criminosa para chegar aos mercados do norte.
Países como a Nigéria, o Gana e a Costa do Marfim servem de placas giratórias mas a Guiné - Bissau é de todos eles o que tem menos recursos e mais débil é particularmente desde a separação de Cabo Verde, resultante do golpe de Estado de Nino Vieira que depôs Luís Cabral. Os narcotraficantes alargaram nos últimos anos as suas actividades, usando particularmente o Norte da Guiné - Bissau e o Sul do Gana e progridem no controlo do país. O combate à sua acção tem sido escasso e com atitudes contraditórias por parte da polícia quanto à mobilidade dos criminosos. Em traços muitos gerais os episódios sangrentos desta semana terão a ver com o papel central que Nino Vieira terá nesta actividade, ostentando de vez em quando recursos não revelados mas que lhe permitiram, por exemplo, ter garantido o apoio de Kumba Ialá na segunda volta das últimas presidenciais e contactos em Portugal, entre os quais se contavam há alguns anos Valentim Loureiro e o nada recomendável empresário que negociou com a Indonésia noutros tempos...
Os chefes militares, ciclicamente assassinados, que têm sido identificadas como resistência ao narcotráfico bem como o partido que está no governo e que Nino Vieira abandonou, depois de ter sido o seu líder histórico depois do assassinato de Amílcar Cabral pelos colonialistas portugueses.
No funeral de Batista Tagmé Na Waié, hoje realizado, o Ministro da Defesa numa alocução garantiu que o combate contra o narcotráfico continuará.

8 de Março - Dia Internacional da Mulher




sexta-feira, 6 de março de 2009

Frase de fim-de-semana, por Jorge


"O que pode ser dito pode sê-lo com clareza. Sobre o que não conseguimos falar guardemos silêncio."


Ludwig Wittgenstein

no prefácio de Tractatus Logico-Philosophicus

As duas conferências em Portugal de Domenico Losurdo


Já aqui fiz referência à que pude assistir no ISCTE. Veja essa e a outra, proferida no Ateneu de Coimbra em

Improvisação 6, de Wassili Kandinsky




quinta-feira, 5 de março de 2009

Antigo Hotel Vitória (hoje sede do PCP), de Cassiano Branco



O narcotráfico, a America Latina e a África Ocidental (2)

A influência económica e política no narcotráfico

No ano que passou, um magistrado francês que escreveu já várias obras sobre a criminalidade financeira, Jean de Maillard, publicou um relatório sobre a criminalidade financeira internacional em que sublinha que o narcotráfico, aliado a outros elementos, representava cerca de 15% do valor do comércio mundial (800 mil milhões de dólares/ano), valor que pode desestabilizar às economias mais sólidas e penetrá-las como nas situações de resgates iniciados no ano passado para acorrer à crise do crédito.
Da cadeia que vai do produtor ao consumidor, este negócio produz lucros da ordem dos 500 mil milhões de dólares/ano, 100 mil dos quais são lavados em bancos em todo o mundo que foram soçobrando face ao afundamemto do imobiliário na área das hipotecas de alto risco.

Os valores movimentados são suficientes para comprar dirigentes de países e de organismos oficiais dedicados ao combate a este tipo de criminalidade, financiar partidos, ONGs e outros organismos que acabam também por serem usados em acções de ingerência interna em vários países.

Não sendo de estranhar que sejam os países mais pobres os mais duplamente afectados: em primeiro lugar, porque a agricultura, definhada pela pauperização resultante do domínio comercial e produtivo das grandes multinacionais do sector, cede à produção da matéria-prima para corresponder à procura da droga pressionada pelos mercados dos países mais ricos e, em segundo lugar, porque o narcotrafico compra consciências e alavancas do poder que acabam por ser mais mediatizadas nestes países do que nos outros onde tudo se faz de maneira "mais elegante".

Responsáveis de diferentes orgasnismos internacionais equiparam no primeiro lugar do ranking de volume de negócios esta actividade com a de venda de armas, o que configura um quadro muito negro das relações internacionais. As paradas que estão em jogo permitem validar a apenas aparente fértil imaginação de muitos autores de ficção que tratam os poderes ocultos dos dias de hoje em que as instâncias que mandam no mundo não resultam da vontade expressa dos cidadãos e a circulação financeira cada vez menos assenta na economia real ao mesmo tempo que determina o seu definhamento progressivo.

Existirão já indícios que vários bancos se salvaram desta forma numa altura em que a suposta necessidade absoluta de tais resgates nem deixava espaço para se colocarem dúvidas sobre a sua origem...

Nas Antilhas Francesas festeja-se a vitória, segue-se a Ilha Reunião

Os habitantes da Ilha Reunião saem hoje à rua para uma jornada de greve que assume grande importância na sequência dos acordos de ontem em Guadalupe que deram a vitória à greve de 44 dias.
O colectivo COSPAR que conduz a luta dos reunioneses inclui várias organizações sindicais e os partidos de esquerda e apresentou na passada 2ª feira um caderno reivindicativo de 62 medidas imediatas contra a carestia de vida.
A reivindicação central, que acaba de fazer vencimento na luta das Antilhas, é de um aumento de 200 euros líquidos dos salários mais baixos. Outras vão da descida de 25%nos +preços da bilha de gás à proibição dos despedimentos que apresentam lucros, passando pelo congelamento das rendas e bilhetes de transporte gratuitos para os desempregados.
Na ilha 52% dos seus 750 mil habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza quando na metrópole francesa essa taxa é de 18% e os habitantes para uma luta que poderá ser mais prolongada como aconteceu em Guadalupe ou na Martinica.
Os acordos de Guadalupe ontem assinados pelo colectivo LKP, com o Estado e as colectividades locais, para além do referido aumento de 200 euros para os salários mais baixos, incluíram o congelamento do preço da baguette e abertura de negociações sobre o preço do pão em geral, a descida das tarifas bancárias, da água e da gasolina.
Um dos dirigentes do colectivo comentava “É uma etapa, um compromisso que se firmou”, juntando um provérbio crioulo “Em cada sábado, um porco” (a ser morto). O patronato está a caminho de seguir esse acordo.
Os acordos foram durante a noite e madrugada de hoje assinalados com festa rija. “Nada será como dantes!” era o que mais se ouvia.

Cartoon de Monginho

in Avante!

A abordagem da crise nos próximos actos eleitorais


No Avante! de hoje, Agostinho Lopes refere que a crise vai estar no centro das eleições que se avizinham, alertando para os falsos argumentos e as pseudo-respostas apontadas pelo PS, PSD e CDS/PP. Seleccionamos o que se segue, remetendo os leitores para
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=28120&area=5

“No centro do debate político e ideológico eleitoral vão estar as pretensas, as falsas respostas da política de direita, do PS ao PSD, passando pelo CDS-PP, à crise. E também no esquecimento e desresponsabilização das suas políticas que fragilizaram, vulnerabilizaram a economia nacional na resistência à crise, tornando-a menos produtiva, mais periférica, mais dependente. Pseudo-respostas que vão tentar passar ao lado das reais causas da crise, que vão mesmo passar ao lado dos dogmas do capitalismo neoliberal que sempre defenderam e praticaram, como a não intervenção do Estado na economia, a livre concorrência, a excelência da gestão privada, para salvar o essencial: garantir a manutenção do sistema de exploração, a continuidade das políticas de direita, a sobrevivência política dos partidos que são a expressão dos interesses de classe, do grande capital, dos grupos monopolistas reconstituídos!Pseudo-respostas que vão tentar passar ao contra ataque, instrumentalizando a crise para aprofundar e consolidar opções e orientações de políticas económicas e sociais, que estão na origem dos actuais e dramáticos problemas que enfrentamos.Pseudo-respostas como a necessidade de mais mercado e menor intervenção do Estado, mais privatizações e liberalizações, isto é mais capitalismo, mais exploração.Pseudo-respostas como mais Europa para aprofundar o federalismo, as políticas comuns e justificar o dito Tratado de Lisboa e os seus fundamentos neoliberais. Para o que claramente se aponta já com as ditas entidades de regulação e supervisão de dimensão europeia e mesmo mundial.Pseudo-respostas que sob uma identidade e identificação de fundo, congénita, de estratégias, opções e políticas, se enfeitarão de atributos acessórios e secundários, e até pretensos antagonismos entre PS, PSD e CDS-PP, para efeitos eleitorais. Diferenças que no fundamental se resumem às diferentes clientelas políticas. Diferenças que só existem nos mais ou menos impostos, na maior ou menor referência às pequenas e médias empresas, no maior ou menor levantar da bandeira social, porque uns são Governo e outros não estão no Governo!”

quarta-feira, 4 de março de 2009

"New York, New York", por Liza Minneli e Luciano Pavarotti

O narcotráfico, a América Latina e a África Ocidental (1)

A Guiné-Bissau, na rota da droga


O assassinato de Nino Vieira recentrou alguma atenção pública na questão do narcotráfico que usa a Guiné-Bissau como plataforma de colocação da droga na África Ocidental e nos territórios que se situam a norte dela.

Segundo o conhecimento anterior sobre esta matéria, é provável que Nino Vieira tivesse compromissos fortes com narcotraficantes latino-americanos. O Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, que Nino Vieira teria mandado assassinar horas antes de ele próprio ser morto como retaliação, far-lhe-ia frente com outros militares não conformados, como parte significativa dos guineenses, com o entrave ao desenvolvimento a que poderes controlados pelo narcotráfico querem manter alguns países africanos para obter melhores condições para o prosseguir da sua actividade criminosa. Quando o Primeiro-Ministro guineense se referiu às chefias militares como “patriotas” teria certamente esta avaliação presente.
Insisto que o que refiro carece de confirmação. Não me conformo com uma visão simplificada da interpretação dos factos. Mas o que penso conhecer, vai nesse sentido e não de alguma contra-informação que chegou a alguns media portugueses de que a rivalidade entre ambos os personagens desaparecidos se deveria a partilha não resolvida de interesses neste campo ou mesmo a Nino Vieira estar a combater…o narcotráfico que seria protegido pelos militares.

Esta questão traz duas outras que abordarei no dias seguintes, a saber os efeitos do narcotráfico em África, o papel de alguns países latino-americanos e dos seus dirigentes o papel dos EUA e o desvirtuamento e fracasso da sua DEA (Drug Enforcement Administration).

terça-feira, 3 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

Quem com ferro mata...



A morte que Nino Vieira encontrou ontem, numa casa para onde se tinha deslocado depois do assassinato do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas da Guiné Bissau, Tagme na Waie, ainda não estará esclarecida. Mas importa reter o caminho de conflitos neste país depois da sua chegada ao poder durante mais de vinte anos.
A sua ruptura com o PAIGC, o seu clã que funcionava à margem da legitimidade democrática, com eventual envolvimento no narcotráfico e o uso do poder para servir uma elite enquanto o país passa fome e se mantem um dos mais pobres do mundo, foram acompanhados por uma hostilidade permanente para com o seu antigo partido e para com as forças armadas. Ninguém ignora às ordens de quem em poucos anos foram assassinados três chefes do estado maior destas.
Parece assim evidente que Nino caiu pelos seus próprios métodos.
É positivo, dentro da grande instabilidade que a sociedade guineense continua a viver, que a junta militar ontem constituída se tenha posto à disposição do governo legítimo para contribuir para a solução dos graves problemas do país e declarado respeitar as instituições democráticas.

domingo, 1 de março de 2009

Chavez reage a insultos do Departamento de Estado Norte-Americano


Compreensìvelmente o Presidente Chavez reagiu de forma firme a um recente relatório do Departamento de Estado já da época Obama.
Estes relatórios são factores de ingerência interna e visam criar conflitos. Ainda recentemente os EUA tiveram que pedir desculpa à Argentina devido às afirmações caluniosas contidas num deles.


Desta vez a Venezuela é acusada de não dar garantias em matéria de direitos humanos, de ter as forças armadas fortemente atingidas pela corrupção, de dar cobertura ao narcotráfico e de apoiar movimentos de guerrilha e terroristas.
Obama prometeu mudanças mas decididamente a incumbência divina para dirigir o mundo não vai ser uma delas...

Le Corbusier, Capela de Ronchamp




Algumas influências do movimento comunista no séc XX


Nos passados dias 26 e 27 deste mês promoveram o ISCTE e a resistir.info duas conferências de Domenico Losurdo, a que já aqui tínhamos feito referência no passado dia 24.

Os temas introduzidos pelo historiador e comunista, de forma coloquial, sintética e despida de academismo na apresentação, apesar do rigôr de fontes históricas em que baseou, são caros ao povo de esquerda, particularmente para os que têm da derrota do socialismo no leste europeu, uma visão de oitenta anos perdidos.

O historiador revelou que o alcance da revolução russa e do movimento comunista se traduziu entre outras coisas na influência assinalável sobre o conteúdo da democracia, dos direitos, liberdades e garantias que nem o liberalisno, nem a social-democracia tinham previsto terem a profundidade que tiveram. E que acabou por se traduzir num conteúdo progressista da Declaração Universal dos Direitos do Homen e noutras resoluções congéneres de carácter mais ou menos universal na segunda metade do século que passou. O próprio keynesianismo, limitado no seu alcance económico e social em contraposição a um liberalismo "mais selvagem", incorporou considerações e valores que sem Marx e Lenine, sem o movimento comunista e os movimentos de libertação nacional, e a grande atracção universal que estes provocaram, não teria tido o alcance de incorporação de novos direitos mesmo que numa perspectiva de resistência ao socialismo.

A idéia central da primeira das conferências a que pude assistir foi precisamente a revelação de como foram superadas (parcialmente, direi eu) três grandes discriminações, a saber a racial, a censitária e a sexual. Num quadro que Losurdo esclareceu ser já portador de uma discriminação de classe.

Questão que se tornou duplamente confirmada quando esses direitos passaram a ser postos mais em causa depois da derrota do "socialismo real" e quando os próprios patriarcas do neo-liberalismo, como Hayek, identificaram em jeito de denúncia, que tais novos direitos foram teorizados e impostos no Ocidente pela influência que considerou "funesta" da revolução russa...

O leitor poderá, certamente, ter acesso a esta conferência em http://www.resistir.info.com/.

"Os Maias", com encenação de Rui Mendes sobre adaptação de António Torrado

Este trabalho faz sobressair do romance de Eça de Queiroz quer o tema do incesto, caro ao seu autor quer o da crítica certeira à burguesia da época que sempre esteve presente na sua obra.

A adaptação é arriscada, pelas reazões que António Torrado avança no programa em antecipação à crítica, na medida em que faz perder a densidade de quase todos os temas trazidos por Eça mas o critério da selecão não fere os sentidos de quem leu o romance.

A encenação é equilibrada e a opção da música por Afonso Malão deu outro corpo ao ambiente da época.

Quanto aos personagens, José Fidalgo e Sofia Duarte Silva não valorizaram na relação actor/personagem a centralidade dos papéis de Carlos da Maia e Maria Eduarda, contrapondo José Airosa a força dada a João da Ega.Bem estiveram também Mário Jacques (Guimarães), Luis Alberto (Afonso da Maia) e João Didelet (Rufino).

A equipa técnica esteve equilibrada.

Prevenindo sempre, que estas são opiniões de um amadore de teatro, sem qualificação e conhecimento para ser minimamente confundido com crítico de teatro, sugiro que vão ver. Mas sze puderem, lendo os "Maias" antes ou depois se já os nao têm presentes.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Cartoon de Monginho

in Avante!

"O beijo", de Gustav Klimt



Frase de fim-de-semana, por Jorge


"Desde que não se lhe dê uso, a consciência está sempre limpa."


Abba Ebam

Ministro dos Estrangeiros de Israel de 1966 a 1974

Com os jovens não se brinca…

A criação de um regime jurídico dos Conselhos Municipais de Juventude, matéria interessante mas com o conteúdo detalhado que a lei 8/2009 lhe atribui, parece-me uma regulamentação sem sentido. Mas traz água no bico…

A organização de estruturas consultivas de juventude pelos municípios deveria depender de cada situação concreta e ter em cada uma a regulamentação que os jovens e o município entendessem. E que seria, certamente, sempre diferente quer em composição, quer em funcionamento, quer na definição de objectivos e de competências, quer em instalações e apoios institucionais ao seu funcionamento, nos diferentes tipos de municípios.

A rigidez da composição, a discriminação das associações informais, os esquemas de representações cruzadas entre órgãos municipais e nacionais, são tudo o que de mais estranho se possa conceber para jovens…
A democracia participativa é mais um estilo de governar e de intervir na governação do que uma forma rígida e uniformizante de a condicionar. Não é uma fórmula que se auto-isente de riscos de manipulação e de ressonâncias de lobbies estranhos aos jovens, em geral, mesmo que alguns deles sejam juvenis.

Sei do que falo. Como vereador convivi de muito perto com estas situações durante oito anos.

O risco de que um jovem não conhecer da vida o suficiente para se pronunciar sobre esta ou aquela matéria não pode ser impeditivo desse pronunciamento. Devem as associações juvenis densificarem o seu conhecimento de situações, com perspectivas diversas e informação qualificada, para dar mais solidez às opiniões. Mas isso é o processo educativo normal num jovem e o perfeccionismo regulamentar só quer dizer que quem o elaborou de jovem já pouco tem…

Tal como para outros sectores que, desejavelmente, devem assegurar direitos de participação, este tipo de problemas existe.
E isso dá mais força à necessidade de que a força da representação não se esgote nestas instâncias, necessariamente consultivas e para melhor fundamentar as decisões políticas daqueles que têm a competência de decidir.
Que ninguém pense que pode transformar democracia representativa em funil biunívoco das organizações desejavelmente livres, com capacidade de iniciativa e a natural irreverência e vontade de mudar a vida e o mundo que lhe são tão características. E na qual se inclui a capacidade para acabar com perversões de representatividades pelos seus mais directamente interessados.

Nem a excessiva institucionalização e parlamentarização destes Conselhos, nem a rigidez burocrática de quem assegura as participações são desejáveis no interesse de uma efectiva participação.

Governos que tudo têm feito para limitar as perspectivas dos jovens, alimentando o desemprego, o trabalho precário, o acesso com custos elevados à educação, à habitação e a tantas outras condições de vida e de trabalho, tomarem, esta iniciativa é um desvio de atenções. Eles são responsáveis pela falta de interesse e confiança na participação para esta regulamentação cerrada ter sentido positivo. Mas não só de fait-divers vive este diploma.

Ainda mais grave é, tal como está a acontecer noutras áreas da actividade municipal, como, por exemplo a Acção Social, o governo amarrar as estruturas locais de iniciativa local a políticas e estruturas do governo, colocando-as como executoras de orientações governamentais e cerceando actividade autónoma por tal rede de estruturas condicionar o acesso a programas nacionais de apoio, à semelhança do que acontece com a inacessibilidade a incentivos que o Portal 65 introduziu.

Não seria a primeira vez, e continuaria com tais regimes jurídicos a ser no futuro, que um governantezinho em discursos dentro e fora do país, em balanços, livros e anuários, em sites sobre a s associações juvenis, chamasse a si, como se se devessem a uma clarividência e esforço hercúleo dos governos, a iniciativa e a diversidade de milhares de estruturas e actividades juvenis que continuam a existir, apesar das políticas negativas dos governos.

A instrumentalização da iniciativa juvenil é o que tal fúria regulamentar em última análise, pretende.

Deixo ao leitor o convite de conferir o que aqui fica dito com a lei nº. 8/2009, de 18 de Fevereiro, cujo debate parlamentar na altura não acompanhei.

Com um governo como este, tal tipo de leis é uma conversa da treta que é um faz de conta, para mais um show-off que pretende distrair as atenções dos reais problemas da nossa juventude que, ainda por cima, não dependem tanto do poder local mas de políticas nacionais.
Os ministros que brinquem uns com os outros. Com os jovens não se brinca…

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A lei do mais fraco, por Jorge


É verdade.

Ao contrário do que se pensa, descobriu-se que a competição entre espécies pode dar a vitória à mais fraca, a que sobrevive!

Diga-se de passagem que a selecção natural não é ao mais forte que dá a superioridade, mas sim ao mais apto! ("survival of the fittest" disse o Darwin).

Animem-se portanto, desgraçados de todo o mundo! o futuro pode ser vosso! o segredo está em saber escolher os mais fortes com quem competir...


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Brasil solidário com Cuba

O Governo de Lula doou a Cuba 19 mil toneladas de arroz para enfrentar os graves problemas causados pela passagem de três furacões que devastaram a ilha em Outubro passado - o Ike, o Gustav e o Hannah. Uma expressão de solidariedade desta grandeza não pode passar sem merecer reflexões amplas, especialmente num momento em que o mundo regista principalmente é a movimentação de armas. Enquanto Brasil oferece arroz a Cuba, os EUA continuam com o abastecimento de armas para Israel.

Como o jornal comunista “O Vermelho” refere na sua edição de hoje:

“Assim, aprendamos todos com esta página de solidariedade que está sendo escrita agora pelo Brasil, coerente com uma política de integração, que precisa ainda desenhar-se, expandir-se, superar os que do lado de lá patrocinam não apenas o jornalismo de desintegração, mas a própria desintegração latino-americana. Com a crise do capitalismo mundial, temos uma avenida. Militares brasileiros da Aeronautica participaram de operações de salvamento de flagelados quando das devastadoras inundações na Bolívia há alguns meses. Participaram também, recentemente, indicados pelas Farc, mas com a concordância do governo da Colômbia, da operação de resgate humanitário dos reféns coordenada pela Cruz Vermelha nas selvas do país vizinho. São algumas ações apenas, mas apontam um caminho com a criação da Universidade da Integração Latino-Americana, em Foz do Iguaçu aponta. Mas, esta página tem muitos antecedentes, sobretudo inúmeras páginas nobres que Cuba já escreveu na história da solidariedade internacional dividindo generosamente seus escassos meios com outros povos mais necessitados.
Assim, o arroz solidário brasileiro vai para quem merece amor, como na canção de Silvio Rodriguez”.


Como curiosidade também registada neste jornal, refira-se que passam hoje 28 anos sobre a condenação de Lula em tribunal militar, de acordo com a então Lei de Segurança Nacional, por ter sido um dos dirigentes da greve geral de 1980.

Habitação por conservar: os números e a conversa fiada...

1. Noutro post já aqui falei da reabilitação urbana dos bairros históricos que, por diversas especificidades (técnicas e materiais de construção, peso maior de necessidades de conservação e reabilitação, menor rentabilidade do investimento privado, laços sociais particulares, dimensão e especialização de empresas de construção indicadas, etc.) devem ter um enquadramento legislativo, de planeamento urbano distintos, ter uma estrutura municipal própria, com várias valências integradas e um maior entrosamento com os residentes.

2. Mas em todo o resto da cidade, para além do seu casco antigo, as necessidades de conservação e reabilitação existem e, em alguns casos, atingim níveis preocupantes.
Em palavras todos reconhecemos que grande parte do nosso parque habitacional precisa de ser conservado e/ou reabilitado, tiram-se efeitos especiais destes ou daqueles dados, geralmente com poucos estudos ou estudos e planos sobre aspectos muito parcelares
Depois vamos olhar para o investimento feito e as grandes intenções esboroam-se…
Para só falar daquilo que é responsabilidade directa da CML ou em que esta actua como parceira ou por razões ponderosas, assistimos a um descalabro desde o final da coligação de esquerda dos anos noventa.
De 12 milhões de euros de execução do plano em 2001 passou-se para 1,2 em 2007 (o relatório de gestão de 2008 só será aprovado daqui a umas semanas), e de 74% de taxa de execução para 27%…
Esta tendência atingiu particular gravidade nos bairros municipais que, como se sabe atingiram crescente dimensão. Aqui de 4,5 milhões de euros em 2001 passou-se para 0,3 em 2007 com as taxas de execução a caírem de 70 para 18%.
Os números decrescem e ilustram bem a incúria, o desprezo que contradiz o discurso oficial, as opções de classe na despesa realizada.

3. Em Lisboa, a média de idades dos edifícios em utilização habitacional é de cerca de 50 anos e o número de fogos devolutos ultrapassa os 40 mil.A maior parte dele é particular e os proprietários não terão recursos para o fazer. Quer sejam eles arrendados quer sejam habitados pelos próprios proprietários.
Também o município tem escassez de recursos, apesar dos programas de co-financiamento de obras pelo Estado a que, contraditoriamente (ou não), quer o município quer os particulares tem recorrido menos…
Outros fogos particulares carentes de conservação e reabilitação são deixados degradar para que os seus locatários se vejam forçados a abandoná-los ou a receber “indemnizações” ridículas por isso.
Obviamente não é esse o caso do município. Neste caso os fogos que estão vazios, até por isso se degradam mais depressa e ficam menos disponíveis para corresponderem às necessidades do município em realojamentos.
Mas um programa de reabilitação sistemático recorrendo ao co-financiamento poderia e deveria ser realizado com outra eficácia e uma vontade política mais determinada. Não para serem atribuídos de forma pouco clara mas para acorrer às necessidades sempre existentes de realojamentos temporários ou definitivos.


4. Dos 60 692 mil fogos existentes em 1960 passou-se para 292 065, em 2001. Mas, conforme os dados municipais revelam, apesar disso, nos últimos 20 anos, e acompanhando uma tendência comum a outros grandes centros urbanos, sujeitos a enquadramentos neo-liberais e aos respectivos movimentos especulativos em vários mercados, a cidade perdeu cerca de um terço da população (em 1981 residiam em Lisboa 796 534 mil pessoas e, em 2001, já só viviam 564 657 mil pessoas).
Esta perda de população não está directamente relacionada com o estado do parque habitacional.
Não é possível suster esta perda de população se de forma combinada não se actuar simultaneamente a vários níveis como na maior oferta de postos de trabalho, na redução dos preços leoninos da habitação e das rendas, agindo sobre o mercado, no suster da especulação e no assegurar na habitação nova uma percentagem de fogos para venda a custos controlados e para arrendar a preços suportáveis.
E aqui é outra política que se impõe para não continuarmos a alimentar ilusões.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009