sábado, 7 de novembro de 2009

92 anos sobre a Revolução Russa

Passam hoje 92 anos sobre a Revolução de Outubro.

Se antes desse conjunto de actos revolucionários, várias revoluções não sucedidas expressaram a vontade dos trabalhadores e de outras camadas da população de construírem uma nova vida para o ser humano que ultrapassasse a condição a que o capitalismo os tinha votado, e mesmo com um peso numérico mais expressivo do operariado, sem dúvida que a Revolução de Outubro marcou uma época histórica, que em muitos aspectos se mantém, pelo pioneirismo da sua vitória e da capacidade de construir uma nova sociedade, pelas suas realizações e repercussão universal.


O campo socialista europeu alargou-se depois da 2ª guerra com transformações em países onde as camadas dirigentes tinham sido apoiantes de Hitler mas onde havia também uma forte influência comunista que foi o tronco dos movimentos de resistência. Sob o seu impacto formaram-se partidos comunistas em quase todo o mundo com esse ou outros nomes que assumiram, com o apoio dos seus povos, o poder. Na China, na Coreia, em Cuba, no Vietname, no Laos e Cambodja.

O seu apoio foi fundamental para o êxito dos movimentos nacionais libertadores em antigas colónias (apoio militar, formação política e científica de quadros, apoio económico) dos anos 50 aos anos 70 de século passado.

A presença destes países e do movimento dos não alinhados deu à ONU e aos seus organismos específicos (FAO, UNESCO; UNICEF, OMS, etc.) um peso importante na regulação de conflitos, na contenção da natureza agressiva do imperialismo, em importantes tratados internacionais, e no acorrer às principais carências dos países do terceiro mundo, em ascensão libertadora, vítimas do colonialismo, da pilhagem de matérias primas, dos garrotes de dívidas e vinculação dos programas do BM e FMI à ingerência política interna nos seus processos nacionais.


O movimento sindical de muitos países bem como outros movimentos sociais beneficiaram do exemplo das conquistas sociais, económicas e culturais nos então países socialistas como factor de pressão e de realismo para com as suas próprias ambicionadas conquistas.


URSS e EUA, mas também outros países de ambos os lados, desenvolveram uma competição pacífica em várias áreas (no espaço, no desporto, na cultura, etc.).


Mas o campo socialista foi-se exaurindo devido à corrida aos armamentos (necessária enquanto factor de dissuasão) e a alguns aspectos desta competição, ao apoio a fundo perdido aos movimentos revolucionários e de libertação em todo o mundo, subestimou a concorrência do ocidente capitalista na qualidade, acesso e preços de bens de consumo quer de primeira necessidade quer de outros que conferiam estatutos valorizados aos cidadãos. Para além de, no plano político, se terem burocratizado, confundindo Partido e Estado, adiando um maior alargamento da democracia poilítica interna, e contribuindo para a degenerescência de quadros que nos anos 90 se tornaram dos mais empenhados capitalistas e contra-revolucionários. Incluindo alguns dos seus mais destacados dirigentes, como Gorbatchev ou Chevardenaze.


Com o campo socialista o mundo deixou de ser unipolar, para bem de cada país e de conjuntos de países poderem ter um aceso menos condicionado ao desenvolvimento.


Propaganda e espionagem existiam obviamente de ambos os lados mas importa distinguir quem apoiou contra-revoluções e massacres contra forças progressistas, quem lançou a

bomba atómica contra o seu semelhante, quem desenvolveu armas convencionais e químicas e preparou agressões na base de vírus e bactérias, quem cobriu o planeta de bases militares, quem ainda no século XX foi o campeão das invasões e tentativas de invasão de tantos países e da condução de guerras de agressão e pilhagem, quem se aliou com o diabo em tantas circunstâncias em nome do anticomunismo. O que nestes campos se fez, em resposta, no campo socialista, não rivaliza nem de perto nem de longe com a intencionalidade e os níveis atingidos pelos EUA e pela NATO, sua criação do pós-guerra para liquidar a Rússia, operação que hoje se mantém, com outras características.

Os avanços em quase todas as áreas dos países que integraram o campo socialista realizaram-se num tempo histórico bem mais curto que o capitalismo e tiveram uma larga amplitude democratica assumida como questão de princípio. O seu exemplo foi muito importante para os êxitos de trabalhadores nos países capitalistas e ajudou a criar uma relação menos desiquilibrada entre trabalho e capital.


O papel da URSS no curso da 2ª guerra mundial foi não só importante mas, de facto, decisivo.

Hitler foi apoiado desde o início pelo capital alemão para acabar com o comunismo. Algumas grandes multinacionais americanas apoiaram-no com esse objectivo. Os governos de França e Inglaterra bem como o de vários países que faziam fronteira com a URSS apoiavam este objectivo de Hitler, com um comportamento semelhante ao que tinham tido para impedir a vitória da revolução russa. Os americanos tardaram a entrar na guerra e só o fizeram quando se pronunciava a derrota fascista a leste. Os bombardeamentos selváticos de Hiroshima, Nagasaki, de Dresden e outras cidades alemãs não eram militarmente necessários e foram uma aposta contra a progressão da Rússia na Europa e na Manchúria.


A derrocada do socialismo no leste, a que se costuma associar simplificadamente “a queda do muro”, teve efeitos desastrosos interna e externamente, apesar do apoio ou indiferença com que muitos habitantes destes países enfrentaram esta transformação na ausência de vanguardas políticas respeitadas e mobilizadoras para que eles se libertassem dos erros sem caírem no retrocesso histórico do regresso ao capitalismo que, de forma selvática fez sucumbir direitos adquiridos fundamentais dos cidadãos.


Sobre isso muito se tem escrito e não me alongaria agora nessa matéria.


A Revolução de Outubro foi interrompida mas a sua gesta e as suas realizações, a sua memória na humanidade e a persdonalidade, vida e obra de Lenine, têm uma força muito importante num mundo que quer romper os efeitos da globalização capitalista, e vai abrindo caminho com novos processos de carácter revolucionário, para emancipações sociais, económicas, políticas e culturais, bem como novas centralidades e equilíbrios (não isentos de contradições).

Por tudo isso, uma vez mais e sempre, VIVA A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Frase de fim-de-semana, por Jorge



"Omnia quae scripsi mihi videtur ut palea"
"Tudo o que escrevi me parece palha"


Tomás de Aquino (próximo da morte, em 1274)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cartoon de Monjinho

in Avante!

Crónica do Rodrigo - Borregando, borregando, se irão vitimizando


Andava eu ainda embalado pelo luque de diálogo do nosso primeiro, não é que ontem dois destacados socialistas dizem, a propósito destes novos casos de corrupção, que não deviam os deputados, que vocês elegeram há umas semanas, andarem ligeiros e porem-se "à pressão" a aprovar a criminalização do enriquecimento ilícito, grande frase a que prefiro o vais de cana se andaste a roubar, para não se pensar que era para esta cena do Vara, dos Penedos e do Godinho, e eu aí comecei a pensar que, como estão para aparecer outras cenas destas, a gente até alargava o prazo de vigência das oportunidades de negócios de outros craques empreendedores lá para as calendas, sem risco de aprovações à pressão lhes estragarem o planeamento do gamanço, dando saudável continuidade à rejeição pelo ps duma proposta dos comunas na defunta legislatura que andava a torná-los inseguros e a desfocar os seus capitais de risco até porque muitos já sabem que a judite lhes anda morder as canelas e como as nossas reservas de ouro estão em risco era bom continuar com o toque do midas com que a bófia em boa hora tem batizado estas cenas, como a do apito dourado, do outlet que também devia ser dourado, agora as empresas douradas do Godinho que boa falta nos farão se as reservas forem à vida com algum novo borregar como aquele do Lacão ter estalado a laca ou o verniz a propósito da avaliação dos profs que é para ficar como está, ao que o Assis, deputado-bombeiro, acudiu mas já se estava no rescaldo do incêndio, e que a malta da oposição estava era a meter-se numa querela jurídico-constitucional, os nomes que estes tipos arranjam para me atrapalharem a semântica, pondo-os logo de aviso que o governo ia usar todos os truques, que ele chamou de técnica jurídica, para responder às estocadas e proclamar, urbiétórbi, que estavam a querer vitimizá-lo e que até se iam deixar vitimizar uma, duas, muitas vezes até que os ceguinhos dos portugueses se arrependessem de lhes terem tirado a maioria absoluta, que o Zé Miguel Júdice ontem, no TVI24 curruburou, está certo ó edite?, não é que o magano está feito com o nosso primeiro para desgosto do psd, bom, e com esta me vou antes que me vitimizem a mim, e...passem bem pessoal da pesada. Inté!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A vergonha dos muros...Festejar? O quê?

O muro de Berlim deixou de existir há 20 anos






Mas o dos EUA com o México existe há 15





o de Israel com a Cisjordânia passados 7 anos ainda lá está







O de Marrocos com o Sahara Ocidental há 30 anos...





E tantos outros mesmo mais pequenos
(este na aldeia de Ostrovany, na
Eslováquia a isolar um grupo de ciganos)

Frase de meio da semana, por Jorge


"A vida é uma doença mortal transmitida por via sexual"


Distímico anónimo

A importância de Vara...

O presidente do Banco de Portugal considerou que a suspensão de funções pedida por Armando Vara tinha sido um acto importante. De idêntica declaração de João Berardo se poderá dizer o mesmo, apesar de não estar associado à responsabilidade institucional do primeiro. Ou ainda de Faria de Oliveira da CGD...

O gesto é natural, é a única saída ou haveria outra eticamente mais aceitável? Ainda por cima quando não foi por iniciativa própria, como decorre limpidamente das notícias e declarações destes dias!...

Muita coisa nesta vida é importante…Mas esta declaração tem uma leitura valorativa que a uma pessoa como o Dr. Vítor Constâncio não pode ignorar e, portanto, legitima que pensemos que é um contributo de simpatia para a pessoa de Armando Vara sobre a qual caem sérios indícios de envolvimento num esquema tentacular de vários protagonistas obterem favorecimentos de empresas a partir de pessoas conhecidas que desempenham funções nelas onde adjudicam altos valores de empreitadas, bens e serviços.


Mas, em que reside a importância atribuída? No facto de ter tido a confiança do governo para ser nomeado administrador vice-presidente do BCP e isso ser importante para não estragar ainda mais a imagem de uma instituição já lesada por um perfil de banqueiros que, pelos vistos, está no top de desempenhos? No facto de Armando Vara deixar, assim, de receber o meio milhão de contos que recebia por ano, dando um importante exemplo de desapego por bens materiais?


Para as pessoas em geral o que se está a passar é uma vergonha. É algo que tem que ser atalhado com medidas efectivas e céleres de combate à corrupção. O abrigo da punição, obtido por jogos de influência e disponibilidade de pagamentos de elevados honorários a advogados que permitem enviar para as calendas os resultados destes processos, contraria o que devia ser exemplar. Protege e promove este tipos de comportamentos.


E se a corrupção vale a pena mais imunes e tentados ficam outros seguidores de tais comportamentos, que adquirem laivos de heroicidade, premiando o xico-espertismo e o crime. Porque aos que não têm esses meios de defesa e de protelamento de riscos não falha o rigor da justiça.

Sem violar a presunção da inocência - o preceito de que suspeita e arguição não são a mesma coisa que culpa provada - tais atestados públicos de sinal positivo aos eventuais prevaricadores de colarinho branco estão a modelar perigosos padrões de comportamento que já hoje perpassam a sociedade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Até amanhã, Carlos Grilo

Faleceu com 64 anos, Carlos Grilo, militante e dirigente do PCP.

O seu funeral realizou-se hoje para o Cemitério dos Olivais, onde o seu corpo foi cremado.

Participou activamente na luta antifascista, nomeadamente nas campanhas da Oposição Democrática de 1969 e 1973 através da CDE (Comissão Democrática Eleitoral). Como empregado bancário, integrou o grupo de activistas sindicais que, em 1968, dinamizou o processo de eleições para o Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, que viria a culminar com a eleição da primeira Direcção representativa dos trabalhadores. Dinamizou e participou activamente em reuniões de associados e integrou Grupos de Trabalho da Contratação e da Informação do Sindicato.

Em 1973, no local de trabalho foi eleito delegado sindical e, em 1974, eleito para a Comissão Sindical na sua empresa.
Aderiu ao Partido Comunista Português no processo da Revolução de Abril, em Maio de 1974 , integrando a célula do Partido no Banco Totta&Açores.

Em 1975 foi chamado ao Organismo de Direcção do Sector dos Bancários.

Carlos Grilo era Funcionário do Partido desde 1977. Foi membro do Comité Local de Lisboa. Desde 1984 integrava a Direcção da Organização Regional de Lisboa e, durante vários anos, os respectivos organismos executivos. Entre outras tarefas, assumiu, com grande dedicação e empenhamento, a responsabilidade pelas organizações dos Sectores dos Seguros, Bancários, Transportes, pelo Sector Sindical e pelo Sector Intelectual, ao qual se mantinha ligado no âmbito das suas tarefas no Secretariado da DORL.

Foi membro do Comité Central entre 1983 e 2008.

Um grande abraço para a sua companheira, Marília Villaverde Cabral.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

De Franz Kafka, espectáculos integrados no Ano de Darwin, no Trindade

A Economia!


Acordos sobre as Honduras vão concretizar-se?





Activistas da Frente Nacional contra o Golpe de Estado nas Honduras, estão desde hoje em vigília permanente em frente ao edifício do Congresso para exigir que seja aprovada a recondução do presidente legítimo Manuel Zelaya. Os acordos assinados na 4ª feira entre as duas parte remetem para este órgão legislativo a decisão, com prévia consulta ao Supremo Tribunal de Justiça.

Os acordos são leoninos a favor dos golpistas. A resistência hondurenha está desanimada com eles e há riscos em torno da sua aplicação.

As organizações populares que integram a Frente têm denunciado as práticas dilatórias que os parlamentares estão a usar, invocando sobrecarga de agendas (!!!) para arrastar a deliberação. Zelaya também denunciou poder estar a haver jogo escuro do golpista Micheletti por detrás desses acordos, com o aparecimento ontem de um deputado a falar num acordo secreto das partes com os EUA, que Zelaya nega existir.


O acordo prevê ainda que se forme até à próxima 5ª feira um governo de unidade e reconciliação nacional.

"Terra" de Mariza encheu o Coliseu de entusiasmo e boa música


Foi um bom espectáculo, esta "Terra".

Por ali ouviram-se novas e velhas canções com diferentes arranjos. À voz soberba, profissional e internacional de Mariza somaram-se grandes intervenções dos músicos em palco. Pena foi não serem publicados num folheto todos os seus nomes (citaram-se os da gravação do novo trabalho "Terra") porque quer no que respeita ao acompanhamento quer nas intervenções instrumentais foram notáveis. A guitarrada portuguesa num tropel que embriagou e o solo de bateria que nos deixou quase estarrecidos foram momentos muito altos.
A partir da 4ª e 5ª canção, depois de tomar o pulso ao público que se estava a ambientar, público e Mariza foram um só. Presos um do outro.
Como se sabe, e como fica cantado no Tasco da Mouraria, de Paulo Abreu Lima e Rui Veloso neste trabalho Marina canta o fado, nasceu na Mouraria, onde na taberna do pai ele era cantado pela noite dentro, depois dela ter o seu momento também antes de se deitar.
Mas Mariza juntou ao fado nos seus espectáculos as músicas, os sons e os rimos de países, por onde tem andado em tournée há sete anos. Da morna ao flamenco, do jazz à canção clássica, passando pelo folclore, tudo confluiu num resultado harmonioso que o público foi acolhendo em crescendo.

"...além de levar a minha música, fui tendo contactos com culturas e estéticas diferentes. Fui ouvindo e entendendo. Fui assimilando até chegar aqui, a este ponto que é, neste momento, a minha verdade. Ora, se eu fui sempre verdadeira com o público e comigo próprio, não havia razão para que este disco não desse conta da evolução que eu fui sofrendo, como cantora e como pessoa."

Arrepiaram a interpretação de "Recurso", "Poesia" e "Minh'Alma".
O som esteve impecável e a cenografia simples mas eficazmente servida pela luz.

Valeu bem a pena...

Um colóquio interessante sobre as "eleições" de 1969

Realizou-se no passado sábado, na FCSH da U. Nova, um interessante colóquio sobre as “eleições” de 1969, com base em trabalhos de 6 investigadores, cinco do Instituto de História Contemporânea e um outro de Coimbra, bem como de Fernando Rosas, que teve a vantagem, de juntar investigadores jovens que não eram nascidos nesse período e outras pessoas que tinham participado dos acontecimentos, objecto do seu estudo.

O colóquio terminou com uma mesa redonda coordenada por António Reis.

Houve debate e muita informação ali trazida por estes, por José Manuel Tengarrinha, Jorge Sampaio, Joana Lopes (todos de diferentes sensibilidades presentes na CDE), Pedro Coelho (CEUD) e Magalhães e Silva (Comissão Eleitoral Monárquica). Outros participantes, como eu próprio e o Vítor Dias (CDE) contribuíram com as suas reflexões e experiências da época.

Retive, sem com isso pretender resumir-lhes o pensamento, algumas considerações:

José Tengarrinha assinalou que o carácter democrático da CDE também se expressou na orientação, imposta, por um crescente desejo de participação dos activistas, de criar uma vasta rede de comissões de freguesia, concelhias e distritais, do seu carácter electivo bem como o das designação dos candidatos e pela forma participada de construir o programa eleitoral. Isto teve reflexos na preparação e documentos saídos do III Congresso da Oposição Democrática de Abril de 1973 bem como no funcionamento do movimento dos capitães e elaboração do Programa do MFA.

E referiu que os termos da Plataforma de S. Pedro de Moel são um compromisso em várias questões em que não havia convergência entre comunistas e socialistas, como no caso da guerra colonial.

Fernando Rosas defendeu que o marcelismo foi uma efectiva tentativa de liberalização do regime e não pode ser caracterizada como uma fraude. Marcelo rodeia-se de quadros jovens e tecnocratas e apoiou-se em grupos económicos como a CUF para conseguir salvar o regime. Mas, não resultou por causa do papel central da guerra colonial, em que o regime continuou a investir, matando a liberalização.

A abertura do regime contemplou as revisão dos CCTs, a existência de árbitros, a não homologação prévia das direcções dos sindicatos, a extensão da segurança social aos rurais e a ADSE, enquanto mantinha a guerra para ter uma solução política no quadro de uma autonomia branca, uma descompressão da imprensa.

A esquerda radical não participou nas campanhas da oposição. O próprio Fernando Rosas, então na EDE, fora a uma única reunião da CDE com o Arnaldo Matos mas não me lembro nem como, nem porquê,


Jorge Sampaio avançou que a CDE teve um funcionamento democrático, permitiu o debate ideológico, e na construção de um programa com a participação das bases, traduzindo-se numa experiência de cooperação e de relações criadas que muito contribuíram para o meu envolvimento na criação em 1989 de uma coligação de esquerda para a CML.

Recordou a reunião, em que participou, nesse ano, nos arredores de Paris com Cunhal, comunistas, outros socialistas independentes (autodesignação que ironizou...), católicos progressistas, MAR e FPLN e que consagrou a convergência na CDE.

Referiu que aconteceu em 1969 foi premonitório do que iria acontecer depois de 1974.

Magalhães e Silva, que integrava a lista de candidatos monárquicos, referiu que a sua lista representava pequena parte dos monárquicos, que, em geral, eram conservadores e apoiantes do regime. Valorizou o papel de Barrilaro Ruas e de Rolão Preto, parecendo sintetizar o seu pensamento com a frase “A monarquia nasceu na História e morreu na História.” O investigador Edmundo Alves corroborou estas afirmações, fazendo um estudo mais desenvolvido da intervenção monárquica ao longo da resistência.

Joana Lopes disse que os católicos progressistas estavam na CDE e também na CEUD. Em 68 duas questões foram a gota de água para a radicalização do movimento dos católicos progressistas: o que aconteceu com o Padre Felicidade Alves e a demissão colectiva da direcção do Seminário dos Olivais com o Padre Abílio Tavares Cardoso.

Participavam nas bases da CDE mas tinham intervenções autónomas. Foram, instrumentos importantes dessa intervenção os documentos gedoc, Direito à Informação e a Cooperativa Pragma (Tengarrinha lembraria o papel de boletins paroquiais, cerca de oitocentos, publicados em todo o país apenas sujeito à censura eclesiástica e não à do regime, particularmente quanto à guerra colonial).

Quando da reunião em casa de Zenha que confirmou a ruptura da CEUD com a CDE, o Tengarrinha e o Cardia fizeram tudo para evitar a ruptura (Pedro Coelho confirmou que os socialistas preferiam autonomizar-se e não diluir-se noutros).

António Abreu afirmou que Mário Soares e Marcelo Caetano precisaram um do outro para dar crédito à liberalização e ajudar a libertar os socialistas da companhia dos comunistas.

Para ele, os esquerdistas facilitaram a operação de liberalização ao dizerem que o fascismo tinha caído e que agora tudo se limitava à luta anti-capitalista, menosprezando a luta contra a repressão e a conquista das liberdades democráticas. Tiveram, por isso, uma intervenção perniciosa e não contaram, nada nem para a democratização interna da estrutura da oposição nem para o seu programa. O carácter pernicioso não foi subscrito pelo investigador Miguel Cardina que tinha desenvolvido, a partir da criação da FAP, uma intervenção da extrema esquerda que criticava o PCP por só intervir nas campanhas eleitorais e defendia o abstencionistas, a luta anti-capitalista e o recurso à violência.

Abreu disse que os sinais de abertura de Marcelo Caetano não foram oferecidos de mão beijada mas resultaram da pressão das lutas dos trabalhadores e de sindicatos com direcções de confiança dos trabalhadores.

Vítor Dias disse que, sem ilusões os comunistas aproveitaram sempre qualquer abertura política a que o fascismo era obrigado, para abrir a porta metendo um dedo, depois a mão e até o corpo todo.

Citando o livro de Lino Carvalho sobre estas “eleições, confirmou que a lista de candidatos e a comissão política da CDE reflectiam a convergência política realizada, a participação das bases nos respectivos processos electivos. Não confundir o conceito gramsciano de hegemonia com o carácter de esmagamento ou hegemonia imposta – que não existia – na CDE.

Sobre a invocada questão da disputa das hegemonias entre comunistas e socialistas se referiu o investigador João Madeira, sublinhando que, além disso, o PCP prevenira em Abril para a eventualidade de, no decurso doas discussões para uma lista unitária, os socialistas anteciparem a apresentação de uma lista. Este investigador fez ainda referência à reunião do CC publicada no Avante de Setembro de 1969.

Manuel Loff, a partir dos resultados eleitorais, distrito a distrito em 1969 e da afluência registada nos votos contados ao longo dos anos, constatou que quanto mais a oposição participava nos actos eleitorais, menor era o número de votos expressos, certamente porque uma maior fiscalização impedia as grandes chapeladas possíveis quando os agentes do regime estavam sozinhos.

Pedro Coelho afirmou que não percebia porque em 69 não houve unidade. A orientação interna da ASP e do PS era para os socialistas se meterem pouco nas coisas unitárias para poderem verificar o que valiam sozinhos. Mas os resultados de 1969 da CEUD foram desastrosos. Também a investigadora Susana Martins desenvolveu esta postura, referindo que, com Mário Soares, o sector político que influenciava sentia a necessidade de ultrapassar a hegemonia de veneráveis republicanos para ter uma organização à escala nacional que potenciasse a sua influência política.




sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Como vivi as "eleições" de 1969

A oportunidade de recuperar memória histórica e a reflexão feita na altura e posteriormente sobre o ano de 1969 e, particularmente, o período “eleitoral” ocorrido durante vários meses, tem a ver com a passagem de 40 anos sobre esse importante período político e as mossas que fez no regime fascista, que fingiu uma “liberalização”. Perdoem-me, antes do mais a extensão do depoimento. E já agora as gralhas que ao longo de duas versões não consegui eliminar.


1. Onde estava no dia 26 de Outubro de 1969, dia das “eleições”?

Na sede da CDE em Lisboa, depois de nos dias anteriores ter andado a distribuir por muitos lados (caixas de correio, empresas e organismos do Estado), as listas e boletins de voto da candidatura da CDE, para que quem fosse votar pudesse contar com outros suportes além dos da Acção Nacional Popular (ex-União Nacional).

Foi um dia longo, com notícias de irregularidades diversas. Eu estava integrado numa comissão de jovens activistas da CDE que faziam de tudo um pouco. A noite terminou com os resultados eleitorais esperados e com vivas a vários deles em que a CDE, apesar da grande chapelada, tivera resultados significativos, particularmente nas cinturas industriais de Lisboa e Setúbal. Porque, apesar de se saber que estávamos numa fraude, tinham-se gerado entusiasmos. Mas, peguemos nas questões por outra ponta.

2. 1969: um ano cheio, a começar no IST mas com outras facetas
Estava a tirar o 3º ano do curso de Engenharia Industrial no IST, de que era delegado de curso eleito pelos meus colegas. Estava envolvido no trabalho da direcção da Associação de Estudantes do IST, presidida por Mariano Gago, e de que fui vice-presidente. Os anos de 68 e 69 foram de grandes lutas também no IST.

Namorava e dava aulas para custear as minhas despesas. Andava a frequentar o campismo com outros colegas meus, parte dos quais também estavam na CDE, a convite do saudoso camarada Joaquim Campino, então presidente da FPCCC.

Depois deste período, o Vieira Lopes (hoje na Confederação do Comércio) convidou-me a integrar uma lista para a AEIST, como forma de me defender um pouco mais da PIDE/DGS. É um registo que guardo do trabalho com outros, esquerdistas, que travavam um combate comum mas também contra a nossa influência, que se viria a alargar no IST dois anos depois até ao 25 de Abril.
Depois de um período de quatro anos, a ausência de contactos com o PCP desde 1965, fizera-me aproximar de alguns esquerdistas de diversas formações, por neles reconhecer, à data, lutadores convictos com quem me identificava na acção e, por vezes, também nas ideias. Entretanto em 69 saiu da cadeia o saudoso José Bernardino, que me (re) recrutou e me pôs em contacto com a estrutura clandestina do Partido. O Zé saíra do IST para a clandestinidade. Saiu da cadeia para prosseguir o curso de engenharia. Enquanto esteve no IST o Bernardino teve apoio nos estudos por parte do Danilo de Matos, irmão do Arnaldo, com quem então convivi, antes de se tornar no “grande educador da classe operária”. O Bernardino, é claro, voltou à clandestinidade. A passagem temporária pela vida normal dos camaradas que tinham estado presos quando estavam clandestinos, era, em geral, seguida do regresso à clandestinidade.
O meu primeiro “controleiro” foi o escritor Mário de Carvalho, então estudante da Faculdade de Direito de Lisboa.

3. CDE, CEUD e a unidade democrática

Foi neste ambiente que também colaborei na CDE, como activista de base, depois da fase do recenseamento em que a oposição reclamou de inúmeras irregularidades. O meu irmão Luís tinha muito trabalho lá, ligado ao sector editorial, quer ao sector criativo com Ary dos Santos, Adriano Correia de Oliveira e outros ligados à Espiral, mas não só, e ao sector da reprodução com o Ladislau Gouveia.

Aí, contrariando à leitura oportunista que Mário Soares e a Acção Socialista (AS) faziam da “primavera” marcelista, e presos a concepções ultrapassadas de funcionamento organizativo da oposição, a situação desta mudava.
Por força da luta dos trabalhadores e da luta estudantil bem como de um renovado activismo de sectores católicos e correntes socialistas independentes à esquerda da AS, se reforçou uma unidade combativa mais consequente, apesar de algum debate interno com um sector que viria a originar o MES (Jorge Sampaio, Vítor Wengorovius e outros companheiros, que, por sua vez, tinham averbado uma experiência política importante no movimento estudantil e como advogados de presos políticos e de estudantes perseguidos, como também aconteceu comigo).
A opção de ida às urnas, com a chapelada generalizada e a desproporção de meios técnicos e logísticos em relação à União Nacional, permitiu esclarecer aqueles que tinham dúvidas sobre Marcelo, alguns dos quais quase estavam a querer transformar as oposição num tampão sobre o movimento de resistência antifascista em benefício do ditador que, supostamente, precisaria de uma “ajudinha” para vencer os “ultras”…
Não foi essa a primeira vez em que alguns defenderam que fosse legalizada uma oposição sem os comunistas. A seguir ao 25 de Abril de 1974, alguns também se dispunham a isso, ombreando com Spínola…

A opção da Acção Socialista por candidaturas suas, com a sigla CEUD, acabou por vingar em alguns distritos sem qualquer tipo de êxito relativo. Em Lisboa, por exemplo, a CEUD teve 4% e a CDE 15%.

Não me detenho, agora mais sobre esta questão. O José Manuel Tengarrinha, em entrevista que deu à Seara Nova em 2005 desenvolve os aspectos políticos mais relevantes.
Também é obrigatório consultar o dirigente do PCP que à data, tinha contactos com ele e que continua entre nós - Pedro Ramos de Almeida.

4. A repressão da “liberalização” no decurso deste período político

Não se pode avaliar a atitude de Marcelo como “liberalizante” por ter feito regressar Mário Soares do seu exílio de 4 estrelas em S. Tomé. Para conferir, por intermédio de contactos que manteve com quadros superiores do regime, maior consistência à farsa, e aceitando uma legalização da Acção Socialista em detrimento dos comunistas e outras correntes de opinião que tinham a maior influência na oposição.
Quem ainda hoje teoriza que Marcelo queria uma liberalização e estava convicto dessa necessidade em articulação com alguns grandes capitalistas que se queriam “libertar” do corporativismo, dos condicionamentos económicos, mantem uma ficção de baixa qualidade não sustentada - não nos desabafos ou iniciativas sem resultados mas da apreciação dos acontecimentos imediatamente posteriores.
Esta atitude de cooperação com a “primavera marcelista” de Soares e da AS não resultou da evolução própria do seu pensamento político. Muita gente na altura alimentava grandes expectativas de alguma “descompressão” mas não a aproveitava para percorrer ambições pessoais. Outros, que acabariam por vir para a oposição, emprestaram alguma cientificidade à abertura à investigação social de faculdades e outros organismos, ou participaram mesmo na Câmara Corporativa e organismos anexos.

Muitas prisões de militantes comunistas e de outras correntes políticas de idade mais recente, trabalhadores estudantes de um ano que foi de todas as lutas estudantis de norte a sul, não só com epicentro em Coimbra e com alguma influência do Maio de 68, dois assassinatos, de Ribeiro Santos, do MRPP e de Daniel, estudante português de Teologia da Universidade de Lovaina, a introdução de uma nova polícia de choque tipo anti motim e dos gorilas nas faculdades, foram questões que tiveram grande impacto nesse ano e que ajudaram a isolar o regime fascista que estava a ter dificuldades crescentes com a guerra colonial.
Permitam que refira um episódio comigo passado.
No 5 de Outubro deste ano, para além da romagem ao cemitério do Alto de S. João, onde também houvera pancada séria, realizou-se uma outra na estátua de António José de Almeida, nas traseiras do IST. Muita gente. A polícia de choque do Maltez Soares (oficial do exército feroz, com ligações a contrabandistas e a negócios de proxenetismo na Madeira e menino querido de Marcelo Caetano) formava fileiras com metralhadoras. Outros agentes da PSP mais convencionais integravam o grupo repressivo. O Maltez trazia o seu capacete com viseira ,que foi utilizando em múltiplas ocasiões até ao 25 de Abril. Cantou-se o hino nacional. A polícia carregou e espancou muitos dos presentes. Um dos mais atingidos foi Vasco da Gama Fernandes, um socialista de fibra que nestas alturas não ficava atrás dos outros. O meu irmão Luís agarrou-o. Ao meu pai partiram o braço com a coronha de uma metralhadora. Um grupo de jovens, em que me incluía, decidiu responder e atirou-se a um PSP pouco blindado. O homem apanhou, ficou sem a arma, o cassetete e o boné.
O Maltez espumava no estribo do nívea (ou carocha) da PSP, como gostava de fazer. Concentrou-se em mim (já a Clara Pinto Correia um dia escreveu que nestas confusões ela e outros estudantes me procuravam pela estatura…) “Agarrem aquele!”. Fui preso e logo ali espancado e enfiado dentro do nívea onde continuei a apanhar. O meu pai e o meu irmão enfiaram-se num carro e vieram atrás de mim mas, em frente ao liceu Filipa de Lencastre, um grupo de polícias de choque cortou-lhes o caminho e prendeu-os. Fui levado para a esquadra do Arco Cego onde entrei aos empurrões. Aí fui espancado durante algum tempo por uma meia dúzia de polícias de choque. Tive um ligeiro desmaio, recuperei e continuaram. Estive uns minutos sem ver. O sangue escorria. Fiquei cheio de nódoas negras e a cuspir sangue no resto do dia. Entretanto chegavam outros presos, os meus familiares, o Frederico Carvalho, a Eugénia Varela Gomes.
A concentração das atenções do Maltez em mim ficou a dever-se à necessidade de escolherem quem fosse responsabilizado pela cena do polícia desarmado. Mas de arma não falavam talvez para não pôr em cheque o agente que se vira privado das suas “razões”.
Não ficaram por aí. Eu e os outros fomos levados para os calaboiços do governo civil e daí só eu fui levado a interrogatório na sala do comando. Conduzido pelo então subchefe Manteigas e por outra besta. Ligações ao Partido, quem me recrutou, onde pusera os haveres do agente, etc., foram os motes. Como não respondia, espancavam-me a murro e a pontapé intervaladamente com novas tentativas para me porem a falar. Como não levaram nada, lá fizeram um auto de declarações, depois de lhes ter dito que só prestaria algumas declarações na presença do meu advogado, Dr. Vasconcelos de Abreu (que nesse ano era candidato e depois do 25 de Abril foi vereador da CML pelo CDS…). Como não meteram esta referência no auto, não assinei. Aí levei novamente, a sério. Voltei aos calabouços de rastos com o meu pai aos gritos.
Os candidatos da CDE tinham-se posto em campo para exigir a nossa libertação, que conseguiram. Ao sairmos, lá estavam o Tengarrinha, o Pereira de Moura e o Lindley Cintra e outros companheiros. Ah!, o sabor da solidariedade e da camaradagem...
Este foi um episódio. Mas 1969 está cheio, como disse, de muitos outros que envolveram tanta gente. O arrepio das concepções e interesses pessoais de Mário Soares que os socialistas fizeram de 1969 a 1973 resulta destes factos e de um efectivo envolvimento de muitos socialistas nas causas da oposição democrática.

4. Do movimento estudantil para a CDE. Duas sedes e muito movimento…

Foi neste ambiente que também colaborei na CDE, como activista de base e sem puxar os pergaminhos de dirigente estudanil. Como referi atrás, meu irmão Luís tinha muito trabalho lá, ligado ao sectorial editorial, quer ao sector criativo com Ary dos Santos e outros ligados à Espiral (mas não só) quer à reprodução com o Ladislau Gouveia, irmão do saudoso José Gouveia, que integrava a lista de candidatos da CDE por Loures.
Antes estivera na pequena sede da rua do Calado, ali à Penha de França (ver foto publicada na imprensa de então). A sede era pequena para suportar tanta actividade. Muita gente lá entrava que nunca estivera ligado à oposição semi-legal.
Dali, passamos a contar também com a sede do Campo Pequeno, ligada a uma vila que ainda existia há poucos anos, depois da sede ter sido destruída e dado lugar a escritórios. Era uma vivenda, com boas condições de trabalho. Dois pisos, um recuado para aparelho técnico que, por estar exposto (a PIDE fez várias investidas) levou a optar por várias outras tipografias. Lembro-me, por exemplo, da Gestetner perto da Av. do Brasil, e de outras em Alfama, na Rua do Alecrim e ainda outra no Bairro Alto. Mas também se recorria a escritórios de advogados do movimento para processar os stenceis electrónicos (Lopes de Almeida, Jorge Sampaio, Henrique Vareda, Vasconcelos Abreu, entre outros).
O ambiente na sede do Campo Pequeno também fervilhava de trabalho, de entradas e saídas, de múltiplas reuniões, de propaganda onde se notava as mãos de Ary dos Santos e de outros bons publicitários militantes (ver aqui alguns dos cartazes).

De Ary recordo nesse período de uma cena curiosa relacionada com o seu estilo muito próprio. Nos jardins do Campo Pequeno, a caminho da cervejaria, então existente na outra esquina do Campo Pequeno com a Av. da República, onde acabávamos as noitadas de trabalho, a zona estava recheada de pides e o Ary passou por um grupo de três e agachou-se como se estivesse a dar milho às galinhas (“pides, pides, pides…” dizia ele e gozávamos todos…).

A sede teve uma segurança nocturna a partir do momento em que a PIDE e legionários a quiseram vandalizar. Eram trabalhadores da Sorefame, da Carris, da CP, que me lembre. E também muitos jovens, estudantes e trabalhadores. O Nicolau Breyner, com um corpinho que metia respeito, fazia a ronda com dois enormes cães (também ele já foi candidato do CDS...). Para vencer o sono, cantava-se. Por lá passaram nessas noites o Adriano Correia de Oliveira, o José Manuel Osório, o Lopes de Almeida, bom advogado e bom guitarra, o Rui Mingas.

5. Ary dos Santos e o SARL
Do muito que gostaria de contar, meto mais esta.
Os comícios e sessões da CDE eram acompanhados pela polícia que impunha a sua presença. E acabavam mal com esta a intervir por os oradores não se cingirem ao que eles aceitavam. A guerra colonial, como o Tengarrinha refere, vinha no final das sessões pela sua própria boca e...as sessões acabavam.... Mas às vezes...
No Teatro Vasco Santana a sala está repleta. Candidatos na mesa serão os oradores. Mas eis que Ary avança com o seu conhecido poema "SARL". Di-lo, como calculamos. a subir da sua baixa estatura à estatura de um gigante. O Maltez Soares manda encerrar a sessão. O Ary sai do palco, dirige-se a ele e continua a dizer o poema em voz alta porque o som tinha sido cortado. O Maltez recua e grita "Se não saem, atiro para aí uma granada!...". Acabou por atirar a polícia de choque contra as pessoas à saída.

6. Uma oposição em mudança

Alguns teorizadores, que não viveram estes acontecimentos, e que se alimentam de opiniões de terceiros seleccionados a dedo e expurgados de alguma simpatia comunista, inventaram que algumas mudanças de cariz democrático no seio do próprio movimento CDE se teriam devido a correntes recém-chegadas à unidade democrática, contrariando a tutela comunista.... Isso não corresponde minimamente à verdade, com todo o respeito por estes últimos, importantes companheiros de uma luta comum e que contribuíram para recompor a diversidade política, tanto mais importante quanto Mário Soares decidira sair com a AS em importantes distritos.

O José Manuel Tengarrinha aborda também esta questão na citada entrevista. Relembrarei que, até então, um elemento que afectava a democracia interna do movimento. A questão da relação entre personalidades dirigentes e as bases do movimento.
Em 1969 esta questão, por iniciativa dos comunistas, começa a resolver-se através da criação da estrutura do movimento: comissões de freguesia, concelhias e distritais, comissões socioprofissionais por sectores de actividade e por grandes empresas. Por amplas discussões nas bases de ideias e documentos da estrutura dirigente que, também por isso, recolhe outra admiração e apoio. As guinadas ao nível dirigente passaram a carecer de compreensão e aceitação das bases.
Personalidades como Pereira de Moura, Tengarrinha ou Lindley Cintra inserem o seu reconhecido prestígio num trabalho que é colectivo e não lhes caem os parentes na lama... Personalidades como Mário Soares não tinham formação cultural e política para reproduzirem esta relação dialéctica. Mesmo quando Soares, muitos anos antes, representou o movimento juvenil na comissão central do MUD e criticou algumas das limitações desta, o que esteve em causa não foi essa relação dialéctica com o movimento, que não exercitou, mas a ambição pessoal de vir a ser um dia o grande dirigente da oposição.
Mário Soares não tinha qualidades nem estrutura intelectual para isso e falhou. Acabou por cumprir outros papéis.

Depois de 69, quase imediatamente e até o novo período "eleitoral" de 1973, as ilusões com Marcelo deixaram de ter peso significativo e durante esses quatro anos forjou-se no plano legal, semi-legal e clandestino essa nova forma de conceber o movimento de oposição: da base ao topo. Com grande representatividade regional e profissional, com uma representação de diferentes formas de expressão profissional, combinada com uma representação equilibrada de diferentes sensibilidades políticas que representavam formas de intervenção próprias. Nesses quatro anos deram-se saltos qualitativos notáveis: dos trabalhadores, criação da Intersindical, lutas estudantis e de variados meios culturais, no combate à guerra colonial. Na solidariedade com os presos políticos e com os movimentos de libertação e a criação do movimento democrático de mulheres. A criação do movimento dos capitães... Ao contrário do que alguns ousaram teorizar depois da revolução, esta não caiu do céu aos trambolhões...

Frase de fim-de-semana, por Jorge





"a preocupação maior tem sido afastar os cidadãos de intervirem no seu funcionamento".(a propósito da construção da Europa)



V.Magalhães Godinho
(in JL 23/10/2009)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Melhor crer do que lêr?, de Vasco Graça Moura, hoje no DN

Com a devida vénia ao autor e ao jornal, transcrevo o que hoje publicaram, que reflecte a independência de pensamento e desassombro do poeta.


"Há um bom par de anos, escrevi num artigo intitulado "Contra Deus" (Egoísta, Outubro de 2001) que "o Jeová da Bíblia é um ser caprichoso e muitas vezes iniquamente absurdo. O Deus dos Católicos (já agora, e por razões óbvias, é-me mais difícil falar do austero Deus dos protestantes…) é um ser em que o princípio da crueldade é transferido para a paixão de Cristo e que, no que respeita ao sem sentido do sofrimento do mundo, transpõe para uma dimensão escatológica a correcção de todas as injustiças e a abolição desse sofrimento. Em minha opinião, é preciso realmente ter muita fé para se acreditar e para se esperar que seja assim. Sem contar que se trata, no ensinamento eclesial ao longo de séculos e séculos, de um ser castrador e profundamente misógino, obstinado contra o que em nome dele se estigmatizava como 'pecado da carne', e redutor da filosofia (e portanto do próprio pensamento) à condição de serva da teologia (philosophia ancilla theologiae). A cultura, que para os Gregos era antropocêntrica, tende a tornar-se teocêntrica e cristocêntrica a partir dos primórdios do Cristianismo.A lógica passou a ser substituída pela aceitação passiva dos chamados mistérios da fé. Deus, e não o homem, passa a ser a medida dogmática de todas as coisas. O Cristianismo instaurou uma cultura do arrependimento, na expectativa da misericórdia de um Deus cujos desígnios são imprescrutáveis."O Deus do Velho Testamento é um ser intolerante, insatisfeito e vingativo. A terribilità da voz dos profetas tem qualquer coisa de deriva totalitária, existindo para o anúncio reiterado da catástrofe, se à rigidez da norma divina não for sacrificado, sem dó nem piedade, tudo e mais alguma coisa. A Bíblia é um texto compósito, de múltipla autoria, com passagens que podem ser extremamente interessantes e outras que são uma maçada insuportável, e também só um crente muito crente é que pode pretender ver no texto uma unidade que a Bíblia não tem e dar tantas voltas ao torno da interpretação que acabe por ler nela o que ela não diz. A esta minha opinião pode, evidentemente, ser contraposta qualquer outra. Por isso mesmo é que há liberdade de pensamento e de expressão. O que me espanta é que nenhum dos que saltaram a protestar indignados contra Saramago se sinta chocado com a adesão irreflectida e infundamentada da maioria dos crentes à sua própria crença, muito embora o credo quia absurdum não seja propriamente um paradigma idóneo de lógica formal ou comportamental. De resto, a Igreja Católica, receosa das iniciativas heterodoxas de interpretação dos textos sagrados e cedo feroz repressora da tolerância erasmiana, procurou evitar que a generalidade dos crentes lesse a Bíblia. Para quem duvide, aqui fica este extracto do Catalogo dos livros que se prohibem nestes Regnos & Senhorios de Portugal, de 1581: "Quanto às trasladações do testamento velho, somente se poderão conceder aos varões doctos & pios, por parecer do Bispo, com condição de que se use delas como de declarações da trasladação Vulgata, & não como texto sagrado. Mas as trasladações do testamento novo, feitas por Autores de primeira classe deste catálogo [i. e., constantes do Index], a ninguém se concedam: porque sói da tal ligação resultar aos Lectores pouco proveito, & muito perigo."É por isso que num Portugal de matriz católica há pouca tradição de leitura directa dos textos bíblicos, que não foram interiorizados pelas consciências como na Europa luterana. Os clérigos reservaram-se o exclusivo das quatro modalidades da interpretação dos textos sagrados, histórica, alegórica, tropológica e anagógica, de modo a que o sentido literal pudesse ser ultrapassado, ou mesmo escamoteado em sede figurada ou mística, sem dificuldades de maior. O comum dos mortais não precisava de se preocupar muito com os textos, apesar de, muito antes, Gregório Magno e depois Isidoro de Sevilha terem insistido na importância da lectio divina (sobre a qual, e no tocante à Alta Idade Média, José Mattoso escreveu páginas interessantíssimas). No entanto, para o autor das Etimologias: melius est orare quam legere… Será? "

domingo, 25 de outubro de 2009

Cartoon de Monginho

in Avante!

O fosso entre ricos e pobres aumenta em Portugal


Na lista dos países com maior fosso entre ricos e pobres Portugal vem em 5º lugar. A classificação é feita pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Do ponto de vista da desigualdade só Hong Kong (1º), Singapura (2º), EUA (3º) e Israel (4º) estão em situação pior do que Portugal. O coeficiente de Gini que o PNUD atribuiu a Portugal foi de 38,5 (numa escala em que zero representa a igualdade absoluta e 100 a desigualdade absoluta). O PNUD afirma que os 10% mais pobres da população portuguêsa detêm apenas 2% do rendimento nacional, ao passo que os 10% mais ricos detêm 29,8% do mesmo. A notícia está em Yahoo Finance.
Pelo seu lado, Eugénio Rosa confirmou esta constatação através de um estudo publicado no resistir.info, de que transcrevemos apenas o resumo.

“As desigualdades e a exploração aumentaram muito em Portugal nos últimos anos. Mostrar isso, utilizando apenas dados oficiais, é o objectivo deste estudo. Desta forma procura-se contribuir para chamar a atenção para uma realidade preocupante que não poderá ser nem ignorada nem esquecida pelo governo "Sócrates 2". De acordo com dados do Banco de Portugal, do INE e do Eurostat a percentagem que as remunerações, quer incluindo as contribuições sociais quer sem contribuições sociais, representam da riqueza criada, ou seja, do PIB diminuiu muito após o 25 de Abril. Assim, em 1975, ano em que a situação foi mais favorável para os trabalhadores, as remunerações "liquidas", ou seja, sem contribuições sociais mas antes do pagamento do IRS, representaram 59% do PIB, enquanto este ano (2009) prevê-se que representem apenas 34,1% do PIB, ou seja, menos 42,2% do que a percentagem de 1975 (em pontos percentuais, menos 24,9 pontos). Se os trabalhadores recebessem em 2009 um valor correspondente à mesma percentagem do PIB que receberam em 1975, receberiam em 2009 mais 40.860 milhões de euros de salários (Quadro I). Este valor dá uma ideia clara das consequências para os trabalhadores do agravamento da desigualdade na repartição da riqueza criada anualmente que se verificou depois de 1975.

Numa sociedade capitalista como é a nossa, o grau de exploração dos trabalhadores é medido pela taxa de mais valia ou taxa de exploração. As estatísticas em Portugal assim como as União Europeia não são elaboradas de molde a se poder calcular com precisão a taxa de mais valia, pois isso poria em causa o próprio sistema capitalista.
No entanto mesmo com as limitações existentes pode-se utilizar os dados oficiais para calcular uma taxa que dá uma ideia clara do aumento da exploração em Portugal nos últimos anos. E o valor que se obtém para essa taxa é de 46,3% em 1975 e de 100,6% em 2009. Portanto, a dimensão da exploração dos trabalhadores em Portugal mais que duplicou entre 1975 e 2009. De acordo com um estudo recente divulgado pela OCDE, Portugal é um dos países onde é maior a desigualdade na distribuição do rendimento. É precisamente no nosso País onde o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, é mais elevado (0,385). A média nos países da OCDE é de 0,311 (Gráfico I). Depois de Portugal, na OCDE apenas existem dois países: Turquia e México.

A pobreza está também a atingir milhares de trabalhadores com emprego devido aos baixos salários que auferem. No fim de 2008, 139,5 mil trabalhadores por conta de outrem recebiam um salário liquido médio mensal inferior a 310 euros por mês, e os que recebiam salários até 600 euros correspondiam a 40,9% do total de trabalhadores por conta de outrem (Quadro II). Uma camada numerosa da população muito afectada pela desigualdade na repartição do rendimento são os reformados. Em Julho de 2009, a pensão média de velhice de 1.843.375 reformados era apenas de 384,72 euros por mês, e 981.181 mulheres recebiam da Segurança Social uma pensão média de velhice ainda mais baixa (292,10 euros), portanto um valor muito inferior ao limiar pobreza (354,28€/mês-14 meses). Em relação aos reformados por invalidez a situação é ainda mais grave. A pensão media dos 300.173 pensionistas por invalidez paga pela Segurança Social era, em Julho de 2009, de apenas 321,25 euros. E o valor das pensões auferidas pelas mulheres (em média 281,10€ por mês) correspondia apenas a 77,8% das do homem. Mas existem distritos em que as percentagens são ainda inferiores, como sucede com Lisboa (69,4%) e Setúbal (64,4%) – (Quadros III e IV). Se a análise for feita por escalões de pensões conclui-se que 79% dos pensionistas de velhice e de invalidez recebem uma pensão inferior a 407 euros (Quadro V) Alterar a profunda desigualdade que existe na distribuição do rendimento e da riqueza em Portugal é uma obrigação do próximo governo. E isto até porque a desigualdade existente é uma das causas da fragilidade actual do tecido social e económico do país, e do atraso de Portugal. E como refere a própria OCDE, "a única forma sustentável de reduzir a desigualdade é travar o desfasamento de salários e rendimentos de capital que lhe está subjacente" (Crescimento Desigual? Distribuição do Rendimento e Pobreza nos Países da OCDE, pág.3, 2009).

Para além de uma politica salarial justa que o governo de "Sócrates I" sempre recusou é necessário também alterar um conjunto de leis que estão também a contribuir para agravar as desigualdades: leis fiscais que protegem os rendimentos do capital mas penalizam os rendimentos do trabalho; lei do subsidio de desemprego que exclui centenas de milhares de desempregados do acesso ao subsidio de desemprego; leis da segurança social que reduzem o valor das pensões dos trabalhadores que se reformam e que também impedem a melhoria mesmo das pensões mais baixas dos que já estão reformados; Código do Trabalho, Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas, Lei 12-A/2008, que estão a determinar a desregulamentação das relações de trabalho, dando todo o poder às entidades empregadoras e reduzindo drasticamente os direitos de quem trabalha; etc.”

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Frase de fim-de-semana, por Jorge



Se as leis de Nuremberga fossem aplicadas, então todos os presidentes norte-americanos posteriores à guerra seriam eforcados



Noam Chomsky (artigo de 1990)

Três Cantos: um concerto memorável



Foi um concerto memorável este “Três Cantos”.


Revisitação a trabalhos dos três autores, com arranjos muito bem feitos, que prenderam uma sala cheia, milhares de pessoas, numa tensão poética e musical e num grande entusiasmo, em que só o som não esteve à altura.


Três dos principais autores de novos cantares e músicas, ainda anteriores ao 25 de Abril e com grande presença nele, que nos têm acompanhado, realizaram ao fim de 40 anos aquilo que afirmaram ser um seu desejo de há muito.


Servidos por um naipe de vinte e dois músicos e coro de qualidade, cerca de trinta canções das suas vidas foram cantadas pelo seu autor ou os outros dois companheiros, alternando intervenções individuais e colectivas, a três vozes e poemas, com um inédito “Faz parte…o renascer das ousadias” e uma nova versão de “ Não Saber o que se Espera”, de José Afonso.


Todos os três diferentes, como sabemos, apesar dos muitos pontos de contacto, renasceram um a um em cada um dos outros, mantendo a sua identidade individual ao longo de três horas de espectáculo


A fnac vai fazer deste espectáculo gravado, um CD e um DVD, em edição especial limitada, que se adivinha, passe a publicidade, um êxito de Natal, com a promessa de estar nas lojas na semana entre 7 e 13 de Dezembro. Com promoção desde hoje até à edição.


Um livro de 40 páginas, 2 CDs e 2 DVDs custarão 29,95 euros (ou 26,95 em, pré- venda.


Só os 2 CDs, em edição normal, custarão 19,95 (ou 17,95 em pré-venda).


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Declaração de candidato presidencial ucraniano

Vladimir Litvin, presidente da Rada Suprema da Ucrânia (equivalente à nossa Assembleia da República) e candidato às próximas eleições presidenciais de 17 de Janeiro próximo, negou hoje categoricamente a utilidade da integração da Ucrânia na NATO e que o país deve mudar radicalmente de política externa.

Esta declaração constitui a confirmação de um revés para os círculos mais duros da NATO e da administração americana e o seu projecto de envolvimento da Ucrânia e da Geórgia. Mas não eliminam o receio mundial com os planos de investida contra a Rússia dos EUA e grandes potências europeias.


Litvin é presidente do Partido Popular e defendeu que o seu partido irá desenvolver o máximo de esforços para conciliar uma importante cintura de segurança com a manutenção de relações de vizinhança com os estados vizinhos, e para que o seu país não seja uma muleta a estruturas como a NATO como aconteceu depois da chegada ao poder de Viktor Iushenko.

De novo o desatino

Confesso que não me apetecia escrever sobre o Saramago. A atitude recente em relação às autárquicas de Lisboa não me caiu nada bem e preparava-me para uma quarentena de citações. Tenho o direito a ficar chateado.
Mas o desatino, a propósito de uma obra sua, voltou. Com toda a força do disparate.

Saramago decidiu promover o seu novo livro Caim com referências à Bíblia e ao Deus que ela nos configura. Ninguém de bom senso, nos dias de hoje, pode negar que as impressões que a Bíblia transmite a quem a leia, no seu isolamento e sem recorrer a um "conversor" teológico, é a que o autor refere. E fá-lo porque isso tem a vêr com o que o leitor deste novo livro nele vai encontrar.

Porta-vozes da Igreja, responsáveis da nossa comunidade judaica, até um deputadozito se atiraram a Saramago como gato a bofe. Guardai a vossa ira para a condição humana que se forja em torno de vós! Se o não fizerdes e gastarem o vosso tempo como algumas velhas gaiteiras não há Deus que vos valha e muito mal o estarão a servir!...E até desconfio que vos peçam credenciais quando rumarem ao reino dos céus...Vade retro, pois.

Já alguém disse que as vozes se levantaram sem que tivessem lido Caim. E leram a Bíblia?
PS - Em aditamento, aqui reproduzo comentário feito a um post do F. Penim Redondo sobre a matéria no dote.com.

"Saramago é criticável como qualquer comum dos mortais. Mas o tipo de crítica para com ele não colhe. Quer pela não leitura do seu livro, que poucos terão feito até agora e desde domingo, quer pela não aceitação de que a Bíblia contem, de facto, elementos suficientes para fomentar o ateísmo, como qualquer outro livro antigo que não sofra nas mensagens adequações teológicas aos dias de hoje. Sem iso não é assimilável àquilo que a Igreja apresenta hoje como sua doutrina.
Com tudo isto não subscrevo a exploração mediático-comercial característica de cada um dos seus últimos livros pelo próprio. Sobre isto penso que, sim, Saramago é indiscutivelmente passível de crítica."